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Campo Grande, Domingo, 11 de Dezembro de 2016

28/04/2015 06:24

Minha mãe desabou a chorar e me ofendeu dizendo: “Isso não é de Deus”

Elverson Cardozo
Sair do armário é libertador. (Foto: Fernando Antunes)"Sair do armário é libertador". (Foto: Fernando Antunes)

Na 9ª reportagem da série "Saindo do Armário", o Lado B conta a história do estudante de Direito Hewerton Kaiky Goes Leandro, 20. Nascido no interior do Estado, ele cresceu em uma família conservadora e dentro da igreja, onde ocupou posições de destaque, até se assumir. Sem apoio da mãe, a quem confidenciou ser gay, Hewerton saiu em busca da felicidade. Foi viver a própria vida. Caiu várias vezes, mas levantou e hoje diz ser feliz. 

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Minha história começa no interior de Mato Grosso do Sul, no município de Dois Irmãos do Buriti, a aproximadamente 110 quilômetros de Campo Grande. Foi lá que cresci, estudei e conclui o Ensino Médio aos 15 anos. Minha mãe, professora da maior escola da cidade, me criou com todas as rédeas possíveis. Eu tinha horários pra chegar em casa e nem podia pensar em festas. Na escola, sempre fui um exemplo. Tirava boas notas e era elogiado pela participação nas aulas.

Cresci dentro de uma igreja católica e aprendi que família era "papai e mamãe" e qualquer outra composição seria algo pecaminoso e impuro. Acontece que desde muito cedo eu sentia atrações por homens, vendo novelas, filmes e folheando revistas.

Ainda não assumido, na igreja, ocupava lideranças muito significativas para a paróquia, como intercessor, catequista e coordenador do grupo de jovens. Cantava e tocava no Ministério de Música. Minha mãe ficava orgulhosa de mim.

Mas eu não gostava de mulheres. Nunca gostei. Nunca me apaixonei por uma garota. Mentia que namorava minhas amigas e que gostava daquilo, mas nunca houve sequer interesse afetivo, tão pouco sexual.

Aos 15, dei meu primeiro beijo gay, escondido de todos e na casa de um amigo. Foi com outro amigo. Me senti maravilhosamente decidido, sem dúvidas. Quando meus lábios tocaram o dele, vi que gostava de homem realmente.

A única coisa que me preocupava era a aprovação de Deus. Apesar da igreja e a Bíblia terem a resposta, não era o que meu coração sentia. Quando o beijei e o abracei, vi que meu conforto e carinho estavam nos braços masculinos. Todas as dúvidas relacionadas a Deus se foram. Me aceitei e parei de negar minha natureza.

Continuei, no entanto, vivendo minha vida escondida. Com 15 anos, conheci um menino pela internet, em um jogo online, e comecei a namorar. Sabe aquele namoro puro de trocas de elogios e admirações? Era assim. Não tinha nada sexual.

Me assumir, mesmo sabendo que minha mãe não aceitava, doeu muito. (Foto: Fernando Antunes)"Me assumir, mesmo sabendo que minha mãe não aceitava, doeu muito". (Foto: Fernando Antunes)

Quando estava completando 16 anos, já ingressando na faculdade, minha mãe me pegou na frente de casa, sentando em um banco, falando ao celular com esse menino. Ela tomou o aparelho da minha mão, entrou, desabou a chorar e me ofendeu dizendo: “Isso não é de Deus!”

Também me ordenou um castigo: a partir daquele dia, só poderia sair de casa para a igreja e da igreja para a faculdade. Não contente, foi à cozinha, pegou uma faca e falou: “Você vai ficar feliz se eu morrer, né?”. Depois de tudo isso, disse que não aceitaria filho gay na casa dela, pois eu deveria dar netos a ela.

Foi então que eu resolvi viver à mercê do mundo. Me mudei para a Capital, Campo Grande, e fui morar com amigas em uma casa de madeira onde só havia um colchão inflável, dois lençóis e alguns copos. Passei fome durante algumas semanas.

Me assumir, mesmo sabendo que minha mãe não aceitava, doeu muito. Eu queria apoio, mas sabia que precisava viver minha vida. Saí de casa por isso, para ser feliz, embora ficasse triste por estar longe dela. Após uns 6 meses, comecei a trabalhar no shopping. Por não ter o que comer, passava muito mal no serviço. Nessa época, conheci um anjo que me salvou de todas as formas possíveis. Ele era bem humorado e me levava para casa dele. Foi bom, mas não deu certo. Segui minha vida.

O único amigo que sobrou foi o mundo. Me afundei na cachaça, nas drogas e nos pensamentos de suicídio. Parei de trabalhar e de estudar. Só vegetava e sobrevivia. Quando estava no “fundo do poço”, fui morar com minha tia, que também foi um anjo, me acolhendo e aconselhando.

Saí da casa dela quando encontrei outra pessoa e casei. Me recuperei e passei a me dedicar a ter uma vida a dois. Com ele, sentia-me completo. Não precisava de mais nada. Arrumei outro emprego. Ganhava bem, vivia bem e estava feliz da vida. Construímos nossa casa, mas o destino também não foi favorável. Nos separamos.

Hoje, vivo intensamente, solteiro e sozinho, mas tenho amigos insubstituíveis. Não carrego rancor de minha mãe. Sei que tudo o que ela pensou foi para o meu bem. O mundo é mesmo um lugar difícil para quem não se encaixa nos “padrões. Depois de um tempo, ela entendeu. Meu pai descobriu após alguns anos, embora sempre tenha desconfiando. Minha irmã mais velha me apoia. A do meio ficou receosa no início, mas agora já se acostumou.

Vivo bem. Sou assumido e não tenho medo das represálias do mundo. Sou homossexual com muito orgulho. Não tenho nenhuma dúvida sobre minha orientação. Sair do armário é libertador. Seja você o que for, aprenda a viver sua vida e a conviver com as diferenças. Só assim o mundo será melhor.

Envie seu relato - Se identificou com a história de Hewerton? Quer contar a sua? Compartilhe com a gente! Mande um e-mail para ladob@news.com.br




Levítico 18:22
 
Religioso em 28/04/2015 13:13:24
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