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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

24/11/2014 12:14

Moradora limpa mangas, coloca no muro e dá até sacola para quem quiser levar

Ângela Kempfer
Quintal é grande e rende muitas frutas. (Foto: Marcelo Calazans)Quintal é grande e rende muitas frutas. (Foto: Marcelo Calazans)

Dá um trabalho danado, mas todos os dias a dona de 2 mangueiras, no bairro São Bento, seleciona as frutas maduras do tipo “coquinho”, limpa, e as coloca sob o muro da casa. As mangas ficam ali, para quem quiser pegar, de graça.

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Seria mais fácil esperar cair no quintal, passar vassoura e jogar tudo no lixo, mas não renderia qualquer alegria à dona Neusa Maria Picolin. Virou tradição na rua, sempre que a fruta aparece no pé, o muro branco vira quitanda a céu aberto.

A assistente social aposentada, Cleonice Santana, sempre para e enche a sacola quando passa pelas bandas de dona Neusa. Amiga há anos, ela virou freguesa. “Sempre pego, é uma delícia a manga dela, todas selecionadas com carinho. Pego uma sacolada”, diz.

Para Cleonice, a atitude tão simples é uma inspiração. “É lindo, ela é uma pessoa que divide. Quantos pegam e jogam fora. A fruta poderia apodrecer, mas ela doa”, comenta.

Cleonice cata as mangas sob o muro da amiga.Cleonice cata as mangas sob o muro da amiga.

Risonha, Neusa passa o dia envolvida com as frutas. Amanhece já catando manga no quintal. Depois, as lava com água e cloro, para higienizar bem, e vai repondo a feirinha criada no muro. “Aqui na região tem muito gato e o pelo do bicho dá doença. Então eu lavo direitinho para não ter nenhum problema”, explica.

Apesar de ser de graça, aos 68 anos, ela faz questão de deixar “tudo no jeito”, para quem quiser chupar manga. “Também arrumo umas sacolinhas para a pessoa levar para casa”, lembra.

Para que as crianças do bairro troquem a bala pela fruta, ela investiu até em uma das praças da rua Rodolfo José Pinho. Plantou pé de limão, de manga, de caju e de abacate. “O pessoal gosta”, argumenta.

A casa onde ela vive já tem 40 anos. Quando a família chegou ao bairro, o terreno servia como campo de futebol. As paredes subiram e o quintal sem graça começou a receber as árvores.

A primeira muda de mangueira foi dada por uma vizinha e plantada pelo marido de dona Neusa, já falecido. Os filhos pegaram o gosto e também ajudaram a aumentar o pomar. “Meu filho mais velho, por exemplo, plantou um pé de goiaba que tem até hoje”, diz a mãe, morrendo de saudades.

Hoje, ela mora com uma sobrinha, mas a casa vive cheia. As mangas no muro renderam amizades. “Os varredores de rua aparecem sempre na sexta-feira e ficam aí sentados, chupando bastante manga. Esses dias, duas jovenzinhas bateram aqui perguntando se podia mesmo pegar umas mangas. Eu disse: Ixi, lógico que pode, é pra comer”, lembra.

Ela também coleciona histórias, graças a vontade de compartilhar o que tem. “Tinha um senhor que sempre levava uma sacolada e fazia geladinho para as crianças com câncer. Tem dois anos que ele não aparece mais. Ele tinha avisado mesmo que ia plantar mangueiras na chácara dele”.

No bairro, muita gente já trocou o velho pomar por uma calçada. Mas na casa de dona Neusa tudo vai permanecer como está, promete a proprietária. “A gente nunca vai derrubar. Meus filhos também não deixam, foi o pai deles que plantou”.

Super disposta à conversa, até um suco ela oferece, geladinho e light. “Olha você pode vir aqui que eu faço um suco pra você e, se não quiser engordar, ainda coloco limão ou abacaxi. Dá certo viu, eu sou magrinha”, ri.

E se depender das mangueiras, as novas amizades vão surgir o ano inteiro. As frutas começaram a amadurecer em março e a produção continua firme na casa da dona Neusa.




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