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Campo Grande, Sexta-feira, 02 de Dezembro de 2016

14/02/2016 07:56

O tempo em que no São Julião cheiro de urina e o sangue estava por toda parte

Lenilde Ramos
Lenilde e um dia de sanfona no passado do Sâo JuliãoLenilde e um dia de sanfona no passado do Sâo Julião

Quando escrevo sobre o antigo São Julião, não é para fazer sensacionalismo, mas para mostrar o sofrimento de heróis anônimos que lutaram contra uma doença que (naquela época) ainda não tinha cura. Hoje, esse retrato não existe mais.

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Eu já conhecia histórias da colônia abandonada, que chamavam de leprosário, mas só pude conhecê-la antes de ir para a faculdade. Era agosto de 1969 e fui com minha irmã, para tocar no dia dos pais.

Os detalhes estão no meu livro História sem Nome e falam da buraqueira, do areão, da sujeira e do abandono em que viviam os hansenianos daquele tempo.

Os doentes estavam num grande salão, mal conseguindo esconder as feridas embaixo de panos velhos e as deformações que a falta de tratamento haviam causado. Hoje, a doença não passa de uma manchinha perfeitamente tratável e cura garantida.

A uma certa hora, o poeta Lino Villachá, em sua cadeira de rodas, me disse: "Você não gostaria de tocar um pouco na enfermaria para os acamados?" No caminho ele ia me apresentando a colônia destruída pelo descaso e pelo abandono, até que chegamos a um pavilhão onde jaziam aqueles em pior estado.

O cheiro de urina e sangue estava por toda parte e ali me transportei aos tempos bíblicos e medievais. Vesti a sanfona e pensei: "O que vou tocar pra eles?" Pensei em uma rancheira bem conhecida na época: Saudades de Matão e comecei a circular entre os leitos.

Alguns doentes se sentaram na cama, outros esboçavam alguma reação com o semblante sofrido, até que vi um velho com uma toalha cobrindo a cabeça, só deixando livre um par de olhos curiosos e emocionados. Parecia um nômade do deserto. Eu quis dizer que não tinha medo dele, nem daquilo tudo ao meu redor e me sentei na beirada de sua cama. Surpreso, ele se assustou e deixou cair a toalha da cabeça. Um frio correu por minha espinha porque não havia nariz, só um buraco ensanguentado no meio do rosto. Levei um choque, mas não parei de tocar. Ele foi rápido e cobriu de novo a cara. Quando acabou a música, me levantei e continuei circulando e tocando até ir embora. Nunca mais vou me esquecer dessa cena.

Hoje, vendo o São Julião transformado no melhor e mais bonito hospital do Brasil, as pessoas não imaginam a luta sem tamanho que foi transformá-lo em um Caminho de Esperança. (nessa foto estou no São Julião, ao lado de um dos voluntários italianos, coisa de 1970)




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