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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

06/07/2013 07:20

O dia em que se enxerga no espelho invertido a colega de escola num barraco

Paula Maciulevicius
Ela é só uma das dezenas de mulheres que só querem uma casa para morar, e se propõe a pagar por isso. (Fotos: Marcos Ermínio)Ela é só uma das dezenas de mulheres que só querem uma casa para morar, e se propõe a pagar por isso. (Fotos: Marcos Ermínio)

Batendo perna no bairro Dom Antônio Barbosa. Cidade de Deus, casas improvisadas, famílias, incluindo muitas crianças, que vivem sem as mínimas condições, margeadas pelo lixão de Campo Grande. Basta por os pés ali que as pautas gritam aos olhos. Era só mais uma quinta-feira em que a cabeça estava fraca de ideias. Aquele dia em que o repórter torce o nariz para qualquer sugestão, esteja ela pronta ou não.

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Geralmente o primeiro contato com a Cidade de Deus é durante alguma reintegração de posse na região, que já é marcada por inúmeros barracos montados por famílias que buscam casas de programas de governo para morar. A cena que sempre chama atenção são os brinquedos em meio a terra e as crianças, que às vezes, na falta de ter com o que brincar, inventam a própria diversão, que pode ser notada de longe. A terra vermelha sempre está dos pés à cabeça dos baixinhos. Mas uma coisa é certa, nunca se pisa lá para não ver os olhos deles brilhando.

Por costume de estar disponível para qualquer pauta, de chuva à desocupação e doações em datas comemorativas, boa parte de moradores que vieram e foram embora dali tinham ou tem algum celular de jornalista.

A pequena Bê foi quem recebeu a equipe. O olhar na foto é difícil de descrever. As marcas de terra são fruto da brincadeira onde criança nenhuma deveria morar. A pequena Bê foi quem recebeu a equipe. O olhar na foto é difícil de descrever. As marcas de terra são fruto da brincadeira onde criança nenhuma deveria morar.

No final da manhã de uma quinta-feira, a causa de estar ali era achar pauta. Tinha umas ideias de repercussão à cabeça, mas nada muito concreto.

Os leitores do Lado B que me relevem. A editoria propõe dar uma cara boa num emaranhado de notícias ‘ruins’ e revelar o cotidiano com outros olhos, mas e quando você encontra uma colega de escola morando em um barraco? A sensação, que eu não consegui descrever em palavras, veio de outro profissional da imprensa. “É se olhar no espelho invertido”.

Ela tem 26 anos. Enquanto poderia estar formada e ter uma profissão, Misslene Cavarsan, deixou os estudos ainda na 6ª série. O reconhecimento surgiu depois que a pequena “Bê” atendendo ao pedido da equipe chamou pela mãe. A menina, como tantas outras crianças na região, veio em direção à equipe de reportagem. Por curiosidade ou esperar algo, quando lhe foi pedido para que chamasse a mãe, dali mesmo, onde estava gritou “mamãe”. Aquele costume de criança, que de tão pequena, Bê nem se deu conta.

Ela primeiro veio, cumprimentou e foi atender outra filha dentro do que chama de casa. Voltou e perguntou se o fotógrafo tinha participado de um grupo na adolescência e se ela não havia estudado com quem aqui relata. O reconhecimento foi mútuo. Mas partiu dela a iniciativa de relembrar.

Sem constrangimentos pela diferença que a vida lhe proporcionou, ela explicou que morava com o marido e as três meninas há um mês e que as janelas e portas das oportunidades se fecharam muito cedo. “Já tinha filho, aí parei com os estudos”.

De lá para cá, a bagagem são três filhas e a vida num barraco. Ela e o marido deixaram outra área invadida no Nova Campo Grande no início do ano para tentar a vida ali. Coisa de um mês.

“Aqui a gente vive a maioria de doação. Doação até de passe de ônibus, porque é difícil. As casas são todas irregulares, tem umas mil pessoas aqui sem pagar água e luz, porque estamos em área invadida e eu sei que aqui podia ser escola, posto de saúde, polícia. Mas que ponham a gente em uma casa e nós vamos pagar. Todo mundo aqui tem essa esperança, de ir para uma casa”.

Ela é só uma das dezenas de mulheres que deixaram estudo para trás. Que carregam um histórico de família que não merece ser chamada por este nome. É só uma das muitas que só querem uma casa para morar, e se propõe a pagar por isso.




Infelizmente acontece isso em toda parte do pais, descaso do governo, venda nos olhos daqueles poucos que tem muito, e esse muito construido em cima das custas de muitos. E assim cada vez mais o capitalismo vai reconstruindo sua cara, cara essa que cada dia mais se mostra tão feia para aqueles que não tem quase nada. Essa e uma das caras que a corrupção provoca, favelização, fome, falta de saúde, falta de educaçao, impedindo que, uma família como essa possa ascender a uma vida melhor.
 
Clarice Vieira em 07/07/2013 11:13:52
parabéns pela matéria Paula, pena que os políticos não fazem essa visita aos bairros só na época das eleições ai meu povo que deveria lembrar deles nas urnas
 
edmillson de freitas alves em 07/07/2013 08:16:31
Meu Deus quando vi a foto no Campo Grande News nem acreditei, sempre reclamamos de nossa situação e até se esquecemos de quem está perto de nós, fiquei emocionado ao saber que esta pessoa também fez parte de minha vida de uma forma e nem imaginava que passava por esta situação, que Deus possa confortá-la e abençoar sua família. Saudades daquele tempo em que éramos adolescentes e jovens.
 
Arleson Paz em 07/07/2013 07:08:52
Pois é... já chegamos a ter 32 favelas em Campo Grande em 2005/2006. No final do mandato do André, não tínhamos nenhuma. O bairro Canguru (e outros mais) foi um dos que foram construídos para receber o pessoal. Agora temos Favela Portelinha do Segredo, Cidade de Deus e quantas mais..... essa administração é muito incipiente. Cadê a SAS, a Funtrab, ou outros órgãos mais ? Façam uma intervenção já nesses locais, tenham coragem. Quantas casas da EMHA vazias ? coloquem o pessoal lá, construam instrumentos públicos, ofereçam trabalho, porque a coleta de lixo seletiva não funciona nessa cidade ? Devolvam a dignidade humana a essas pessoas. É dever do Estado. Fora Bernal !!!!!
 
Paulo Araújo em 07/07/2013 06:34:53
E o Governo, ainda, tem a coragem de dizer que o País é uma maravilha, que não existe miséria. Mas fala porque só enxergam os lares deles e lá tudo é fartura e mordomia.
 
Luis Acordado em 06/07/2013 15:23:14
E fica, mais uma vez, a pergunta: onde estão aqueles que foram para os meios de comunicação fazerem discurso bonito e até estiveram nesse mesmo local em busca de votos?? Ah, tá...em suas residências confortáveis e bem abastecidas pelos altos salários que recebem para lutarem em prol da população. Eu disse "população"?!?!?
 
Jeanine Soler em 06/07/2013 14:51:10
parabéns pelo seu trabalho, uma linda reportagem, este dilema de ver e sentir a angustia alheia, tudo isto tem a ver as manifestações de ruas atual, ainda vejo alguns medalhão se desculpando a não ser um dos tantos responsável pela miséria alheia um corrupto alegando não ser.
 
antonio vicente de paula em 06/07/2013 12:02:19
Parabéns Paula pelo olhar humano dessa reportagem. Vejo frequência e na maioria das vezes por necessidade profissional, um olhar sempre em terceira pessoa, um tanto quanto distante daquilo que se tem na pauta; mas dessa vez um olhar em primeira pessoa, impossível ficar distante quando os caminhos da vida nos colocam cara a cara com nós mesmos!
 
Paulo Satyro em 06/07/2013 11:27:05
É muito, muito mas, muito triste tudo isso, é de encher os olhos de lágrimas....
 
Loíde Pereira da Silva em 06/07/2013 11:05:12
Sei bem o que o fotógrafo sentiu,pois já passei por uma situação semelhante.
Só que no meu caso a pessoa ficou constrangida e eu sem saber o que dizer,me fiz de desentendida diante do constrangimento...As pessoas que reclamam de barriga cheia,quando sentirem aquela sensação de que estão em deprê,deveriam pegar seus carrões e irem dar uma volta nessa área,para ver se voltam para terra, e percebam quantas pessoas sofrem com verdadeiros motivos.
Já trabalhei nessa região, e conheço seus problemas de infra-estrutura.As pessoas que vivem ali na sua grande maioria,são pessoas de bem,receptivas,trazem no olhar uma luz de esperança de que o amanhã será melhor.Parabéns pela sua matéria e pelo olhar clínico.
 
gislene cardoso em 06/07/2013 09:49:25
Parabéns pela reportagem ...

 
Luciano Petiz em 06/07/2013 09:18:39
Parabéns pela reportagem Paula. A inspiração que você procurava para uma reportagem, com certeza veio do Alto. Muitas vezes a gente reclama da vida, dos problemas e se esquece das pessoas, conhecidos ou não, que ficaram pelas beiradas do caminho da vida e que precisam de um apoio, uma ajuda. Os programas sociais de prefeitura e governo, praticamente não existem e quando fazem alguma coisa é para propaganda na TV. Falta vontade, organização, cursos de formação profissional básica, patrocínio e apoio público, falta mutirão para que as pessoas cresçam também com seu próprio esforço e não simplesmente receber cesta básica. Algumas instituições e associações de caridade tentam fazer alguma coisa para suprir a deficiência do poder público que vai só tirando o corpo fora.
 
Paulo Lemos em 06/07/2013 09:13:46
Todos tem direito à moradia digna , É LEI......, ma lei é lei ,pena que JUSTIÇA é outra coisa , cadê aqueles que detém o poder que desse povo emana ???? NINGUÉM quer nada de graça não, e outra, se o cidadão não tem endereço, COMO É QUE VAI CONSEGUIR OUTRAS COISAS....EMPREGO REGISTRADO ETC.....etc...etc...
 
Suzi Costa em 06/07/2013 07:59:56
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