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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

25/11/2016 07:21

Mesmo depois da "falsa cura" e da partida do meu irmão, não vou desistir da vida

Fabíola escreve como tem sido o último ano sob o peso da leucemia e da morte do melhor amigo

Thailla Torres
Fabíola fará o segundo transplante em menos de um ano. (Foto: Marina Pacheco)Fabíola fará o segundo transplante em menos de um ano. (Foto: Marina Pacheco)

Aos 25 anos, ainda é difícil para Fabíola de Jesus Escobar entender onde arranjou forças para as lutas que a vida criou. Neste ano, lidou com duas situações que a deixaram em choque. Primeiro, o diagnóstico da leucemia que bateu à porta por duas vezes. Quando pensava que havia superado a doença, ela descobriu o conceito "falsa cura". Depois, chegou a notícia da partida do irmão, o companheiro e melhor amigo durante essa caminhada de recuperação.

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A dor tão inesperada ainda faz Fabíola chorar. Mas ela ainda carrega aquele sorriso de quem tem esperança. A persistência veio no amor pela família, que ela descreve aqui no Voz da Experiência. 

Crianças, essa é a foto que Fabíola e Paulo mais gostavam. (Foto: Arquivo Pessoal)Crianças, essa é a foto que Fabíola e Paulo mais gostavam. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Eu estava com 20 anos quando tive a primeira notícia que mudou minha vida. Estava trabalhando, perto de casa, e constantemente ficando cansada. Fui ao médico dizendo que estava me sentindo muito estranha, na época em 2011, os especialistas disseram que eu estava com leishmaniose, até passar por exames mais específico e diagnosticar a leucemia.

Estava com leucemia mielogênica aguda. Só bastava a quimioterapia e medicações para eu ficar curada, diziam os médicos. Mas o processo de quimioterapia, como muitos sabem, não é nada fácil. Durante o período, era ânsia de vomito a todo tempo. Até o cheio de outra pessoa ou o perfume me deixavam enjoada. Não conseguia comer e sentia fraqueza. Mas fiquei bem em menos de um ano. Consegui voltar a trabalhar e estudar, fazendo o curso de Direito.

Moro com minha mãe e meu avô em Campo Grande, ele é acamado e minha mãe deixou o emprego de doméstica para cuidar de nós dois dentro de casa. Nesse tempo, era com o sorriso e ajuda do meu irmão Paulo Henrique Jesus Escobar, de 27 anos, que eu sempre contava.

Fiquei de 2011 a 2013 na quimioterapia e, de repente, voltaram as marcas roxas e o diagnóstico de que eu não estava bem. Fui para o centro cirúrgico colocar um cateter no peito. Entrei para a fila de espera de um transplante.

Os meus irmãos não eram compatíveis comigo e precisei ficar na fila. É a espera mais agoniante. Imagina ter que dormir fiquei a noite, sem receber um telefonema de que achou alguém compatível. Eu ainda encontrava pessoas que estavam há anos lutando e na esperança de encontrar um doador.

Em um nova consulta, o médico me disse que havia a possibilidade de eu fazer o autotransplante de células retiradas da minha medula óssea e eu fiz o procedimento em janeiro. Do meu lado, além da minha família, era a presença do meu irmão Paulo Henrique que me trazia forças. Fiquei três meses em uma casa de apoio, em São Paulo. Voltei em março depois do procedimento. Por conta disso, fiquei muito isolada. Afinal, não tinha tomado ainda nenhuma vacina e o corpo fica mais sensível. Mas voltei para a casa e nos exames deu que eu estava curada.

Voltei a ter uma vida normal, comemorando a vida todos os dias. Só que eu ia todo mês ao hospital passar por exames e foi em agosto a primeira notícia triste. Voltei a ficar doente, o médico disse que eu estava ruim e deveria voltar à quimioterapia em 60 dias.

Depois da ideia de falsa cura, veio o choque, pensando em como eu passei quatro anos, esperando por esse momento e acreditando que o autotransplante tinha me dado a cura. Mas graças ao meu irmão, que estava sempre ao meu lado, eu sabia que poderia seguir em frente, mas não a ponto de conseguir lidar com mais um choque.

 

Uma das últimas fotografias, antes da quimioterapia. (Foto: Aquivo Pessoal)Uma das últimas fotografias, antes da quimioterapia. (Foto: Aquivo Pessoal)

Paulo Henrique era a pessoa que eu mais via. Ele ia o tempo todo ao hospital e esteve comigo até receber a notícia de um doador. Ele comemorou comigo, mas por pouco tempo. No dia 10 de novembro, ele ainda estava perto do hospital quando sofreu um acidente de moto. Na queda uma parte do guidão praticamente entrou na cabeça dele. Ficou internado até o dia 18, quando veio a notícia mais triste em menos de um ano. Paulo Henrique havia falecido e a notícia veio com toda dor do mundo.

É a última cena dele comigo que não me sai da cabeça. Ele passava no hospital todos os dias às 7h para me encher de abraço, sorriso e alegria durante o tratamento. Quando fiquei internada, ele passava, me ajudava no banho e deixava uma força, dizendo que eu precisava lutar e que eu iria sair dessa.

Com a notícia da morte, caiu a ficha de dois choques na minha vida em menos de um ano. Uma por ter que voltar à fila do transplante e outra por perder o meu irmão, que era o meu melhor amigo.

Ele sempre falava pra mim que eu era forte em todas as vezes que dizia não aguentar. Cheguei a pensar que se eu tivesse morrido no lugar dele, seria uma dor muito menor. É difícil entender porque ele partiu tão cedo. Paulo era alegre, tinha muitos amigos e abriu mão de muita coisa para ficar ao meu lado. Parou a vida dele por mais de um ano, só por mim.

A lembrança mais marcante é tudo que ele fazia pra me deixar feliz. No Dia das Crianças, levou um balão da Frozen para eu, que não conseguia fazer quase nada. Ainda arrumou um video um vídeogame e a gente passou horas jogando no hospital. Um dia antes, me trouxe chipa e me deu um abraço apertado, é a última lembrança da presença dele. 

Com a sua morte, ainda está difícil superar a falta. Ele esperava o novo transplante, com a mesma emoção que eu. Seria ele quem viajaria comigo como acompanhante e hoje estou aqui só sentindo sua falta. As vezes penso no quanto daria minha vida por ele, só que agora não dá mais tempo.

O transplante é na próxima semana. Não sei o dia certo, mas embarco no dia 28. No lugar dele, minha cunhada vai me acompanhar. Eu confesso que pensei em desistir de tudo, a tristeza faz a gente pensar em tanta coisa e a lembrança do sorriso dele é o que vem me dando forças para não desistir. Mesmo depois da falsa cura, eu não vou desistir.

Agora, eu só penso que vou fazer de tudo para ficar bem novamente, principalmente, por ele, que lutou tanto pela minha família. Tento pensar que a missão dele era essa e veio a esse mundo como uma pessoa boa para nos ajudar. Tenho muita fé de que vai dar certo e se hoje eu estou seguindo em frente, é graças a ele. Sei que veio aqui para ser um guerreiro e vou continuar todos os dias lembrando dele, me dizendo que é para eu deixar de pensar em bobeira e dizendo o quanto me amava..."




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