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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

17/10/2014 06:23

O bullying que sofri e a pessoa que me tornei: relatos de quem foi vítima

Elverson Cardozo
Alex na infância, fase adulta e agora, com o corpo em forma. (Foto: Arquivo Pessoal)Alex na infância, fase adulta e agora, com o corpo em forma. (Foto: Arquivo Pessoal)

Você já foi vítima de bullying ou conhece alguém que enfrentou essa violência? O termo é relativamente novo, mas a prática, caracterizada por atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais ou não, vem de anos e, para vítima, é extremamente dolorosa.

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Hoje o Lado B conta a história de três pessoas que passaram por isso, mas cresceram, mudaram, deram a volta por cima e, agora, são capazes de surpreender seus agressores porque, de tanto “apanhar”, se tornaram mais fortes.

Alex Ferreira Machado passou a infância, adolescência e parte da vida adulta sendo chamado de Alencão, gordo, gordão, bola, bolota e tantos outros apelidos cruéis. E tudo isso por conta do peso, da obesidade.

O supervidor de vendas chegou a pesar, em sua pior fase, 147 quilos, mas agora tem 83 e um corpo em forma. A mudança, que o deixou irreconhecível, veio depois de uma cirurgia de redução do estômago, realizada há mais de dois anos.

Mas, antes disso, dos 13 aos 28 anos, ele enfrentou todo tipo de preconceito, inclusive o bullyng. “Eu me sentia para baixo, me sentia diferente. As pessoas me viam como um cara fracassado, frustado, sem perspectiva de vida, que não tinha sucesso com as mulheres. Sempre ficava de escanteio. Eu era sempre o último. Era ponto de referência”, conta.

Transformado, ele viu a vida e as relações mudar. Magro, o supervisor teve a oportunidade de reencontrar, anos mais tarde, alguns de seus agressores. “Eles ficaram sem graça. Tem gente que me vê na rua e abaixa a cabeça, finge que nem me conhece, mas minha autoestima vai lá em cima”, relata.

De toda essa experiência, que ele não deseja para ninguém, Alex tirou uma lição. “São pessoas ignorantes, que querem julgar os outros pela aparência, mas o mundo da voltas. Eu calei a boca de muita gente que duvidou da minha capacidade”.

O engenheiro mecânico Douglas Lino sofreu bullying na adolescência. (Foto: Alcides Neto)O engenheiro mecânico Douglas Lino sofreu bullying na adolescência. (Foto: Alcides Neto)

O engenheiro mecânico Douglas Lino de Oliveira Santos, de 23 anos, também conseguiu deixar muita gente de bico fechado e, por isso, pensa de maneira semelhante. “Não importa de onde a pessoa vem. Você não sabe o dia de amanhã. Você não sabe aonde ela vai estar. Você pode precisar dela”, ensina.

Ele diz issso porque, aos 16 anos, quando se mudou para os Estados Unidos, enfrentou rejeição. Lá, conheceu o bullying e, também, a xenofobia. Na escola onde estudava, era o único brasileiro.

“Eu não falava nada de inglês. Era magricelinho, orelhudinho... Não conhecia ninguém. Era difícil fazer amigos. Passava muita humilhação”, relata.

No primeiros meses, sem saber nada do idioma, Douglas foi vítima dos próprios colegas de sala. “Me chamavam de nomes racistas. Jogaram até comida em mim. Isso aconteceu uma vez”, relembra.

Mas, em um ano, a situação mudou. Dominando o inglês, Douglas passou a se dedicar, também, ao espanhol. Hoje, considerando o português, sua língua materna, ele é trilíngue.

À esquerda, Douglas um mês antes de ir para os Estados Unidos. À direita, ele lá, anos depois, pronto para o trabalho. (Foto: Arquivo Pessoal)À esquerda, Douglas um mês antes de ir para os Estados Unidos. À direita, ele lá, anos depois, pronto para o trabalho. (Foto: Arquivo Pessoal)

O rapaz, que antes era motivo de piada, passou a ser visto com outros olhos. “Trabalho em uma empresa de tecnologia da informação que tem aproximadamente 40 funcionários. No meu time só eu falo três idiomas”.

A cantora cristã Nandah Marcondes é outro exemplo de alguém que também enfrentou o problema, mas deu a volta por cima. “Sofri bullying quando era pequena, por ser magrela e por ter uma cabeleira um tanto quanto desajeitada. Não tinha amigos e era bem excluída. Muitos nem sequer dançavam comigo”, conta.

O mais ouvia? “Que eu era esquista”, ela responde, em meio a risadas. O riso rola solto porque, hoje, parece engraçado, mas, no passado, a “brincadeira” incomodava e, mais que isso, machucava.

Nandah (de branco) com as amigas, ainda na adolescência. (Foto: Arquivo Pessoal)Nandah (de branco) com as amigas, ainda na adolescência. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas a menina desajeitada da escola encontrou forças para vencer. “Com o tempo as coisas foram mudando. Eu vi que podia fazer as pessoas começarem a prestar atenção no que tinha a dizer. Foi lá que percebi que eu era líder e que não poderia ser bonita, mas tinha o que dizer”, relata.

Nandah quando recebeu o título de melhor interprete feminina no Troféu Louvemos ao Senhor, o maior da música católica. (Foto: Arquivo Pessoal)Nandah quando recebeu o título de melhor interprete feminina no "Troféu Louvemos ao Senhor", o maior da música católica. (Foto: Arquivo Pessoal)

Tinha o que dizer e o que cantar. Nandah, que hoje mora em Belo Horizonte, é uma cantora premiada a nível nacional e, além disso, liderança jovem. Quando começou a mudar, ela também teve, assim como Alex e Douglas, a oportunidade de reencontrar antigos “amigos”. “Alguns falaram que hoje me tirariam para dançar”.

O bullying a feriu, mas Nandah sobreviveu às “torturas” e virou uma mulher de garras, determinada. “Não importa como as pessoas a classificam. Você sempre tem que saber quem você é. Eu fui me descobrindo com o tempo quem eu era e, no final das contas, percebi que era um tanto esquisita, que não segui nenhum padrão. Essa sou eu”.

A cantora não tem mais a “cabeleira um tanto quanto desajeitada”, mas as madeixas continuam rebeldes, só que agora com muito mais estilo. A ousadia externa só reflete a interna.

“Sou mais forte por ter conseguido enfrentar esse tipo de situação, mas confesso que por muito tempo tive dificuldade em assumir quem eu sou e a minha identidade”, revela.

(Atualizada às 13h26)




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