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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

31/03/2014 14:41

Na Capital, ditadura fechou jornal e fez diretor fugir da prisão pelo córrego

Paula Maciulevicius
Canal por onde fugiu Vasconcelos passava por baixo da rua Maracaju e desaguava no córrego Segredo. (Fotos: Fundação Eduardo Contar)Canal por onde fugiu Vasconcelos passava por baixo da rua Maracaju e desaguava no córrego Segredo. (Fotos: Fundação Eduardo Contar)

Campo Grande não escapou da ditadura militar. Mesmo sendo uma cidade relativamente pequena, sem status ainda de Capital, compartilhou da situação de todo País. Homens e mulheres daqui também foram humilhados e presos por expressarem a ideologia política, diferente da “oficial”.

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Nos anos 60, um grupo ficou conhecido na história regional como Ademat (Associação Democrática Mato Grossense). Ligada à UDN (União Democrática Nacional) eles eram médicos, advogados, pecuaristas, comerciantes e professores que no geral compartilhavam de pouco sentimento humano.

Segundo levantamento do historiador Eronildo Barbosa da Silva, responsável por um estudo sobre o golpe de 1964 no Sul de Mato Grosso, os associados diziam que agiam em defesa dos interesses da pátria e dos ideais democráticos, mas não era muito disso que se via. Com metralhadoras em mãos e armamento de uso exclusivo do Exército, eles intimidavam adversários.

Vereador de 1959 a 1962, Antônio Roberto de Vasconcelos, foi um dos alvos. Diretor do jornal “O Democrata”, instrumento considerável de luta política pelo Partido Comunista Brasileiro na época, o veículo denunciava as “mazelas” da política regional, além de abrir espaço para a opinião da sociedade civil. A linha editorial era acompanhada de perto pelos militantes da Ademat. Em março de 64 a redação foi invadida e teve parte do seu equipamento gráfico danificado.

Jornal O Democrata funcionava na primeira casa abaixo do sobrado, na rua Maracaju. Jornal "O Democrata" funcionava na primeira casa abaixo do sobrado, na rua Maracaju.

As investigações apontaram que se tratava de uma ação política, provavelmente para por um ponto final nas divulgações. O relato de Barbosa da Silva dá conta ainda de que um grupo de sindicalistas denunciou o corrido ao Governo do Estado, à época, Fernando Correia da Costa, em que pediam a intervenção para que o caso fosse solucionado e os responsáveis presos.

Dias depois, enquanto quartéis acumulavam presos sem justificativa para estarem atrás das grades, “O Democrata” mais uma vez foi invadido. Munidos de metralhadoras, o grupo quebrava o que via pela frente, até jogar máquinas e outros equipamentos no córrego da rua Maracaju. O mesmo aconteceu com os documentos e livros.

A ação aconteceu debaixo dos olhos de colaboradores do jornal que nada puderam fazer. No livro do historiador, a fala de um ex-taxista descreve a violência do episódio. “Aquilo foi uma coisa muito violenta. Aquele grupo de homens armados quebrando um jornal que só fazia defender o trabalhador. Foi horrível. Era um tempo sem lei. Eu conhecia aquele pessoal todo. Eram homens de bem que faziam aquele jornal. Não sei dessa história de comunista”.

Fundado em 1944, o jornal passou para as mãos de Antônio Roberto de Vasconcelos de 1945 até 1964, quando foi “empastelado” e definitivamente fechado.

Conforme a Fundação Eduardo Contar, além das maquinas quebradas, todo o arquivo foi apreendido pelos militares e diretores e colaboradores foram presos. Antônio Roberto de Vasconcelos escapou ao fugir pelo canal que cortava a rua Maracaju, em frente ao jornal, até o córrego Segredo e desapareceu.

Vasconcelos ficou no anonimato até os anos 80. Mais tarde, o que se soube foi que ele estaria morando no interior de São Paulo. Na década de 90 foi homenageado na Câmara Municipal de Campo Grande. São raros os exemplares ainda existentes de O Democrata.




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