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Campo Grande, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

02/10/2016 07:57

Pimenta na Suíça dos outros é refresco na guerra silenciosa contra preconceito

Lenilde Ramos
Europa em foto de 1985.Europa em foto de 1985.

Conheci a Europa em 1985, quando eu ainda era minoria exótica entre os caucasianos. Eu via brancos nas ruas, bondes, metrôs, museus, bares e restaurantes. Com certeza havia pitadas de negros, árabes e asiáticos, mas nada comparado ao que passei a ver nos anos seguintes.

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Em 2014 tive a sensação de que os brancos tinham se convertido em minoria.

Há 30 anos atrás, minha brasilidade cabocla chamava um bocado de atenção. Com ela cheguei em Zurique, na Suíça e meus anfitriões me levaram a um restaurante bem chique. Percebi um frisson entre os garçons, mas pensei estar enganada, porque eram finos, praticamente blase, como sabe ser o primeiro mundo.

Pensando em me proporcionar um pouco de emoção, escolhi uma iguaria levemente apimentada. Nunca tinha provado, mas achei que era hora. Enquanto isso, observava os detalhes do cenário e seus personagens, um luxo só.

Os garçons trouxeram os pratos e dois deles ficaram de longe me observando. “Será que estão me paquerando?”. Quando dei a primeira garfada, o negócio travou na minha garganta. “Caraca, tô na Suiça ou em Salvador?!”.

A massa desceu que nem brasa na minha goela e foi queimando tudo até o estômago. Saiu até lágrima. Na hora vi o risinho maroto dos dois garçons curtindo a cena. E agora?

O prato bem servido estava ali me desafiando. Meus anfitriões perguntaram se eu tinha gostado e eu disse que adorei, disfarçando legal. Pensei rápido: “posso encher o saco desses dois, contar o que está acontecendo e pedir para o maitre provar”. Mas, olhei bem pra eles e, sem esboçar reação nenhuma, fui dando uma garfada atrás da outra.

Sentia que ia explodir, mas engoli tudo até o fim. Eles ficaram espantados e até chamaram outros garçons para ver.

Foi uma guerra silenciosa e na etiqueta. Saí dali me segurando e olhei bem pra eles, também no maior glamour.

Tive ótimos momentos na Europa, entre grandes amigos, mas ali travei minha primeira batalha com ela, incorporando um jeito particular de enfrentar as que vieram depois. 




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