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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

13/10/2016 06:10

Morando na rua, Valter distribui abraços e conquista amigos pela "felicidade"

Thailla Torres
Valter é um homem forte e com sorriso frequente. (Foto: Alcides Neto) Valter é um homem forte e com sorriso frequente. (Foto: Alcides Neto)

Com um sorriso frequente e um bom dia cheio de entusiamo, Valter Augusto Barbosa levanta todos os dias na escada de um prédio abandonado na avenida Mato Grosso. As roupas surradas e os pés descalços são detalhes que para ele pouco importam. Apesar das tantas faltas de quem vive nas ruas, ele carrega um brilho que o transformou em personagem inspirador pela cidade.

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Na semana passada, um gesto de solidariedade do morador de rua ao ajudar um deficiente visual no Centro de Campo Grande gerou comoção. Registrado pelo fotógrafo Valdenir Rezende, do Correio do Estado, bastou ser publicado no Facebook para que centenas de pessoas comentassem sobre a educação e o perfil do homem de bem.

O Lado B foi em busca da história de Valter e após alguns dias procurando acabou achando um homem forte, ainda que numa realidade brutal, longe de casa e da família, e muito perto da violência.

Foto fez o Lado B procurar a história de Valter. (Foto: Valdenir Rezende/Correio do Estado)Foto fez o Lado B procurar a história de Valter. (Foto: Valdenir Rezende/Correio do Estado)

Mesmo na rua, ele não perdeu a vontade de distribuir carinho. Faz questão abraçar quem passa por ele disposto a receber afeto.

Olhando nos olhos, não demonstra receio em dar entrevista, mas faz questão de dizer que não gosta de ser considerado qualquer um. “Tem gente que acha que eu sou andarilho de rua, mas nunca fui. Moro apenas na terra do papai, sirvo a Deus”, afirma.

Em meio as palavras confusas sobre os motivos de estar ali, Valter conta que veio de Paranavaí, no Paraná, onde os pais e os irmãos moram até hoje. Aqui, sobrevive "com a missão de se comunicar com as pessoas". "Eu amo as pessoas, nasci para fazer isso (conversar) e sou assim mesmo. Porque tem gente que não gosta de gente, mas eu gosto e tem gente que não percebe os prazeres da vida", reflete. 

Apesar da seriedade no diálogo, a conversa foge da lucidez, situação comum entre quem já perdeu referências após tanto tempo vivendo sozinho e já não sabe o que é fato ou fantasia. Jura que é médico e cabeleireiro e, para mostrar suas habilidades, oferece um penteado. “E se eu fizer uma trança no seu cabelo rapidinho? Porque eu nunca faço nada feio”, garante.

Sem deixar um fio solto, as trancinhas ficaram perfeitas. (Foto: Alcides Neto) Sem deixar um fio solto, as trancinhas ficaram perfeitas. (Foto: Alcides Neto)
Na garrafa pequena carrega o próprio remédio. (Foto: Alcides Neto) Na garrafa pequena carrega o próprio remédio. (Foto: Alcides Neto)

Enquanto o papo rola solto, as tranças vão criando formas que, por sinal, depois de prontas ficaram bem feitas.

Em seguida, fala em ser médico mostrando a garrafa pequena que carrega no bolso, para provar que é dono da própria saúde. "Sou médico e faço meu próprio remédio. Uso romã, pata de vaca e a semente de uva. Coloco água e cachaça, porque é bom para a garganta”, revela.

Para conseguir dinheiro, anda pela cidade conversando e diz que lê a Bíblia para os interessados em ouvir a palavra. "Vivo também a minha vida para falar com as pessoas e ler. Eu gosto de falar com as pessoas agradáveis. Eu sou feliz porque eu estou com Deus e não quero contaminação com coisas ruins".

A devoção e a fé também estão presentes na aparência. A barba longa carrega medalhas de Nossa Senhora Aparecida e São Miguel Arcanjo, de quem é devoto. Ao descobrir que ontem era dia da Padroeira, sorriu com o coração. “Jura? Que bom, eu vou à igreja hoje. Vou rezar por essas pessoas, pelas pessoas boas”, avisa.

Apesar da bondade e a presença de pessoas que o ajudam, Valter carrega na memória os momentos tristes por conta da aparência. "Só porque vivo aqui, eu já levei uns 70 ‘geral’ da polícia e eu não sei o que eles pensam. Nunca fiz mal a ninguém. Polícia só sabe dar enquadrada em trabalhador de rua”, desabafa.

Medalhas de São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora ficam penduradas pela barba. (Foto: Alcides Neto) Medalhas de São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora ficam penduradas pela barba. (Foto: Alcides Neto)

Valter precisa de cuidados, está envelhecendo, mas não cogita mudar de vida. O destino dos sonhos para ele é a praia. Carrega uma sacola pequena, levando o pouco que tem, e apesar de receber doações, escolhe pelas roupas sujas. Para saciar a fome, ganha comida de restaurantes do centro e com o dinheirinho que ganha, compra a fruta predileta. "Vou no mercado e compro minha melancia", diz contente. 

Mesmo entregue a tantas dificuldades e a falta de lucidez, Valter é mais um dos personagens que enxerga as pessoas pelo lado humano.

"Eu já morei em muitos lugares, mas aqui é a cidade mais difícil. Se a gente entra em algum lugar, todo mundo fica olhando a aparência, mas isso não importa, porque eu tenho chinelo, mas se eu quiser andar descalço, eu ando".

E ainda ensina sobre a vida. "Sou uma pessoa que vivo com facilidade, porque estou em missão para falar com as pessoas. Porque tem gente que tem tudo e não é feliz. Mas vai ter um momento que não vai dar mais tempo de ser feliz”.

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Tem gente que tem tudo e não é feliz. Mas vai ter um momento que não vai dar mais tempo e por isso eu sou feliz, acredita. (Foto: Alcides Neto) "Tem gente que tem tudo e não é feliz. Mas vai ter um momento que não vai dar mais tempo e por isso eu sou feliz", acredita. (Foto: Alcides Neto)



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