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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

22/12/2014 08:07

Menina de 12 anos pede o primeiro presente de Natal: uma cama para dormir

Paula Maciulevicius
A simplicidade do desejo vem carregado de um passado triste: a menina nunca teve uma cama só sua. (Fotos: Paula Maciulevicius)A simplicidade do desejo vem carregado de um passado triste: a menina nunca teve uma cama só sua. (Fotos: Paula Maciulevicius)

A carta endereçada ao Papai Noel tinha apenas um pedido: uma cama de Natal. Era isso que Aline dos Santos, de 12 anos, queria ganhar este ano do bom velhinho. A simplicidade do desejo vem carregado de um passado triste. Além de ela nunca ter tido uma cama só sua, a menina passou os últimos dois anos 'pulando' de casa em casa entre os 10 irmãos, depois que a mãe, dependente química, foi presa. 

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Aline ganhou a cama e está numa alegria só. Quando o Lado B ligou, da última vez para pegar as indicações de como chegar na difícil rua que tem dois nomes - nenhum deles no mapa - no bairro Bosque do Carvalho, ela aguardou a equipe chegar na porta de casa. A rua sem asfalto e a casa sem portão faziam contraste com o tamanho do sorriso da pequena. A felicidade não cabia nela e transbordava em meio à tanta carência.

"Eu pensei em escolher uma cama, porque eu dormia com a minha irmã, minha tia falou: pede uma cama só para você e eu pedi. Aí veio um homem aqui pra ver se o endereço estava certo ou errado. Minha irmã atendeu ele e não demorou muito e ele já veio com a cama", narra.

A rua sem asfalto e a casa sem portão faziam contraste com o tamanho do sorriso da pequena. A rua sem asfalto e a casa sem portão faziam contraste com o tamanho do sorriso da pequena.

Na casa de apenas quatro cômodos: sala, cozinha, banheiro e um quarto, moram Aline, a tia Solange, a irmã de 33 anos, com quem dividia a cama e um primo. 

"Quando chegou? Foi uma alegria só. Eu nunca tinha ganhado presente, nem uma cama". A frase sai com uma naturalidade cruel. De quem nunca ganhou presentes de Natal, nem mesmo um para dormir. Desde maio que a menina está em Campo Grande, foi trazida de Corumbá pela tia depois que a notícia do paradeiro da menina chegou aqui.

"Me disseram que ela tinha que ficar sete anos presa. A mãe e uma irmã foram presas, o motivo eu não sei, ela tinha passado por uma irmã e estava morando com um irmão. Eu peguei, fui até a mãe dela e fui no Conselho Tutelar que passou a guarda para mim", conta a tia, Solange dos Santos, de 55 anos.

"São 11 filhos, ela é das últimas. É tudo muito carente lá e a mãe dela se entornou no vício", completa a tia.

Fico com receio de prosseguir a história na frente da menina. Mas Aline encara tudo com normalidade. Afinal, foi a vida que ela teve. A tia segue dizendo que antes desse irmão, Aline passou por uma outra irmã, junto do caçula de 11 anos e um de 30 que é deficiente. "Mas ela já tinha cinco filhos, ficar com mais três era muita gente e ela não quis mais".

Aline agora que terminou o segundo ano da escola. Aos 12 anos, a menina não sabe dizer nem por quanto tempo está sem ir à escola.Aline agora que terminou o segundo ano da escola. Aos 12 anos, a menina não sabe dizer nem por quanto tempo está sem ir à escola.

Entre os presentes de Natal, Aline diz que ela tem mais uma opção, que a cama, segundo instrução recebida pela tia, deveria ser pedida por ser mais "simples" e fácil de ser concedida. "Eu queria também um tablet, aqueles celulares tipo computador", descreve a menina.

Aline agora que terminou o segundo ano da escola. Aos 12 anos, a menina não sabe dizer nem por quanto tempo está sem ir à escola. Quando chegou aqui é que voltou aos estudos.  

Solange, a tia, é empregada doméstica, não teve filhos, mas ajudou a mãe na criação de alguns sobrinhos. É com tristeza nos olhos que ela conta que perguntou à menina o que poderia dar a ela de presente. De tia para sobrinha. "Eu perguntei: o que você sempre ganhava? Ela me disse que nunca ganhou nada, que sempre a mãe dela não tinha".

Quando a nossa conversa caminha já para o final, percebo que a cama de madeira e o colchão que Aline já ganhou é o de menos para a menina. Não que o tablet venha completar a lista, mas o que ela precisa é de esperança. Ela, a tia, a casa toda. 

Esperança de acreditar que vá conseguir se reunir com os irmãos de novo, que é o desejo de Natal da tia. "Eu queria ganhar material de construção para poder ampliar essa casa e trazer o irmão de 11 anos e o deficiente para cá. Ela é muito apegada a eles e ela também quer trazer", explica a tia.

Na cabeça dela, a reforma até já foi feita na simples casinha. "É só fazer ali, uma sala ampla, fazer dessa sala aqui mais um quarto e deixar a cozinha onde está. Era isso que eu queria de Natal".

A esperança de que que vá conseguir se reunir com os irmãos de novo, é o desejo de Natal da tia. A esperança de que que vá conseguir se reunir com os irmãos de novo, é o desejo de Natal da tia.



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