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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

26/05/2014 06:46

Psicanalista agora escreve crônicas para o Lado B sobre a vida e a literatura

Andrea Brunetto
Lagoa Itatiaia, uma inspiração. (Fotos: Cleber Gellio)Lagoa Itatiaia, uma inspiração. (Fotos: Cleber Gellio)

Recebi o convite para esta experiência disciplinada de escrever toda semana sobre o que eu quiser e como almejo escrever um romance, treino para isso escrevendo algumas crônicas de viagens, pretensões poéticas no Facebook, trechos sobre o cotidiano, comentários de filmes, sobre a beleza da lua, a alegria de um domingo de vento fresco, e outras dessas coisas “inúteis”, retalhos de fatos que servem tão bem à literatura.

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Moro em um apartamento com uma janela para a Lagoa do Itatiaia, que contemplo só parcialmente, sobre o telhado da casa de frente para ela. Vivo em uma travessa onde quase não passam carros e acordo pontualmente às 6h15 da manhã, com quatro araras azuis que fazem voo rasante ao lado de minha janela, com uma precisão de horário impressionante.

A lagoa é linda e permite a quem vive perto dela desfrutar de alguns graus de calor a menos que no resto da cidade. E de um pouco de umidade a mais. Os observadores de pássaros me instruíram sobre a grande variedade deles que vive às voltas da lagoa. O que mais gosto é de uma garça solitária que não a abandona, seus filhotes já se foram, mas ela continua lá, refletindo sua brancura e solidão sobre a água e o verde do capim. Essa garça e Luisa, uma menina de dois anos, que mora nos arredores e se recusa a ir à escolinha porque prefere brincar com seus dinossauros na lagoa, são os dois únicos seres que amam a lagoa mais do que eu.

Também próximo da lagoa vive um compositor bastante conhecido, cantor de voz linda, prata da casa, a quem pedi que escrevesse uma música para ela. Dias depois, passando por mim, na caminhada matutina, entregou-me verbalmente a primeira estrofe da música. Guardei de memória, cheguei em casa e anotei esta primeira estrofe da música que nunca vai existir. Perdi o papel onde anotei esse começo. E a continuação nunca veio. E a música ficou perdida nos labirintos dos esquecimentos, dele, meu, do papelzinho jogado no lixo.

O verdadeiro motivo pelo qual aceitei o convite é muito presunçoso, mas conto para vocês. Estou lendo "O Verão de 80", reunião de crônicas da formidável escritora Marguerite Duras – seu centenário tem sido bastante comemorado, inclusive no Brasil, nesse ano – que ela escreveu para o jornal Libération, de Paris, durante o verão de 1980. Em sua primeira crônica falou sobre uma chuva intensa, um temporal que agitava o mar e um menino chorando a quem alguém pergunta por que está chorando. Ele responde: não vou dizer, ninguém me compreenderia. E continua chorando sem se explicar.

Com o convite do Lado B, lembrei de Clarice Lispector que escreveu para o Jornal do Brasil, de agosto de 67 a dezembro de 73. Todas essas crônicas estão publicadas no livro "A Descoberta do Mundo". Diferente de Marguerite Duras, em sua primeira crônica, não há a vastidão da natureza, seu mundo é da fome e da pobreza do Brasil. Uma criança chora e pede comida à mãe, que não tem nada para lhe dar. Ela insiste, insiste, e dorme para esquecer a fome.

Quiçá um dia essas crônicas que escrevo não servirão para algo? Então começo minha primeira escrita assim: com uma lagoa e uma criança incompreendida, buscando inspiração e imitando dois monstros sagrados da literatura.

“Sou psicanalista, psicóloga, escritora de livros e artigos técnicos; natural desse Estado, filha de gente que veio de longe e ajudou a construí-lo, campo-grandense de coração, de trajetória e de escolha para viver.”

A ave solitária na lagoa.A ave solitária na lagoa.



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