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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

03/08/2016 06:25

Na cidade onde mais se odeia índio, professor insiste nos direitos humanos

Paula Maciulevicius
Quais são as minhas lutas? Elas são sempre focadas na democracia, responde professor ao redor do guarani, em Dourados. (Foto: Arquivo Pessoal)"Quais são as minhas lutas? Elas são sempre focadas na democracia", responde professor ao redor do guarani, em Dourados. (Foto: Arquivo Pessoal)

A 233 quilômetros de Campo Grande, a mesma voz que ecoa pelos índios, bate no peito para defender a democracia. Dos mini aos macro-golpes, Tiago Botelho carrega a bandeira de dona Damiana à Dilma Rousseff, aplicando o mesmo pensamento. Aos 33 anos, ele estreia uma série do Lado B que pretende apresentar personagens que representam o que é lutar contra a corrente numa época em que o discurso de ódio é pregado aos quatro cantos.

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Nascido em Ivinhema, Tiago voltou para onde estudou, na UFGD, como professor em outubro do ano passado. Em seguida foi apresentado à comunidade "Apyka'i", de guarani-kaiowá, em Dourados, onde desenvolveu uma relação de amizade restrita aos povos de dona Damiana, símbolo da resistência nas terras na BR-463.

Foi a formação familiar que o fez enveredar pelo caminho dos Direitos Humanos e o contato com acadêmicos indígenas na universidade, consolidou. "Sou filho de mãe e pai que sempre lutaram contra as muitas desigualdades. Meu pai é agrônomo e sempre travou uma batalha contra o latifúndio e pela democratização da terra através da reforma agrária. Minha mãe, professora, feminista, sindicalista e de esquerda me ensinou o quanto faz bem amar o ser humano e suas muitas formas de conjugar o verbo viver", conta.

Tiago ao lado de Damiana, cacique que mais lhe ensinou sobre a luta deles. (Foto: Arquivo Pessoal)Tiago ao lado de Damiana, cacique que mais lhe ensinou sobre a luta deles. (Foto: Arquivo Pessoal)

Hoje, doutorando em Direito Público pela Universidade de Coimbra, mestre em Direito Agroambiental e professor da Faculdade de Direito e Relações Internacionais da UFGD, Tiago prega na prática o que enxerga na teoria. Paralelo ao Direito (UEMS), cursou também História (UFGD), para humanizar e historicizar as questões legais.

"Todos os seres humanos devem ser respeitados e na grande maioria das vezes, é o Estado e sua elite branca, masculina, urbana, cristã e heterossexual quem nega, desrespeita e viola direitos que dão dignidade à vida", afirma. A junção do Direito com a História lhe possibilitou fortalecer e teorizar as lutas pelas questões humanas.

"Quais são as minhas lutas? Elas são sempre focadas na democracia e é uma luta que eu tenho falado que são várias. O micro golpe que constitui o macro", sustenta. O exemplo começa em dona Damiana, guarani de mais de 70 anos despejada da terra que reivindica há décadas para a rodovia. "Damiana, a mulher, o negro. Eles são o micro e viram o macro, que é o que estamos vivendo", compara ao processo de impeachment que corre contra a presidente Dilma Rousseff (PT).

O campo de atuação dele, tanto profissional, como de lutas pessoais, é Dourados. Município que ele define como a "cidade feita para odiar indígenas". "Há uma construção negativa sobre os povos indígenas. Hoje eles perambulam pela cidade, passando fome, indignidade e é uma escolha do Estado. O que eles pedem é o resto da nossa alimentação e os governantes, desde o municipal até o presidente nada fazem".

Dos micro golpes é que surgem os macro, como descreve em livro contra o golpe. (Foto: Arquivo Pessoal)Dos micro golpes é que surgem os macro, como descreve em livro contra o golpe. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao mesmo tempo em que é luta, também se tornou gratificante o contato. "Eles têm muito a ensinar a nós. Nossa democracia hoje está falida, não se consegue conversar sobre política e cada dia que eu vou na comunidade, aprendo muito com eles sobre as outras formas de se fazer e de se viver, realidades distintas das minhas", explica.

O aprendizado ali é o que tenta passar comunidade afora, de que a sua forma de viver não é única e nem a correta. "Às vezes me dá um pouco de medo. Que as pessoas odeiam indígena? Isso é tão verdade que Dourados não faz nada para mudar, para melhorar. O judiciário despeja na BR e nem se preocupa em como eles vão continuar vivendo".

O professor nada tem de parentesco ou origem indígena. E remar contra a maré, inclusive encabeçando campanhas contra o despejo e depois para a construção de um lar para a cacica Damiana, já foi recebido até com ameaças.

"Mas a luta pela democracia sempre foi uma luta das minorias. Quando os negros lutaram para não serem mais escravos e conquistaram, eles fortaleceram a democracia", exemplifica. O mesmo serve para as mulheres, os índios, os homossexuais, transexuais. "Os direitos são sempre conquistados por um grupo minoritário, por eles terem uma sensibilidade maior da vida e perceberem que a dignidade precisa ser alcançada e alargada", reflete.

Alargar a dignidade é que o resume o papel do professor na cidade e fora dele. Tiago ganhou visibilidade como um dos autores do livro “A Resistência ao Golpe de 2016”, que conta em um conjunto de artigos a visão de que o processo de impeachment votado pela Câmara dos Deputados foi ilegal e sem legitimidade.

"Alargar é a luta para que todos os seres humanos possam viver da maneira como quiserem. Eu acredito que a democracia e ela precisa ainda se fortalecer. Nós estamos vivendo uma na qual as pessoas não aceitam as diferenças, as culturas, religiões e orientações sexuais distintas. Mas nós vamos alcançar isso. O que o Estado nunca deu, nós conquistamos", avalia.

Na cidade, Tiago revela que o assunto quando encabeçado por ele, vira motivo de zombaria. "As pessoas zombam da cara da gente, mas o nosso saber tem feito com que tenhamos guerras, conflitos, degradação. Nossa forma de viver não está condizente.

Enquanto eu tiver força, eu vou lutar e mesmo que, às vezes, seja pesado nadar contra a maré numa cidade que é feita para odiar os povos indígenas, eles são seres humanos brilhantes e que podem nos ensinar".

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