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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

20/09/2016 06:05

Marca de tiro no peito é a prova da segunda chance na vida de empresário

Paula Maciulevicius
Marca dos 9mm que entraram no peito de Adriano. (Foto: Alcides Neto)Marca dos 9mm que entraram no peito de Adriano. (Foto: Alcides Neto)

Adriano tem 41 anos de vida e 10 de renascimento. A marca do tiro que carrega no peito é da pistola 9 milímetros disparada por um bandido durante assalto, 10 anos atrás, quando o empresário chegava em casa, no bairro Itanhangá Park, em Campo Grande.

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Com uma infância difícil e uma adolescência na qual trocou a escola pelo trabalho, a história da vida de Adriano passou como um filme em sua cabeça enquanto ele tentava sair do carro baleado. O assaltante chegou na janela do veículo e, com a pistola apontada para a cabeça dele, exigiu o celular. Na hora, Adriano não reagiu, mas se assustou e o bandido atirou em direção ao coração. 

"Consegui sair do carro, rastejar e naquela hora tudo passa na cabeça. Vida, teu filho, tua história. Na verdade, a tua história é a tua falta, onde você vai chegar e faltar", descreve as cenas, Adriano Bravo.

Esposa Ana Paula ouviu dos médicos que era para ele ter morrido. (Foto: Alcides Neto)Esposa Ana Paula ouviu dos médicos que era para ele ter morrido. (Foto: Alcides Neto)

O empresário recorda que conseguiu descer do carro, cruzou a rua e caiu deitado. "Fiquei igual Jesus Cristo, de mãos abertas, sem saber o que fazer, se alguém vinha me ajudar, me atender e ouvi voz me chamando, perguntando o que tinha acontecido, mas eu não conseguia falar, estava ficando sem ar, tinha perdido muito sangue e já tinha me entregado"...

O que ele se lembra, passado isso, era de acordar com gente de branco ao seu redor, sem saber onde estava, tentar se mexer e não conseguir. A descrição que Adriano faz se assemelha ao que a gente vê nos filmes, mas não acredita o quão surreal pode ser vivê-la e o tempo passado, ainda traz emoção. A voz embargada, as lágrimas se formam nos olhos e ele até precisa fazer uma pausa para retomar o fôlego.

Junto da esposa há 26 anos, ele e Ana Paula se conheceram quando ela tinh 12 e ele 15. Foram vizinhos no Nova Campo Grande. Os pais dela eram contra o namoro, claro, pela idade. Mas o casal resistiu. "Meu primeiro e único namorado. Meus pais proibiram por um tempo, eu era criança, mas ele, como sempre insistiu. Não aceita não e a gente acabou ficando", conta a também empresária, Ana Paula Bravo, de 37 anos.

Aos 17 anos dela, depois que os pais foram embora, Ana Paula foi morar na casa de Adriano e um ano depois, engravidou do primeiro filho, Leonardo. "Casar mesmo, não casamos de papel, essas coisas...", detalham.

E até chegar ao Nova Campo Grande, foram anos trabalhando em outras regiões da cidade. Adriano chegou à Capital pequeno, de 5 para 6 anos, o menino do meio de uma família de cinco filhos que vinha de Cândido Mota, interior de São Paulo.

Como Adriano ficou, de braços abertos, esperando socorro. (Foto: Alcides Neto)Como Adriano ficou, de braços abertos, esperando socorro. (Foto: Alcides Neto)

"Meu pai não tinha dinheiro para trazer a gente, ele veio primeiro de sacoleiro, batendo de porta em porta e nisso conseguiu carona para a gente vir pra cá", conta. O primeiro trabalho dele ainda menino foi o de vender jornal nas ruas e depois estampar camisetas, confeccionar cintos que levavam o sobrenome da família como marca, até chegar à loja Maffia.

À época do tiro, Adriano recorda que exercia duas funções: financeiro da rede de lojas e proprietário de uma pizzaria na Furnas. "Aí em 2005 foi o boom... Apaguei, acordei na Santa Casa e nessa trajetória toda, ouvi, vi uns vultos, pessoas e ouvia dizendo: 'vamos perder ele, vou perder ele' e aquele barulho de máquina..." lembra.

Sem conseguir se mexer da maca, ele descreve como era a sensação de tentar reagir e não ter forças. "Apaguei literalmente, acordei com um mundo de branco, meu corpo todo remendado. Não sabia o que tinha acontecido, olhei para tudo aquilo e perguntei se estava no céu", relata.

Do outro lado, ouviu de um dos enfermeiros da equipe se ele era tão santo a ponto de ir direto para o céu e que na verdade, todos estavam tratando dele na Santa Casa. "Você está aqui menino, olha o tanto de gente doente, teu caso foi grave, quase te perdemos... Aí a hora que eu vi ela, minha família", aponta para a esposa.

O que os médicos relataram a ele foi que a bala pegou no peito, percorreu o diafragma, a costela e se alojou no fígado. "Cheguei com 1,5l de sangue, pupila dilatada e pressão em 0,5. O médico assinou óbito para mim", resume.

Uma semana depois da alta, Adriano retornou para o centro cirúrgico, a bala tinha perfurado parte do pulmão. "Aí veio tudo de novo aquela história, mas voltei e graças a Deus, pronto, cheio de energia. Por isso eu falo que foi um boom", compara.

Casal espera hoje quarto filho, Enzo. (Foto: Alcides Neto)Casal espera hoje quarto filho, Enzo. (Foto: Alcides Neto)

O disparo, a sensação de quase ter partido e o filme que passou diante dos olhos de Adriano, fizeram com que ele desse mais valor, não só da boca pra fora. "Mais valor a qualquer tipo de detalhe na tua existência, cada minuto que passa, o tempo é precioso, é curto, mas é o tempo que Deus me deu para um momento novo em mim, uma segunda chance, uma segunda vida". 

A esposa confirma, ouviu dos médicos que a família toda deveria rezar, para todos os santos possíveis.

"A sua volta foi porque Deus te salvou, olha aqui seu atestado assinado. O médico me mostrou o atestado de óbito dele assinado", jura Ana Paula. "Levar um tiro no coração? Você foi testado e te deram mais uma chance, você está aqui", recorda as palavras do especialista. 

Adriano é pai de três: Léo, de 17 anos, Beatriz de 14, Duda de 13 e acompanha de pertinho o crescimento do caçula, Enzo, ainda na barriga de Ana Paula, com 5 meses de gravidez. "Passei a administrar melhor a minha vida, meu trabalho, passei a ter uma cabeça mais lúcida, uma, sei lá... Visão diferente. Tudo mudou depois de 2005". 




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