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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

04/07/2016 18:46

Perseguição e arma na cara mostram que homofobia está mais perto do que se pensa

Paula Maciulevicius
Rua onde episódio aconteceu, dos Farmacêuticos, no Tiradentes. (Foto: Alcides Neto)Rua onde episódio aconteceu, dos Farmacêuticos, no Tiradentes. (Foto: Alcides Neto)
Joelho de estudante, depois da rasteira de um dos agressores. Joelho de estudante, depois da rasteira de um dos agressores.

A homofobia sempre esteve perto da gente e distante das leis, apesar de muitos acharem que não é coisa de cidades como Campo Grande. Na noite desse domingo, dois amigos foram vítimas de um ataque, no bairro Tiradentes. Uma pick-up branca parou na via ao perceber que os dois eram homossexuais. Dela, desceram homens que chegaram a apontar uma arma para um dos jovens. Arquivado desde 2004, o projeto de lei que criminalizaria esta atitude não seguiu adiante, ao contrário da violência que se vê pelas ruas.

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Os dois faziam o trajeto entre Tiradentes e o Arnaldo Estevão de Figueiredo, por volta das 10h da noite, voltando da casa de um amigo. Antes de chegarem na Avenida José Nogueira Vieira, pela Rua dos Farmacêuticos, o carro passou e os ocupantes gritaram mandando eles andarem de cabeça baixa. 

"Apesar da nossa orientação sexual, não dá pra perceber. Só se existe uma maneira de se vestir, não sei, mas eles acabaram reconhecendo", conta o jovem de 26 anos. A vítima preferiu não ser identificada, mas conta em detalhes o que viveu.

"Eram três pessoas atrás, duas na frente. Eles estavam mexendo com todo mundo na rua. Aí começaram a xingar: viadinho de merda, vira homem e um monte de coisas pejorativas. De repente pararam e gritaram: volta o carro, volta o carro, vamos dar uma lição neles", repete.

Ao escutarem, os dois falaram um para o outro: "corre". O rapaz foi para uma travessa, enquanto o amigo correu para pedir ajuda na avenida próxima, bem movimentada. "Eu levei uma rasteira de um deles. Caí no chão e fiquei todo ralado. Nisso vieram para cima, quando eu levantei, ele pegou a arma, eu gelei..."

A ordem dos agressores era para que ele corresse e não olhasse para trás. Na hora, sem nem saber como, a vítima pediu para ele se acalmar. "Não virei para trás e nem corri. Aí chegou um pessoal mais próximo da gente, eles subiram no carro e fora embora. Graças a Deus não rolou agressão", agradece.

Próximo do trecho onde eles estavam, moradores do condomínio da lateral chegaram a abrir as janelas com os gritos. Nos minutos seguintes, eles não sabiam como reagir. "Foi a primeira vez que me aconteceu, você nunca pensa que vai acontecer com você, quando vê matéria, vê na novela... Se eu tivesse mexido, revidado, mas não... Estava tranquilo, fazendo o caminho de todos os dias", se explica.

Da equipe de vigilância do bairro Arnaldo Estevão de Figueiredo, o vigia Reginaldo Gonçalves Dias, de 28 anos, foi acionado por uma moradora para tentar ajudar na situação. "Eu tinha acabado de fazer a ronda e nesse meio tempo, nos ligaram. Eu cheguei a encontrar o carro e falar que já tinhamos chamado a Polícia, mas eles correram... Estavam em uns 10 numa praça", conta.

Da cena que acompanhou, Reginaldo conta ter visto uma das vítimas ralada e todos muito nervosos. "Esse povo é preconceituoso, mas a gente vai fazer o que? Se nem a Polícia pode fazer nada", questiona.

O que fica é a revolta não só com os agressores, mas a sociedade em geral. "É tanta ideologia que estão plantando contrária nesse mundo, as pessoas esqueceram que somos todos iguais".

Ferimentos já com pomadas. Ferimentos já com pomadas.

Depois da perseguição, os dois ligaram para a Polícia Militar, que foi bem atenciosa. A viatura levou tempo para chegar e por receio de que os agressores voltassem, eles seguiram para casa.

Nesta segunda-feira, as frases que o amigo, auxiliar jurídico André Oliveira dos Santos, de 23 anos, ouviu ainda perturbavam. Ele foi a segunda vítima nesta história. "É viado, é viado, tem que apanhar mesmo", repete. Hoje o sentimento é outro, um misto de susto, medo e decepção. "Fiquei com medo de eles me encontrarem na rua depois, me identificarem. É tão difícil essa situação que apesar do policial que me atendeu ter sido muito gentil, ele nem sabia como lidar, qual era a palavra certa", descreve.

André cursa o último ano de Direito e nunca tinha sofrido uma agressão dessa forma. "É terrível quando a gente vê, olha o medo que a gente passou? Ele veio pra cima de mim com uma arma. Eu considero isso homofobia, porque eles nem pegaram celular, não pediram pra passar nada. Não era para roubar alguma coisa", argumenta.

Se eles não tivessem "avisado" que parariam, os amigos nem calculam como a noite poderia ter terminado. "Eu fico totalmente desesperançoso. Se a gente fosse registrar o boletim seria o que, de fato? Tentativa de agressão, injúria, ameaça? A materialidade, o crime foi motivado pela nossa condição sexual e eu me sinto de mãos atadas". As palavras doem quando são ouvidas.

"Estar me formando, ter estudado tanto, de nada vai me servir. Homofobia não ser crime me deixa muito entristecido, não como gay, como cidadão mesmo", reforça André. Ele ainda ouviu de quem soube do fato que a 'culpa' era deles devido ao horário que andavam no bairro.

"Só posso andar até 8h da noite por ser gay? Se passar disso eu vou apanhar? Fico constrangido e com medo. As pessoas não precisam ser homossexuais para lutarem contra a homofobia. Isso tem que começar na escola. Eu posso ser hétero e luar por isso, que é um crime de ódio como o racismo", defende.

O projeto de lei estava no Congresso para análise e foi arquivado ao final do mandato, em dezembro de 2014. Sua última movimentação foi justamente para a Secretaria de Arquivo.

"Nosso grande problema é a resistência da bancada fundamentalista. O público LGBT não tem acessibilidade e proteção. Quando chega, eles barram. Eu sou assumidamente homossexual, mas se eu tivesse a opção, optaria por ser hétero, justamente por essas situações", finaliza André.

A dupla procurou a delegacia para registrar o caso.  




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