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Campo Grande, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

11/05/2016 06:05

Nem aposentadoria gorda segura sargento que agora cuida os outros no mercado

Paula Maciulevicius
Seu Pedro de hoje e o de antigamente na parede: à época de aprendiz de marinheiro. (Fotos: Paula Maciulevicius)Seu Pedro de hoje e o de antigamente na parede: à época de aprendiz de marinheiro. (Fotos: Paula Maciulevicius)

Em janeiro deste ano, candidato à vaga de emprego numa rede de supermercados surpreendeu. Aos 52 anos, o cearense com uma aposentadoria "gorda", Pedro Artur apareceu pedindo trabalho com a justificativa de que acordava cedo, limpava toda a casa e depois não tinha mais o que fazer. Ganhou pela sinceridade e disposição para o batente. E concretizou o "sonho" que tinha de trabalhar ali. 

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Por anos e a família é testemunha disso, ele passava e dizia aos funcionários do mercado o quanto queria se tornar colega deles. Seu Pedro é uma figura. Não para quieto nem ao ser entrevistado. É em pé e andando de lá para cá que responde, contando a vida, em meio a tantas risadas.

Foi no início de 2016, depois de passar por exames médicos, é que ele ouviu do cardiologista a seguinte pergunta: "o que o senhor faz?" "Eu respondi: nada, graças a Deus. Aí ele me disse então vai trabalhar senão você vai morrer". E pronto. Foi o suficiente para que Pedro Artur de Oliveira Filho fosse atrás de emprego. 

"E quem vai me empregar? Eu tenho mais de 50 anos... Daí lembrei do mercado", conta. Foi num dia e recebeu a ligação da entrevista no seguinte. A aposentadoria é de mais de cinco salários mínimos. O pagamento oferecido para a vaga é de um e pouco mais... Mas não é pelo dinheiro não.

Fugidos para casar, Pedro e Neide já estão juntos há 30 anos e hoje é ela quem o vê mantido na rotina militar. Fugidos para casar, Pedro e Neide já estão juntos há 30 anos e hoje é ela quem o vê mantido na rotina militar.

"Era para ter algo para fazer... Eu levantava 4, 5h da manhã..." e antes que seu Pedro termine a ideia, a esposa completa a frase. "Ele acorda todo dia 4h da manhã, e ainda queria que todo mundo acordasse para bater continência para ele. É verdade", diz Vandineide Vicente Lima de Oliveira, de 49 anos. A Neide, como é chamada, é carioca, engraçada como o marido e retruca tudo o que ele fiz. Retruca não, tenho por mim que fala apenas verdades. 

Ela teve de bater o pé para que ele fosse fazer qualquer outra coisa que não acordar a casa inteira. Resultado? Pedro ia limpar a casa e varrer a calçada. O acordar cedo e ter missões para fazer era a responsabilidade que o militar teve durante três décadas, depois de entrar na Marinha com 17 anos e 6 meses quando foi aprovado no concurso. À época, prestou dois: Banco do Brasil e a Marinha.

"Fui pra lá, comecei como aprendiz de marinheiro, passei para marinheiro, cabo e terminei como sargento", enumera. Nos 30 anos de serviço passou por Minas Gerais, Rio de Janeiro e terminou em Ladário. No Rio foi que conheceu a esposa Neide e com ela veio fugido para o então Mato Grosso. "Roubei ela, fugi com Ladário. Na época ela tinha 16 e eu 19", lembra.

Os dois eram vizinhos. Ela torcia o nariz até dizer chega para ele, mas a pirraça virou amor e terminou em fuga durante a noite. "No mesmo ônibus que eu cheguei, a gente veio. Eu acordei ela e mandei a Neide arrumar as roupas", conta Pedro. Eles já tinham a primeira filha, que viajou junto aos 4 meses de vida. O casamento veio um ano depois, logo em seguida o contato com a família de Neide foi retomado.

O pai dela, dizem, que nunca ficou bravo, porque apesar de rígido, gostava do rapaz. "Ele era bonitão, olha ali na foto", convida Neide. E realmente, a fotografia antiga revela a face do Pedro Artur marinheiro e que estampa de saudade a parede de casa. 

Junto dela estão todas as condecorações recebidas ao longo da vida e também o apito. Essencial no trabalho e maldito em casa. "Não vai tocar isso, você acredita que ele quer acordar a gente com isso? Hoje em dia não mais, porque ele se ocupou", diz Neide. 

A aposentadoria chegou já tem 10 anos, mas durante uma década, Pedro reformou a mesma casa até largar mão e trocá-la num negócio. Hoje, trabalha porque o médico mandou e para pagar o pedreiro da construção do futuro lar. Teve três filhos e três netos. No supermercado, exerce o cargo de auxiliar de prevenção, "que não deixa ninguém roubar", brinca o aposentado.

Se está lhe fazendo bem? "Por demais. Eu já emagreci sete quilos, olha?" e exibe a cintura mais fina. E quem se deparar com o personagem no Comper Center Ypê, pode acenar que ele retribui num largo sorriso. 

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No supermercado, exerce o cargo de auxiliar de prevenção, que não deixa ninguém roubar. No supermercado, exerce o cargo de auxiliar de prevenção, "que não deixa ninguém roubar".



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