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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

19/11/2014 06:35

Merendeira que deixava aluno repetir ainda é lembrada com carinho

Paula Maciulevicius
Até hoje, de aeroporto à entrega de jornais, sempre tem um adulto que volta à infância ao ver os traços de dona Zeli já envelhecidos. (Foto: Marcelo Calazans)Até hoje, de aeroporto à entrega de jornais, sempre tem um adulto que volta à infância ao ver os traços de dona Zeli já envelhecidos. (Foto: Marcelo Calazans)

Os cabelos de dona Zeli que, por 25 anos ficaram guardados debaixo da touca, hoje estão branquinhos. O andar já é mais devagar, mas o carinho na fala é o mesmo de quem se dedicou de 1973 até 1998 à servir merenda para centenas de alunos na Escola Estadual Arlindo de Andrade Gomes, em Campo Grande.

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Uma das mais antigas merendeiras da cidade tem hoje 74 anos e ainda é reconhecida pelos alunos para quem serviu e até deixou repetir os pratos daquele saudoso arroz com galinha e carreteiro. "Eu entrei como merendeira na época do governador José Fragelli. Como eles me chamavam? Era de merendeira mesmo e já me perguntavam o que ia ter hoje", lembra.

Durante duas décadas ela cumpriu jornada de 8h e ainda voltava à noite na escola para fazer o café do período noturno. Por morar pertinho, no Lar do Trabalhador, as idas e vindas ao trabalho eram feitas a pé mesmo, até a escola na Avenida Júlio de Castilhos.

A lembrança ainda fresca à memória dos ex-alunos, a merendeira atribui ao fato de que ela foi das "boas". "Eu não era caxias não. Não tinha esse negócio. O que eu podia fazer, eu fazia. Deixava repetir calmamente. Eu dava meu jeitinho brasileiro. Tinha alunos da noite que chegavam amarelinhos do serviço. Eu arrumava comida e deixava tudo pronto no depósito. Eles iam lá e comiam, mas era escondido", lembra.

Uma das mais antigas merendeiras da cidade tem hoje 74 anos. (Foto: Marcelo Calazans)Uma das mais antigas merendeiras da cidade tem hoje 74 anos. (Foto: Marcelo Calazans)

Até hoje, de aeroporto à entrega de jornais, na Avenida Afonso Pena, nas manhãs de domingo, sempre tem um adulto que se lembra da infância ao ver os traços de dona Zeli já envelhecidos. "Tinha um menino que ele sentia era vontade de tomar café. Esses dias ele me perguntou: como vai a senhora? Eu perguntei: de onde me conhece? Eu gostava de tomar café e a senhora me dava escondido". Sinal de que a bondade de anos atrás é retribuída em carinho no agora.

"Já teve aluna que diz que quando ficou grávida, queria comer meu arroz com galinha. Mas por que ela não veio atrás de mim? Eu fazia oras", anuncia, deixando claro que quem quiser relembrar os tempos de escola, ela ainda vai para o fogão.

"Paçoca era outra coisa que a gurizada gostava, galinhada e arroz carreteiro. Nossa, o carreteiro era muito solicitado", conta. As refeições eram servidas às 9h da manhã e depois às 3h da tarde. Durante um bom tempo, dona Zeli foi sozinha no fogo e no servir pratos para 16 salas de aula. "Como que eu dava conta? Tinha que dar conta, eu acabava de servir e já ia lavando a louça", explica.

Além da bondade de deixar as crianças comerem mais de uma vez, a merendeira tinha segredos nas receitas. "Amor e carinho, são os melhores temperos", brinca. Mas na verdade, a dona do gostinho especial no arroz com galinha era a manjerona. E no carreteiro, "para deixar amarelinho, eu queimava açúcar", revela. Cebola e alho, frequentemente eram levados da própria casa dela para temperar as comidas.

Maria Zeli Pedreira criou, trabalhando na merenda, três filhos. Quando o trio ainda era pequeno, ela se separou e teve a responsabilidade de educá-los. "Mas todos fizeram primeiro e segundo grau, dois têm faculdade e um deles é na Federal. Eles também são tudo concursado", propaga.

Já tinha chegado aos ouvidos de dona Zeli que o Lado B a procurava. O motivo, ela até sabia, mas custava a acreditar que era tão "famosa" assim. "É uma recordação boa, onde eu encontro aluno, eles vêm me cumprimentar e me agradecem, dizendo que a merenda era gostosa".

Das conterrâneas da época, só dona Zeli ainda vive para relembrar estas histórias. Dona Rita e dona Ramona, como ela faz questão de citar, já morreram.

Como já tinha deixado a escola há muito tempo, seria difícil reencontrar conhecidos. Então o Lado B levou dona Zeli só para ter como imagem o ofício dela durante os 25 anos. A entrada e a cantina ela reconheceu logo de cara, mas os olhos estavam surpresos ao ver tanta novidade.

"Isso não tinha, ali também não tinha. O piso era outro, mas a cantina sempre foi aqui", apontava. Gentilmente, as merendeiras de hoje cederam a touca e o espaço para que dona Zeli voltasse no tempo, ainda que fosse apenas para a reportagem.

"Eu tive orgulho de ser merendeira, porque foi um trabalho muito bom e valeu a pena trabalhar 25 anos no mesmo lugar".

O Lado B levou dona Zeli de volta à escola. Creio que o passado veio à tona, talvez numa imagem fora de foco. (Foto: Marcelo Calazans)O Lado B levou dona Zeli de volta à escola. Creio que o passado veio à tona, talvez numa imagem fora de foco. (Foto: Marcelo Calazans)



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