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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

30/01/2013 15:37

Na delegacia, depois do abandono, brincar vira coisa séria

Paula Maciulevicius
Seja pelo colorido ou simplesmente por ter com o que brincar, é na delegacia que eles finalmente sorriem. (Foto: Rodrigo Pazinato) Seja pelo colorido ou simplesmente por ter com o que brincar, é na delegacia que eles finalmente sorriem. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Ao entrar na sala, os olhos brilham. No chão, um tapete com almofadas e na estante o que parece ser reluzente: prateleiras repletas de brinquedos. De cachorro, sapo a urso de pelúcia, bonecas, carrinhos, peças de montar e até uma barraca. Seja pelo colorido ou simplesmente por ter com o que brincar, é ali que eles finalmente sorriem. A alegria em meio a uma situação de abandono, violência ou abuso está naquela sala.

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O ambiente não é nada convidativo, principalmente para elas que são vítimas, muitas vezes dos próprios familiares. Os pequenos chegam ali indefesos e precisam relatar o drama a que foram submetidos. Aqueles mesmos olhinhos que brilham pelos brinquedos, viram repetidas cenas de violência, a viatura da PM chegar, os flashes das câmeras fotográficas e acabaram tendo de relembrar tudo aquilo entre quatro paredes, em uma delegacia.

“Naquela situação eles ficaram na minha sala e me relataram que ele não têm brinquedos”. Quem conta é a psicóloga Carlota Philippsen, 33 anos, da Depca (Delegacia Especializada na Proteção da Criança e ao Adolescente).

Ela quem montou há cinco meses uma brinquedoteca na própria sala. Tem sorriso calmo e um estilo que destoa dos padrões burocráticos de uma delegacia. É alegre, com o cabelo vermelho e tatuagens, uma surpresa boa na recepção para quem já não deve ver muita graça no cotidiano.

Uma das crianças abandonada pela mãe nas Moreninhas brincou com um brinquedo pela primeira vez na delegacia e não em casa. (Foto: Simão Nogueira)Uma das crianças abandonada pela mãe nas Moreninhas brincou com um brinquedo pela primeira vez na delegacia e não em casa. (Foto: Simão Nogueira)

O relato que ela ouviu foi dos irmãos de 4 e 7 anos que foram encontrados na segunda-feira abandonados pela mãe, nas Moreninhas. Para a Polícia, os brinquedos servem como ferramentas para saber de um modo menos formal, a rotina em que a criança vive. Para eles, são muitas vezes aquilo que só viam pela televisão.

“Tem várias crianças que nunca brincaram. Às vezes não é nem da condição financeira da família, é por descaso, relaxo dos pais”.

Quando Carlota assumiu como psicóloga na delegacia, soube de uma sala cheia de brinquedos que são doados pela Receita Federal e que teria a oportunidade de montar um espaço para as crianças.

“Toda criança que sai daqui leva um brinquedo quando vai embora. Muitas vezes elas veem a delegacia como um ambiente assustador. Se não fossem os brinquedos na segunda, eles pediam pela mãe o tempo todo”, conta sobre os dois irmãos do caso das Moreninhas.

Na recepção, uma pequenina que não tem nem 2 anos ainda estava inquieta. Mesmo com bonecos na entrada, como se não houvesse nada ali que prendesse a atenção da menina. Já na sala, ainda que timidamente, ela chegou e passou a brincar.

A reação foi de ficar paradinha, a espera da autorização de onde e no que poderia tocar. Dado aval pela psicóloga, ela relutou, sem saber para onde ia. Era pela quantidade de brinquedos espalhados entre o chão e a estante.

Psicóloga Carlota Philippsen montou o espaço com brinquedos para as crianças. (Foto: Simão Nogueira)Psicóloga Carlota Philippsen montou o espaço com brinquedos para as crianças. (Foto: Simão Nogueira)

“Tem criança que você vê a agressividade porque quebra o brinquedo. Mas tem criança que ajuda a organizar, deixa até mais arrumado”, comenta Carlota. Era o caso da nossa pequena personagem que aguardava enquanto a família registrava o boletim de ocorrência.

“A gente trabalha na pedagogia e na psicologia que brincar é coisa séria. Os brinquedos são muito importantes para o desenvolvimento. A criança coloca na boneca como ela vê as coisas, no boneco ela vai experimentar ser um super-heroi”.

No caso das crianças das Moreninhas, o inocente relato de que nunca tiveram brinquedos chega até a emocionar. Na região, os vizinhos contam que eles viviam pelas ruas. Para os meninos de 4 e 7 anos, o brinquedo eram eles mesmos, que tinham que ter a responsabilidade de um adulto para com o irmão de cinco meses.

“Eles não têm a possibilidade de experimentar o que é ser criança. A situação em que eles vivem não permite que eles façam isso”, observa a psicóloga.

Ferramenta para a Polícia, distração para os pequenos, ou a alegria de brincar pela primeira vez. A sala é o alento para quem vive na seriedade a falta de muito mais do que brinquedos, o drama de ser protegido pela Polícia de quem mais devia os proteger.




Parabens à DPCA e aos profissionais envolvidos, o depoimento sem dano é questão de direitos fundamentais da criança e do adolescente.
 
Reginaldo Salomão em 31/01/2013 13:55:45
ISSO É ESPERADO DAQUELES QUE TEM AMOR À PROFISSÃO...VERDADEIROS ATIVISTAS SOCIAIS...PARABENS CARLOTA E TDOS DAÍ...ABÇ...!!!
 
RAMON BRIZUENA ANIZ em 31/01/2013 12:19:09
Gente, filhos são sagrados, são anjos que Deus coloca em nossas vidas pra nos alegrar, nos fazer sentirmos melhores, mais úteis em sua educação, nos faz sorrir ao chegar cansado no fim do dia, nos faz esquecer os problemas, os aborrecimentos do patrão, nos enchem de perguntas (as vezes nem sabemos como responder), se espelham na gente, nos consideram heróis, esperam de nós proteção e acolhimento nas horas de aflição...
Como um ser humano em sã consciência consegue destratar ou maltratar ou abandonar ou negligenciar ou até mesmo judiar deste presente divino que ganhamos?!?
 
Ana Miranda em 31/01/2013 08:48:34
valeu Carlota, parabéns pelo seu trabalho, juntamente com a equilpe da DEPCA...
Parabéns a todos
 
Camila Alves em 31/01/2013 08:22:25
Excelente reportagem...me emocionei demais!
 
Jackeline Santos em 31/01/2013 07:56:49
Só quem já trabalhou e conviveu diariamente com este tipo de situação sabe que temos que tirar estrutura mental do meio das pedras. Porém, no final os fatos só servem para nos fortalecer e agradecer tudo o que há de melhor que a vida nos oferece, ou seja, filhos, amigos, familiares,etc. Eles são apenas anjos indefesos que precisam da nossa total proteção e carinho. Parabéns pela brilhante idéia da brinquedoteca. Foi só uma sementinha plantada, para fazer alguém, nem que seja por algumas fora um pouco "mais feliz". Que Deus proteja a você e encha de luz o seu trabalho
 
vania ligia gutierrez em 30/01/2013 22:00:38
Esse comentario do Valdecir é totalmente sem qualquer conhecimento da realidade, principalmente dessa delegacia, onde a delegada e os policiais conseguiram os brinquedos para todas as crianças que vão na delegacia como vitimas de crime. Pelo seu comentario agressivo, nao tem como ficar quieta sabendo da capacidade e sensibilidade no trato com as crianças e seus familiares que tive oportunidade de presenciar quando la estive. vá até a delegacia e mude sua opinião. vai ver que é bem diferente do que vc disse.
 
mariana ferri em 30/01/2013 21:56:18
Parabéns à DPCA, pois é uma Delegacia humanizada e que recebe bem a população, principalmente as crianças. É um exemplo para as demais.
 
Rita de Cássia em 30/01/2013 20:14:39
Parabéns Carlota, belo exemplo de humanismo e profissionalismo, trabalho no cartório Criminal da Infância e Juventude de Aquidauana e convívo, com frequência, com as crianças do abrigo local e sei o quanto vale, para eles, o carinho e a confiança.
 
Milton da Silva Oruê em 30/01/2013 18:02:41
O mais triste é saber que com tanta gente disposta a dar carinho a essas crianças, a Justiça tarda tanto pra agir e possibilitar a adoção rápida dessas crianças, muitas vezes mantendo o pátrio poder para pais que jamais deveriam ter sido....
 
Marcos Santos em 30/01/2013 17:07:12
PARABÉNS MESMO à psicóloga Carlota Philippsen - isso sim é exemplo de humanidade e profissionalismo. Normalmente o que se vê e se presencia ao entrar numa delegacia qualquer é o típico comportamento de mau-humor, falta-de-educação, ironia e estupideza da polícia brasileira. E agem com todos assim, independente se são vítimas ou culpados, homem, mulher, criança, idoso. Todos tem que aturar "a disposição" deles.
 
Valdecir Antonio Zaniboni em 30/01/2013 17:03:29
Devem ter ate medo de pegar os brinquedos em quebrar, nossa cm uma mãe é capaz, tão inocente.
 
Elaine de Almeida Cunha em 30/01/2013 16:14:54
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