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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

23/12/2014 06:12

No Jacy, bilhete de Natal surpreende em meio às contas que chegam pelos Correios

Paula Maciulevicius
A medida em que as palavras se juntam transformando-se em frases, os dizeres ganham sentido e sentimento. (Foto: Val Reis)A medida em que as palavras se juntam transformando-se em frases, os dizeres ganham sentido e sentimento. (Foto: Val Reis)

"Melhor que todos os presentes por baixo da árvore de Natal é a presença de uma família feliz. Família, um bem necessário para vivermos, pois sem eles seríamos nada e ninguém..." Os dizeres digitados numa folha sulfite foram deixados na caixa dos correios da Vila Jacy, em Campo Grande. Em meio às correspondências, a maioria delas contas a pagar, o bilhete quase passa batido aos olhos dos moradores. Até porque nem se imagina que das palavras carinhosas, não virá absolutamente nenhum pedido. Quem as escreveu não quis e não quer nada em troca. 

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"Sem família não haveria o por que lutarmos e sermos alguém reconhecido pelo que fazemos, pois para ninguém mais o valor do troféu seria tão valioso no reconhecimento. Discutimos, nos desentendemos, mas nos amamos, um amor incondicional ao qual o tempo não apaga e não apagará, pois se um dia se forem, lembraremos apenas dos bons momentos de alegria e amor", diz o segundo trecho.

À primeira vista, quem lê pensa se tratar de uma 'corrente', daquelas que saiu do mundo virtual para o real. Mas na caixa de correspondência? 

"Cada ciclo de nossos anos, passamos 364 dias em média desfavorecendo uns e outros pelos problemas cotidianos, esquecendo de dar até mesmo um simples bom dia, mas nessa data tão importante como o Natal, nos confraternizamos e esquecemos os não ditos pelos falados e nos orgulhamos de sermos da mesma família".

A história continua a intrigar e só é revelada quando a autora assina Elza. (Foto: Alcides Neto)A história continua a intrigar e só é revelada quando a autora assina "Elza". (Foto: Alcides Neto)

A medida em que as palavras se juntam transformando-se em frases, os dizeres ganham sentido e sentimento. Mexem com quem lê e até quem sabe da história depois.

"Sempre um sorriso estampado no rosto de cada um nos faz renascer para uma nova era de propósitos, sonhos e objetivos a serem alcançados. O momento de amar é sempre, e que isso esteja em seus planos futuros, pois o amor é a base para tudo e tudo..."

O Lado B soube da história pela nossa publicitária, Val Reis, de 42 anos. O bilhete foi deixado na casa dela e de pelo menos 280 moradores da região. "Percebi que não era corrente, então fiquei esperando que em algum lugar tivesse falando de caixinha de Natal. Também não achei e comecei a ler... Achei muito linda a mensagem", descreve a reação.

"Então, que a alegria do Natal invada a sua casa e faça morada por todos os dias de 2015. Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Esses são os votos da minha família para a sua, com muito carinho, apesar da simplicidade desse papel".

A história continua a intrigar e só é revelada no último parágrafo, quando a autora assina "Elza" e depois se identifica. Entre parênteses ela descreve quem é aos que não a conhecem nem pelo nome e nem de fisionomia.

Dizeres da folha sulfite foram deixados pela Vila Jacy, em Campo Grande. (Foto: Alcides Neto)Dizeres da folha sulfite foram deixados pela Vila Jacy, em Campo Grande. (Foto: Alcides Neto)

(Meu nome Elza, aquela pessoa de uniforme amarelo e azul que vocês com carinho lembram quando pegam as suas correspondências na caixa e dizem mesmo sem querer, ela já trouxe contas para eu pagar... Desculpas pela brincadeira, mas tudo aqui escrito é de coração, eu só quero agradecer pela sua atenção e carinho dispensados a mim todos os dias quando tem a oportunidade de me ver).

Elza Solange Ferreira tem 41 anos e é carteira dos Correios há 10, mas foi nos últimos quatro finais de ano que ela passou a redigir as mensagens e entregá-las em meio às correspondências. Foi além do seu ofício, de portar notícias, para deixar uma mensagem de carinho.

"Eu faço isso porque gosto do que eu faço. É gratificante, hoje mesmo a Val, que te contou, se emocionou. Eu fico muito mais na rua do que em casa", justifica a ação. "Meu nome ninguém sabe, alguns sabem, mas muitos me chamam só de carteira, a 'mulher das contas'. É gostoso", relata.

O papel digitado vai na sacola de entrega e quando chega próximo ao Natal, é a hora da carteira tirar de dentro da bolsa, mais que um presente. Um afeto.

"Tem muita gente que tem filho fora, não tem família. É só um pedaço de papel que eu coloco, mas eu fico muito grata", diz. As entregas seguem até o dia 24, véspera mesmo. Por ora, as mensagens já foram deixadas em 280 casas, mas no total, chegam a 400 endereços.

"Eu não saio contando para ninguém não. É uma coisa muito pessoal, minha mesmo. Não faço isso para ser elogiada, mas o que eu puder fazer para o próximo, eu faço", defende Elza.

Meu nome Elza, aquela pessoa de uniforme amarelo e azul... (Foto: Alcides Neto)"Meu nome Elza, aquela pessoa de uniforme amarelo e azul"... (Foto: Alcides Neto)

Elza é sorridente, simpática e a carteira que todos gostariam de ter à porta de casa. Às vezes quem a vê na rua até convida para almoçar. Ela parece que não nega. Pergunto a ela se, conhecendo tão bem os moradores da região onde trabalha, sabe quem recebe mais que contas e quem não tem endereçado a si nenhum cartão de Natal.

Ela desconversa, diz que não dá para saber porque boa parte das correspondências vem só pelo endereço. Penso que talvez por conhecer muito mais do que se imagina cada morador, ela tenha tido a ideia de trazer um pouco de alegria pela caixa de correspondência.

"Esse espírito de ajuda aparece mais nesta época mesmo, mas a gente tem que estar fazendo sempre. Isso me satisfaz, porque muitas vezes não tenho como abraçar todo mundo. Eu não vejo, eu só passo na caixinha, mas já recebi vários abraços de gente que ficou me esperando para agradecer pela cartinha", conta.

"A vida é tão corrida e às vezes você nem lê", completa. O Lado B chegou até ela justamente pela leitura que a publicitária fez da carta e em seguida, deixou o recado. "Ela escreveu: carteira Elza, quero falar com você. Eu pensei que ela ia me dar uma bronca, mas não", brinca.

Elza tem três filhos, duas adolescentes e um temporão de 3 anos. Começa a trabalhar às 6h30 da manhã e vai até 15h45 da tarde. "Eu gosto da rua, vou continuar rindo, interagindo, conversando, vendo as pessoas. Esse é o espírito natalino que eu tento ter o ano inteiro", ensina. 

Sobre o por que da mensagem ser referente à família, Elza explica de maneira simples: "é a base, família é a base de tudo. Se você não tem família, você não tem nada". No entanto, ela completa reforçando que não precisa ser de nascença, ser de sangue. Pode muito bem ser de escolha. "Aqui dentro da empresa em que eu trabalho, nós somos uma família, não temos sangue, mas somos e até as brigas são iguais", brinca. 

"Que 2015 seja bem vindo na casa de todos vocês, e que traga muita paz". É assim que ela termina a carta aos seus moradores. 

Elza é sorridente, simpática e a carteira que todos gostariam de ter à porta de casa. (Foto: Alcides Neto)Elza é sorridente, simpática e a carteira que todos gostariam de ter à porta de casa. (Foto: Alcides Neto)



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