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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

09/10/2016 08:55

Mãe e filho criam linguagem própria, para surdez não impedir o "eu te amo"

Thailla Torres
Mãe e filho viram na mímica o caminho para comunicação e o carinho. (Foto: Fernando Antunes)Mãe e filho viram na mímica o caminho para comunicação e o carinho. (Foto: Fernando Antunes)

De um lado o silêncio, do outro, quem ouve. Há 23 anos, Maria Angélica de Freitas, que é deficiente auditiva, dava à luz ao segundo filho, Luiz Henrique de Araújo. O menino nasceu sem qualquer problema de saúde, hoje é músico, não aprendeu libras, mas criou com a mãe uma linguagem própria, que acabou virando elo.

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Luiz tem 23 anos e diz que a palavra surdez surgiu na vida dele logo na infância, mas só fez sentido pouco antes dos 12 anos. Foi ali que o menino viu na deficiência da mãe um desafio e decidiu que nunca iria tolerar o preconceito.

"Na escola, tinha sempre um coleguinha que brincava com o fato da minha mãe não falar. As vezes isso me dava muito raia e já vi pessoas se aproveitando da surdez para falar pelas costas ou tirarem sarro. Eu sempre defendo e peço respeito", diz. 

Quando soube que a mãe era surda, filho lutou para dizer que isso nunca seria um problema. (Foto: Fernando Antunes)Quando soube que a mãe era surda, filho lutou para dizer que isso nunca seria um problema. (Foto: Fernando Antunes)

Quando teve noção de que se comunicaria de outra forma com a mãe, o jeito foi enfrentar como algo natural. "Sempre vi que isso não atrapalhava em nada a vida dela e eu sabia que eu tinha que me adaptar".

A mímica foi um dos caminhos que encontraram para a comunicação. "Faço sinais na cabeça quando falo de tomar banho, o coração para falar do amor e o teto para falar da nossa casa. A gente foi se virando com o que ficava mais fácil, não é Libras, mas a gente se entende muito bem e conversa de tudo dentro de casa. Quem olha de fora quase não entende, mas a gente não tem esse problema. São gestos que ela me ensinou desde criança", conta.

Para ele, a dificuldade maior tem sido aprender a linguagem de sinais, desde a infância. Mas ele garante que ainda vai aprender. "Não é fácil, é muita linguagem na mão que eu sinceramente ainda não consegui, mas eu vou aprender. Enquanto isso, a gente se comunica do nosso jeito, as vezes demora um pouco pra entender, mas a gente ri e tenta de novo. Porque até quando faço um gesto errado, mãe sempre sabe do que o filho tá falando, a gente se comunica até pelo olhar". 

Maria, tem 45 anos e ficou surda após ter meningite. A avó de Luiz ouviu da médica que Maria não iria mais ouvir aos 4 meses de vida, quando percebeu que a menina não dava sinais de incômodo ao barulho e dificilmente chorava. "Ela teve meningite logo que nasceu, minha avó conta que os médicos não disseram que ela estava com algum problema e depois que foi diagnosticada, soube que o caso era irreversível", conta.

Maria tem um jeitinho tímido, mas sorri por todo amor do filho. (Foto: Fernando Antunes)Maria tem um jeitinho tímido, mas sorri por todo amor do filho. (Foto: Fernando Antunes)

Apesar do choque com a notícia, a mãe de Maria seguiu adiante e batalhou para que os filhos sempre tivessem uma vida normal, assim como o irmão mais velho dela, que também é deficiente auditivo. "Meu tio também não escuta, então a família aprendeu muito com eles, apesar das dificuldades, isso nunca mudou em nada. A gente só se comunica de um jeito diferente", diz o filho.

E foi ela, Maria, quem mostrou que apesar das limitações auditivas, pode ser independente. Casou nova, separou do primeiro marido após 15 anos. Hoje é casada com o padrasto de Luiz que ele considera um pai.

Para o músico, a mãe é a base da família e um exemplo de mulher guerreira. "Nunca me deixou faltar nada. Muito menos amor e carinho, isso é o que eu mais admiro, porque ela nunca colocou a deficiência na frente, como uma dificuldade. Vai ao banco, supermercado, pega ônibus e faz tudo sozinha. Eu tenho muito orgulho disso", declara.

Atualmente, Maria trabalha como auxiliar de limpeza na Maternidade Cândido Mariano, em casa aproveita o carinho do marido e do filho coruja. "Minha irmã já casou, mas eu não sinto vontade de deixar ela sozinha e o que motiva e esse amor de mãe. Vale a pena todos os gestos". 

O "eu te amo" também não vem em palavras. Os gestos improvisados valem mil declarações de amor. "Ela diz eu te amo sempre e me lembra que a gente é uma família. Quando não mexo as mãos, é porque as vezes nem precisa, ela sabe como eu estou só pelo jeito que eu olho. Aquele amor incondicional de mãe que nunca vai precisar de palavra, sendo surda ou não", declara o filho.

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