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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

29/11/2012 09:13

Pai luta por cirurgia para enxergar o filho após 40 anos

Elverson Cardozo
Zé Laia voltou a ter contato com o filho aos 81 anos.  (Foto: Rodrigo Pazinato)Zé Laia voltou a ter contato com o filho aos 81 anos. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Foi pela internet, do outro lado do Brasil, em Belo Horizonte, a mais de 1,2 mil quilômetros de distância, que o policial militar da reserva Leonei Souza Laia, de 54 anos, recebeu, pela primeira vez, informações concretas sobre o paradeiro do pai, José Laia Sobrinho, que ele não via há quase 5 décadas.

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O senhor, que hoje está com 81 anos, foi encontrado. Mora em Campo Grande, no Caiobá II, mas não quer rever o único herdeiro enquanto não passar por uma cirurgia oftalmológica para voltar a enxergar. José vê apenas vultos, tem 5% da visão, por conta do que ele imagina ser uma catarata.

O problema é que ele não consegue atendimento na rede pública e, por isso, está protelando a viagem para rever o menino que não viu crescer e, de lambuja, conhecer toda a família.

“Eles vão me conhecer e eu não vou conhecer eles?”, questiona, emocionado, durante um bate papo em que fez questão de voltar no tempo, à época da primeira paixão, que acabou com o nascimento do filho.

A busca por Zé Laia demorou mais de 40 anos. Leonei tinha procurado em tudo quanto é canto, do Fórum ao sistema interno de busca da Polícia, mas nada de encontrar o caminho. A última tentativa foi em uma agência do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A atendente confirmou o nome, disse que se tratava de um beneficiário com cadastrado ativo, que recebia a aposentadoria em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, mas se negou a fornecer o endereço, alegando sigilo profissional.

A busca voltou, novamente, ao ponto inicial, mas a esperança continuou, até que uma mensagem no Facebook terminou com a agonia.

O primeiro contato – Há 2 meses, do outro lado da rede, em um dos bairros mais afastados de Campo Grande, Zé Laia, como é conhecido, recebia as primeiras informações do filho, da nora, dos netos e bisnetos, por intermédio de um vizinho, que se dispôs a ajudá-lo.

Foi com cuidado e com certa insistência que o comerciante Agrimar Félix da Silva, de 34 anos, conseguiu descobrir parte do passado do senhor de 81 anos, morador do bairro, cliente do mercado onde é proprietário.

Proprietário do mercado, Agrimar Félix resolveu vasculhar o passado do cliente. (Foto: Rodrigo Pazinato)Proprietário do mercado, Agrimar Félix resolveu vasculhar o passado do cliente. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Zé, conta, sempre foi muito fechado com relação à própria história, até que um dia, mais emotivo, resolveu tocar no assunto e abriu o coração. Falou da vida, do tempo que morou na fazenda, da época que conheceu a primeira esposa, do nascimento do primeiro e único filho, da separação e das reviravoltas do destino que fez ele parar na capital sul-mato-grossense.

“Acho que ele se deu conta que precisava da família”, diz. Com os dados em mãos, a pedido do cliente - que a essa altura já era amigo - Agrimar começou as buscas. Para surpresa do navegante, a trilha de volta ao passado do vizinho foi mais fácil do que imaginava.

A árvore genealógica de Zé Laia estava toda na internet, no Facebook, ao alcance de qualquer um, a um clique de distância. “Fiz uma busca rápida no Face e achei na hora”, disse o comerciante, que está feliz da vida por ter intermediado o contato.

Bastou uma mensagem para que os laços voltassem a se unir, para que o reencontro acontecesse e as primeiras palavras fossem trocadas ao telefone. Pelas contas do pai, depois de 47 anos. Pelos cálculos do filho, após 42.

História - A exatidão do tempo perde a importância diante da felicidade repentina que passou a estampar o rosto do senhor de aparência sofrida, que nasceu no interior de Minas Gerais, mas havia perdido o contato com a família e com o único filho após o fim do primeiro casamento.

Vida fez o mineiro parar em Campo Grande, onde mora há 12 anos. (Foto: Rodrigo Pazinato)Vida fez o mineiro parar em Campo Grande, onde mora há 12 anos. (Foto: Rodrigo Pazinato)

A história tem data, é bem delimitada, marcada no tempo e viva na memória do morador que já viveu em mais de 5 cidades brasileiras. A equipe do Lado B foi ouvir de perto esse relato.

Sentado em um pequeno banco de madeira, de costas para a cama de casal que dormia minutos antes da entrevista, José aceita contar sua história. Estava disposto a explicar como chegou a Campo Grande, porque deixou o filho para trás e em que momento perdeu o contato com toda a parentada e com os 8 irmãos.

Casamento - Sem citar os períodos de infância e adolescência, não muito relevantes para o fato principal, ele revela que se casou aos 27 anos, no dia 20 de julho de 1957. A esposa tinha 20 anos e se chamava Luzia. Era vizinha de fazenda.

Quando se conheceram ela estava noiva. Ele também, de uma cigana. Mas a paixão foi maior e os dois resolveram terminar os compromissos para ficarem juntos. Zé Laia foi quem levou, à cavalo, a aliança e o bilhete da amada dando o “toco” no rapaz com quem havia trocado juras de amor.

“Ela era noiva de aliança no dedo. Escreveu um bilhete desmanchando o casamento. Foi a maior traição”, relembra. Os pombinhos, livres, desimpedidos, trataram então de agilizar a papelada do matrimônio no dia seguinte aos rompimentos. A união aconteceu com 20 dias.

Casal vive em situação precária. (Foto: Rodrigo Pazinato)Casal vive em situação precária. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Com Luzia, José viveu por dois anos e teve o primeiro filho, Leonei Souza Laia, que ele deixou aos 2 anos e meio, quando descobriu, segundo relatou, que a esposa estava se relacionando com um primo.

Fim do romance - Na época, vivendo em Belo Horizonte, Zé Laia resolveu sair para o mundo. Deixou tudo para trás, porque não suportou a situação. “A falsidade foi demais”, relatou. Uma briga com parentes dela foi a gota d’água.

Sozinho, ele foi morar em Brasília. Arrumou emprego na construção civil como carpinteiro,  profissão que já exercia. Do Distrito Federal se comunicava com a esposa, perguntava pelo filho, enviava dinheiro e alimentos, contou.

Última visita - Foi assim por pelo menos 6 meses, até que descobriu que Luzia estava grávida do primo. A ideia de sustentar um filho que não era dele e que ainda por cima era fruto do que considerou ser uma traição pesou muito, disse, e colaborou com a decisão de abandonar de vez a família. Foi o que fez.

Mudou-se para Santos (SP). Depois, ainda em São Paulo, foi viver em Ribeirão Preto. De lá, resolveu morar novamente em Belo Horizonte, em uma cidade próxima à Capital onde a esposa estava com o filho.

Foi nesta época que visitou Leonei pela última vez. Acredita que foi aos 12 anos. O filho, hoje com 54 anos, garante que foi aos 7. Desde aquela época, Zé nunca mais teve notícias de Leonei, da ex-mulher, nem dos irmãos. Mãe e pai já morreram, revelou.

Anos mais tarde, o carpinteiro retornou à capital paulista. Morou em Ibitiga e Urubupungá. Depois, resolveu tocar a vida em Mato Grosso do Sul, na cidade de Três Lagoas, a 3º maior do Estado, onde diz ter encontrado a sorte. “Ganhei 60 milhões de cruzados na loteria”, disse. “Mas recebi só 60 mil porque mudou o plano”, completou.

Sem viver os luxos de rico, Zé retornou à Ribeiro Preto, onde conheceu a atual esposa, Elizia Sartori, que era moradora de rua e, à época, estava doente, segundo relatou.

A vida deu voltas, mostrou surpresas e o casal veio parar em Campo Grande, há 12 anos. Atualmente, o aposentado e a esposa vivem no Caiobá II, em uma única peça. A pintura de fachada, de um cor de rosa desbotado, indica que ali funcionava uma mercearia.

Dividem uma única peça. (Foto: Rodrigo Pazinato)Dividem uma única peça. (Foto: Rodrigo Pazinato)

Cirurgia - São quase cinco décadas sem ver o único filho, mas os anos não apagaram o amor que sempre sentiu, revelou.“Meu Leonei eu cuidei até a base dos dois anos e meio. Foi cuidado com banana maça mineira. Estava grandão”, relembrou, com a voz entrecortada, em meio às lágrimas que caem sempre que lembra do único herdeiro.

Falar do filho deixa o pai emocionado. Seo Zé não vê a hora de poder abraçar Leonei de volta, mas agora não quer perder a oportunidade de ver o rosto do "menino" que não criou. Conhecer os netos e a nora é outro desejo que passou a alimentar.

É por isso que está adiando a viagem. Precisa ser avaliado por um oftalmologista, mas não consegue vaga pelo SUS (Sistema Único de Sáude). O dinheiro que recebe - da aposentadoria dele e da esposa, é insuficiente para bancar um tratamento particular.

De Belo Horizonte, Leonei Souza já avisou que vai fazer de tudo para que o pai faça a cirurgia - se for mesmo necessário, apesar do custo alto.

Você também pode colaborar com José Laia Sobrinho. O telefone de contato para doações é o (67) 9917-9184 (Félix).

Leonei Souza passou a vida inteira procurando pelo pai. (Foto: Arquivo Pessoal)Leonei Souza passou a vida inteira procurando pelo pai. (Foto: Arquivo Pessoal)
A família de Zé Laia. Da esqueda para direita: Leonei Souza (pai), Silvane Souza (nora), Thamires de Souza (neta), Thais de Souza (neta) e Leonidas Henrique (neto) (Foto: Arquivo Pessoal)A família de Zé Laia. Da esqueda para direita: Leonei Souza (pai), Silvane Souza (nora), Thamires de Souza (neta), Thais de Souza (neta) e Leonidas Henrique (neto) (Foto: Arquivo Pessoal)



Léo, tenho certeza que em breve estarei dividindo esta alegria comvoce e sua familia,
um abraço de seu amigo.
 
Gilberto Moitinho em 15/12/2012 21:21:45
Realmente a reportagem é maravilhosa. Acredito, que após essa matéria não vai faltar ajuda, nosso povo brasileiro é muito solidário.
Hospital que é referencia em cirurgia de catarata, é o maravilhoso Hospital São Julião. Ele possue uma equipe de oftalmo excelente (Drª. Andréa Grubts, Dr. Jhony, Maurício,etc...), tudo pelo SUS, mas com encaminhamento de um centro de saúde.
 
Neyde de Oliveira em 29/11/2012 10:47:38
Muito emocionante essa reportagem, tai uma boa dica para quem estiver a disposiçao para colaborar com esse Sr. E ai? onde esta nossos profissionais Oftalmos? essa e a hora de mostrar que a vida nao e so tocada a dinheiro mas com carinho amor e doaçao.
 
Antonio Garcia em 29/11/2012 10:00:45
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