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Campo Grande, Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

30/09/2014 09:30

Na madrugada, a cena curiosa de vigia que faz crochê em cadeira de retalhos

Aline Araújo
Ana cuida cada ponto e desmancha se erra, quer que seu trabalho seja perfeito. (Foto: Aline Araújo)Ana cuida cada ponto e desmancha se erra, quer que seu trabalho seja perfeito. (Foto: Aline Araújo)

Ana Belmira, de 46 anos, tem uma rotina bem diferente. Ela acorda às 16h30, almoça às 17h30 e vai para o trabalho. É vigilante em um cruzamento de bairro nobre de Campo Grande e enquanto cuida da segurança da área comercial, faz tapetes de crochê que ajudam na renda.

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A cena é curiosa e chama atenção de quem passa por ali. “Faço quase uma peça por noite, mas tenho que fazer e ficar de olho para nenhum pilantra me surpreender”, explica, sentada em uma cadeira toda forrada de retalhos, mas com o uniforme de trabalho e um rádio comunicador ao lado.

O posto de vigia só veio há dois meses, depois de uma insistência de dez anos. É que o marido, Roberto Carlos, trabalha na quadra de cima e apesar do perigo, ela sempre pediu para acompanhá-lo na empreitada noturna. “Ele tinha um menino que trabalhava com ele e saiu. Eu sempre quis vir porque a gente sempre foi muito unido e eu ficava a noite inteira em casa fazendo crochê e ligando para ele preocupada, agora eu tô perto”, explica.

Nesse tempo, ela passou por poucas e boas por ali. Ana já foi agredida por um senhor que achou que ela estava vigiando ele ao se comunicar com o marido pelo rádio e diz que também já evitou furtos em algumas lojas.

“Eu sei que é perigoso, aqui é um lugar onde passa muito drogado e tem pilantra que tenta mesmo roubar as coisas, mas o meu marido sempre liga para saber como eu estou, a gente se ajuda e eu tô melhor aqui que em casa sozinha”, garante.

Todo mês ela compra uma revista para aprender novos modelos. (Foto: Aline Araújo)Todo mês ela compra uma revista para aprender novos modelos. (Foto: Aline Araújo)

Durante a noite, também já enfrentou o preconceito velado. “Eu nem gosto de olhar muito, mas tem gente que olha como se a gente posse um bicho só por ser mulher”, comenta. Mesmo assim, essa diferença já trouxe alegrias. “Uma vez, uma delegada parou, me chamou e pediu para me dar um abraço, disse que trabalhava com muita mulher na policia, mas eu era a primeira vigilante que ela conhecia. Me abraçou e cumprimentou pelo trabalho”, lembra.

Na primeira impressão de quem vê de longe, Ana parece o tipo de mulher durona e brava, que não está muito disposta à conversa. Mas basta um "oi" para descobrir uma pessoa doce. Aos 46 anos, ela já carrega algumas marcas da vida que teve que aprender a lidar.

Aos 15, teve de enfrentar um casamento arranjado pela mãe. Sofreu com o alcoolismo e a agressividade do primeiro marido e da relação ficou a filha mais velha. Ela deu um basta na situação e em 1988 conheceu o atual marido, o amor e a felicidade de ter um companheiro ao lado.

Com o nascimento do filho caçula, em 1990 veio a depressão pós-parto. A doença piorou com o falecimento do pai em 1995. Mas Ana superou o desafio de aprender a conviver com a doença que tirava as noites de sono e o sossego do dia a dia. Ela demorou para identificar que precisava de ajuda, mas conseguiu o tratamento.

O alivio mesmo veio com o nascimento do primeiro neto em 2004. “Quando ele chegou que eu melhorei de vez, encontrei um sentido na vida” relata. O segundo neto veio um ano depois para selar a alegria de Ana.

Crochê - A vontade de fazer crochê só surgiu na vida adulta, apesar de quando criança a mãe ter contratado uma professora para ensinar a arte. Em vez de aprender, ela queria pescar e matou muita aula por isso.

Depois de adulta, começou a ver graça e hoje pede para o filho ajudar a tirar os moldes da internet, além de comprar uma revista nova por mês para aprender a fazer a novidade. “Eu gosto de fazer as coisas mais difíceis, que são as mais bonitas”.

Com o dinheiro recebido pelos jogos de banheiro e tapetes que faz, Ana consegue entre outras coisas contratar uma diarista para ajudar uma vez por semana com os afazeres em casa. Assim, no domingo, que é o único dia de folga, ela pode curtir os netos com o marido e fazer mais crochê.

Ela passa a madrugada entre o crochê e as rondas.  (Foto: Aline Araújo) Ela passa a madrugada entre o crochê e as rondas. (Foto: Aline Araújo)



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