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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

25/04/2015 07:12

Mãe esqueceu aniversário da filha e a cobrança veio em um bilhete emocionante

Paula Maciulevicius
A história aqui descrita a partir da mensagem pertence à filha Emily e à mãe Rute. (Foto: Fernando Antunes)A história aqui descrita a partir da mensagem pertence à filha Emily e à mãe Rute. (Foto: Fernando Antunes)

“Mãe, eu estou muito triste, porque você não tem tido tempo para mim...”. Em uma folha de agenda, com a data do dia 13 de abril, escrito à mão, a menina de 19 anos começa assim o bilhete destinado à mãe.

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Encontrado na noite anterior, Rute Viana, a mãe, relembrava as palavras como quem ainda está digerindo os dizeres do bilhete que havia ficado em cima do travesseiro. “Eu li e me impactou...”, explicava.

A história aqui descrita a partir da mensagem pertence à filha Emily e à mãe Rute, mas se encaixa perfeitamente em várias famílias que vivem numa corrida contra o tempo. Os ponteiros do relógio têm passado tão depressa que a cada hora que chega, são 60 minutos que se foram e muitas vezes sem que a gente se dê conta...

“Por mais que a gente quer fazer sempre o melhor para eles, a carência deles é tão grande que não é o suficiente”, argumenta Rute. Ela respira fundo ainda procurando respostas para cada ponto levantado pela filha.

Aos 47 anos, a mãe tem uma bagagem de vida dedicada ao trabalho e uma rotina que ainda a faz sair de casa às 7h da manhã e só retornar à casa quando a filha já saiu para a faculdade.

"É que nós temos nossas diferenças de horário. A nossa correria do dia-a-dia não encaixa... A tecnologia que foi uma grande maravilha, você vê que ela também estraga tudo... Quando anoitecia, as famílias se sentavam para conversar. Tinha-se mais tempo. Hoje todo mundo não tem tempo para fazer qualquer coisa. O toque, o estar junto... Às vezes a gente não consegue fazer com que isso aconteça e quando faz, nunca é a contento”.

No bilhete, a filha escreve também que o tempo que cobra não é em quantidade, mas sim em qualidade. “Quando eu digo tempo, é qualidade de tempo. Eu quero sair com você”. A mãe rebate colocando mais uma vez a carência em cena. “Sair fora daqui? Passamos oito dias juntas numa viagem”. As malas, mal haviam sido desfeitas.

O motivo do escrito pode ter surgido há alguns dias, quando a mãe, admite a mim, que esqueceu o aniversário de Emily nas primeiras horas do dia. "No bilhete ela diz que a hora que eu acordei, não disse ‘feliz aniversário’. É que é tão automático... Eu acordo, abraço e beijo. Não caiu a ficha que era o dia... E ela me cobra no bilhete”.

Sobre a jovem, Rute fala com os olhos brilhando o quanto a menina tem talento para a fotografia. Aos 15 anos, a mãe colocou Emily num curso, depois comprou equipamento profissional e hoje acompanha orgulhosa os cliques da filha. Como o trabalho a permite ter mais tempo em casa, é nestas horas, segundo avaliação da mãe, que a jovem sente mais a falta.

"É um trabalho formidável dela. E ela realiza ele em casa, a edição das fotografias. É o momento em que ela fica sozinha, eu estou fora e ela quer compartilhar, quer trocar ideia, ela sente muito a ausência ali", explica Rute.

"Mas ela colocou também que eu estou perdoada, ela diz 'eu reconheço e perdoo você. Mas eu queria que você soubesse o quanto isso está me entristecendo".

Pergunto se a mãe sente culpa quando os olhos encontram aquelas palavras. "Culpa? Olha se eu disser que não, eu vou estar mentindo. A gente sempre sente sim, embora eu tenha que trabalhar... O que eu faria para suprir a carência deles? É uma pergunta bastante difícil de responder essa".

Rute volta no tempo, pelo menos na imaginação, que permite este retorno através das lembranças do que se foi e que não volta mais. "O que eu faria não dá para ser feito, que é voltar ao passado. Como não dá para voltar lá e mudar... Mas eu tentaria aproveitar, o máximo possível. Se eu pudesse voltar, eu mudaria. Estaria mais presente, seria mais presente. Não vale a pena trabalhar tanto. Fica uma lacuna que eles levam para a vida toda", justifica a mãe.

Na infância de Emily, Rute era enfermeira em hospital. Um plantão atrás do outro. "Esse grito não foi de agora. Ele já está ali dentro, implantado há muito tempo. Eles crescem, mas a ausência parece que cresce junto. É aquela saudade que não passa. A ausência, a saudade, o sofrimento quando criança amadurece junto", descreve a mãe.

Rute tem outro filho, mais velho que Emily e que lida de forma diferente com a falta. "Ele me pega, me aperta, diz que não vai me deixar sair. Ela quer conquistar, ele faz acontecer... E eu faço isso sempre que possível, boto a cabeça deles no colo, brinco. Falo que eles são importantes para mim. Eu me orgulho da Emily, ela tem uma cabeça maravilhosa", contextualiza.

As fotos da filha: (Foto: Emily Marjorie)As fotos da filha: (Foto: Emily Marjorie)
(Foto: Emily Marjorie)(Foto: Emily Marjorie)
(Foto: Emily Marjorie)(Foto: Emily Marjorie)

A relação da mãe com os filhos é descrita por Rute como "muito legal, mas não é suficiente". "A gente se machuca todos os dias, a gente pede desculpas menos do que deveria. Eu não faço tudo o que eu gostaria".

Do bilhete, as partes destacadas em amarelo foram grifadas pela mãe. "Tem um trecho dizendo que ela reconhece a minha correria e pede para eu descansar um pouco. Que tudo que ela pensa em fazer, não é de última hora, é planejado e ela queria que eu fosse mais tranquila, para a gente aproveitar mais a vida".

"Quero ter qualidade no tempo com você. Quero sair com você. Estar perto de você", repete o bilhete. "E eu quero fazer isso", me responde a mãe sobre o descanso.

"Se eu pudesse voltar no tempo, eu ia curtir mais eles. Estar mais presente ao invés de dar presentes. Quem tem mais presença precisa de muito menos presentes. Como o tempo passa, eu não posso voltar lá...", continua a mãe.

Rute e Emily, no dia da entrevista, não haviam conversado ainda. "Mas ela vai entender, só de ela escrever, ela sabe que pode contar comigo e o fato de que sentiu minha falta é que ela não desistiu...". A mãe ainda emenda que nas chamadas de atenção que dá à filha, sempre ouve "eu vou melhorar". Hoje, é ela quem diz isso à menina. "Eu vou melhorar", finaliza.

Quero ter qualidade no tempo com você. Quero sair com você. Estar perto de você, repete o bilhete. (Foto: Fernando Antunes)"Quero ter qualidade no tempo com você. Quero sair com você. Estar perto de você", repete o bilhete. (Foto: Fernando Antunes)



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