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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

15/09/2014 06:27

Na madrugada, ônibus Corujão é inicio de amizade ao voltar para casa

Aline Araújo
O ônibus sai da praça Ayi Coelho às 2h30 da manhã. (Foto: Marcos Ermínio)O ônibus sai da praça Ayi Coelho às 2h30 da manhã. (Foto: Marcos Ermínio)

Nada de correria, calor e barulho tradicionais do dia a dia. Nada de carro buzinando, de trânsito parado, de empurra empurra ou de gente tentando se manter em pé no ônibus. Como companheiro, o silêncio e um clima de amizade de quem se encontra todo dia no mesmo ponto a espera do ônibus "Corujão" e tem histórias parecidas para contar no coletivo da madrugada.

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O primeiro ônibus sai 1h30 e o segundo às 2h30, depois só às 6h da manhã. Para muitos, na verdade é a última condução do dia, depois de uma jornada exaustiva. São quatro linhas que dividem trajetos pelas regiões da cidade. Por ali as amizades nascem e se estendem ao longo dos anos em uma parceria dos que vivem em horário invertido.

Enquanto todo mundo se prepara para pegar a condução e ir descansar, o ambulante Fernando trabalha vendendo espetinhos no ponto na praça Ary Coelho, isso já há 17 anos. “Aqui o fluxo de gente pela madrugada é muito grande, o perigo acaba sendo o mínimo. O cara tem que estar muito preparado para querer assaltar alguém aqui”, revela.

Nilsa Santos Gomes, de 34 anos, pega ônibus na madrugada há mais de seis anos, ela trabalha na Feira Central, sai de lá 1h40 da madrugada e vai até ponto do ônibus na Ary Coelho a pé. “A gente faz amizades e não tem gritaria, não tem a molecada que vai para escola, ou quem tá estressado. Nessa hora está todo mundo contente de voltar para casa e o clima é muito bom,” comenta.

As amigas Nilsa, Abadia e Ramona pegam a condução juntas todos os dias. (Foto: Marcos Ermínio)As amigas Nilsa, Abadia e Ramona pegam a condução juntas todos os dias. (Foto: Marcos Ermínio)

Chegando no ponto, ela encontra as amigas e cozinheiras Abadia Santos, 50 anos, e Ramona Aparecida de Almeida Ramos, de 35. As duas vêm de um pouco mais longe, trabalham em casas de sushi próximas ao shopping Campo Grande. As duas admitem que existe um pouco de medo de andar pela rua nesse horário, mas com o tempo, dizem que todo mundo acaba pegando o jeito e aprendendo a lidar com as adversidades.

“Se você trata os moradores de rua ou usuários de drogas que andam por esse horário com respeito, eles não mexem com você”, explica Abadia. No mais, a cozinheira só tem elogios para o ônibus e horário que trabalha, principalmente, pelo companherismo que surge quando todos estão no mesmo barco.

“É um clima ótimo, todo mundo se ajuda. Se alguém dorme, o motorista acorda. A gente vai conversando sobre como foi o nosso dia e não sei se é sorte, mas a gente só pega motoristas bacanas que acabam sendo nossos parceiros, param onde a gente pede e ainda cuidam a rua antes da gente descer. O Jefferson mesmo, que é o nosso motorista, só tenho elogios para ele que é um amor”, completou.

No sábado passado, não era Jefferson que estava no volante, mas Edson Pereira, de 43 anos, motoristas que cobre a folga dos outros, tem um bom humor constante e justifica: “Você trabalha muito mais tranquilo, mais contente. Todo mundo se conhece e a maioria é pessoal trabalhador. Diferente de como é de dia, todo mundo para, conversa com você, às vezes conta alguma coisa que aconteceu e o tempo passa de um jeito muito mais agradável.”

Durante a madrugada, o clima é de tranquilidade, o ônibus vai vazio  e  maioria dos passageiros  já se conhece. (Foto: Marcos Ermínio)Durante a madrugada, o clima é de tranquilidade, o ônibus vai vazio e maioria dos passageiros já se conhece. (Foto: Marcos Ermínio)

O casal de namorados Thainara Oliveira e Tayron Cristian, ambos de 17 anos, destoam do resto dos passageiros. Os dois estavam passeando na Feira Central. Mesmo sem carro, não há desculpa para ficar em casa e o Corujão salva o programa. “A gente tem um pouco de medo, mas no final de semana o ônibus é mais movimentado, o motorista para onde a gente pede, é bom”, comenta a estudante.

Quem não quer saber de conversa, também encontra uma utilidade dentro do Corujão. Lavador do ônibus há 3 meses, Genilson Timótio, de 43 anos, já se adaptou a nova rotina e aproveita para pensar na vida na calmaria do ônibus que o leva até a esquina de casa. "É muito mais sossegado, não tem perturbação!", resume.

Jair encara a rotina da madrugada há seis anos. (Foto: Marcos Ermínio)Jair encara a rotina da madrugada há seis anos. (Foto: Marcos Ermínio)
O Folguista Edson dá uma aula de bom humor na hora de receber os passageiros. (Foto: Marcos Ermínio)O Folguista Edson dá uma aula de bom humor na hora de receber os passageiros. (Foto: Marcos Ermínio)

Dependendo da linha, as impressões mudam um pouco. Há seis anos na madrugada, o motorista Jair Azevedo, de 59 anos, define o trabalho como uma aventura. “A gente está ai todo dia, separando os 'nóias' dos trabalhadores”.

Na linha que ele faz, já presenciou briga de gangue dentro do ônibus e gente exaltada que exagerou na bebida. “Mas no geral é tranquilo, e quando acontece algo a assim, a gente controla os passageiros com conversa e dá tudo certo”, comenta.

Ele explica que depois que o sistema de cartão foi implantado, outra dor de cabeça também ficou mais rara. O número de assaltos diminuiu. Mas nem o fluxo menor, mais calmo, acaba com um outro problema bem campo-grandense: a violência no trânsito. Jair lembra que na madrugada o cuidado tem que ser redobrado. “Tem gente que anda correndo esse horário e a maioria não respeita sinal. Então, o cuidado é bem maior”.

Durante todo o percurso, nenhum passageiro novo entra. Então, quem se encontrou na praça segue viagem até o fim. Alguns passageiros dormem, outros conversam, alguns levam na mão uma latinha de cerveja, mas todos acabam entrando no clima do Corujão.

Genilson gosta do clima noturno. (Foto: Marcos Ermínio)Genilson gosta do clima noturno. (Foto: Marcos Ermínio)
Fernando vende espetinhos a 17 anos no ponto do corujão na praça. Fernando vende espetinhos a 17 anos no ponto do corujão na praça.



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