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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

23/06/2015 07:05

O que você faria se fosse apalpada por um colega de trabalho?

Paula Maciulevicius
A advogada Eliane Potrich nem precisa pensar muito para várias situações de machismo virem à tona: de clientes até vereador abusado. (Foto: Fernando Antunes)A advogada Eliane Potrich nem precisa pensar muito para várias situações de machismo virem à tona: de clientes até vereador abusado. (Foto: Fernando Antunes)

O que você faria se um colega apertasse, apalpasse ou beliscasse a sua bunda? O Lado B foi às ruas ouvir o que as mulheres fariam numa situação dessas. A conversa não ficou só aí, no ambiente de trabalho elas contam que vivenciam o machismo quase que diário. Desde o que não seria, mas leva o nome de 'brincadeira', até partir para o contato físico. O machismo está por todos os lados e em todas as pessoas. Até mesmo em outras mulheres.

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Estudante e estagiária, Juliana Fukuhara, de 22 anos, responde de supetão que não saberia o que fazer. "É bem chato. Não sei o que eu faria", pergunto se uma queixa à Polícia viria ao caso. "Na Polícia eu acho que não, mas para o meu chefe, com certeza". O que ela esperaria dos superiores? "Ai, é difícil... Não sei, acho que uma advertência?" A questão fica no ar.

Auxiliar administrativo, Jéssica França tem 21 anos e considera a ação grave. "Eu não ia gostar não. Levaria direto para a minha chefia para ele fazer isso parar". Na rotina do trabalho ela diz que não presencia e nem sofre com machismos, mas vive nas ruas uma situação descarada: as cantadas.

Vereadora em Dourados, Virgínia Magrini foi à Polícia depois de ser apalpada por colega. (Foto: Eliel Oliveira)Vereadora em Dourados, Virgínia Magrini foi à Polícia depois de ser apalpada por colega. (Foto: Eliel Oliveira)

"O pior são as cantadas na rua. Mexem com a gente toda hora. Eu não gosto, me sinto incomodada. Não sei, é uma coisa que não consigo explicar, mas não vejo sentido".

Entre amigas, perguntei no Facebook que reação as mulheres teriam diante disso. A maioria fala da comunicação direta à chefia, de partir pra cima. Outras defendem que dependendo da intimidade, poderiam levar na brincadeira.

Mas as brincadeiras é que incomodam. A advogada Eliane Potrich nem precisa pensar muito para várias situações de machismo virem à tona. Dos 42 anos de idade, ela já advoga há 15 e viu de cliente abusado até vereador do interior passando dos limites.

De início ela cita o caso recente, quando a vereadora de Dourados, Virgínia Magrini (PP), foi à Polícia registrar um boletim de ocorrência contra o vereador Maurício Lemes Soares (PSB), depois que ele apalpou sua bunda durante uma entrega de homenagem à personalidades, no plenário da Câmara de Dourados.

O episódio aconteceu quando os vereadores se posicionavam para a foto oficial com os homenageados. Neste momento, Virgínia teria sentindo suas nádegas apalpadas. Como não teria visto quem foi o autor, ela reclamou em voz alta e repreendeu os demais vereadores, o que provocou tumulto no plenário. Momentos depois, Maurício Lemes teria assumido o ato e pedido desculpas para a colega, alegando se tratar de “uma brincadeirinha”.

"Fizemos uma nota de repúdio, nós da OAB. Já ouvi vários comentários maldosos. Pensam que ela deu liberdade para ele fazer isso", conta Eliane indignada.

Da semana que passou, Eliane tem mais um exemplo. Dessa vez aconteceu com ela mesma. Durante uma reunião entre 12 mulheres, todas advogadas em Sidrolândia, passando por uma padaria elas foram surpreendidas por uma declaração em tom bem machista. "Numa brincadeira, entre aspas, um vereador perguntou pra gente o que pretendíamos. "Acham que vão falar com quem? Porque vocês não vão educar os filhos de vocês? Se dedicar à casa? E mais um monte de palavras de baixo calão".

Sem acreditar no que estava ouvindo, Eliane conta o que sempre pensa em situações assim. "Eu respondo sempre que me preocupo com a mãe deles, as esposas, porque elas devem sofrer demais".

Advogada, Eliane fala que luta continuamente contra o machismo. "Já somos 52% do País, mas temos de provar sempre que somos capazes. Para quem? Para todo mundo. Os próprios clientes às vezes não te procuram porque você é mulher".

Pedagoga Ana já ouviu machismo de vendedor de carro até subsecretário do Governo Federal. (Foto: Fernando Antunes)Pedagoga Ana já ouviu machismo de vendedor de carro até subsecretário do Governo Federal. (Foto: Fernando Antunes)

Pedagoga, Ana Sena, de 46 anos, tem de cabeça as experiências envolvendo direção de carros. As brincadeiras não precisam ser apelativas para mostrar o machismo. Há um tempo, quando pesquisava carros com o marido para trocar o da família, ouviu de um vendedor que o problema era ela e não o veículo.

"Eu sou acostumada a dirigir vários carros, só não pego caminhão porque não tenho carteira pra isso. Eu falei para o vendedor que achava o câmbio daquele muito duro e ele respondeu que isso não tinha a ver com o carro, que o problema era a peça atrás do volante. Só respondi que se eu tinha a intenção de comprar com ele, já era".

Num outro momento, a situação envolveu uma pessoa pública. Ana foi buscar, dirigindo uma Blazer, um subscretário de um Ministério que chegava de Brasília. "Ele teve problemas com a mala e precisou comprar roupas. Eu naturalmente cheguei e fui dirigindo a Blazer. Ele me perguntou: 'mas você dirige esse carro? Na hora demorou para cair a ficha. Só respondi que todo e qualquer tipo de carro, aí ele me pediu desculpas", relata.

A postura de Ana foi sempre de reclamar e não para o que ela chama de "nós mesmas". A pedagoga defende que reclamar entre as mulheres não muda o machismo. "Sabe aquele quem está incomodado que se mude? Então, não é assim. A gente precisa reclamar com quem está acomodado, temos que reivindicar com eles. Está na nossa mão o poder de transformar, começando por educar um filho homem", defende.

Vendedora de uma loja de cosméticos, Valeska Medeiros, de 26 anos, vê o machismo impregnado mais nas mulheres do que nos homens. "Uma vez eu estava vendendo um batom para uma senhora de 50 anos mais ou menos e fui mostrando várias cores. Aí ela me disse que não queria a cor vermelha porque era batom de puta. Por ironia, nesse dia eu estava usando um batom vermelho. Na hora fiquei enfurecida, mas não quis ser mal educada e disse a ela que a cor de batom não indica a personalidade muito mesmo o caráter de uma pessoa. Aí olhou em mim e percebeu a grande besteira que falou e tentou se retratar", relata.

E o pior que esta não foi a única situação. Ao oferecer perfumes, ela já ouviu que aquele não servia por ter "cheiro de vadia", vindo de mulher. "Eu acho que muitas vezes elas não tem nem noção. É uma questão de tradição, está enraizando na cultura daquela pessoa, que é criada dentro do preconceito".




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