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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

03/02/2016 06:41

Quando mãe ouviu que “Samuel não existia mais”, ficou a obrigação de ser feliz

Paula Maciulevicius
Entre as lágrimas de relembrar da dor, Elizzete consegue falar o que ficou de quem partiu: a saudade. (Foto: Alan Nantes)Entre as lágrimas de relembrar da dor, Elizzete consegue falar o que ficou de quem partiu: a saudade. (Foto: Alan Nantes)

Elizzete Aparecida de Freitas foi mãe pela primeira vez aos 19 anos. A ultrassom confirmou que eram gêmeos, dois meninos. A notícia foi recebida com euforia pela família recém chegada a Campo Grande, porque no trabalho do marido, só nasciam meninas.

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Eles nasceram no domingo de Páscoa de 1982. A vontade da mãe era para que os nomes fossem diferentes entre si, mas interligados pela Bíblia. O primeiro que nascesse seria Samuel, do Antigo Testamento e o segundo, Thiago, do Novo. “Um é profeta e o outro apóstolo”, detalha Elizzete, hoje com 53 anos.

Crianças cheias de vida, os meninos se encontraram, juntos, na música. E desde pequenos formaram a dupla “Samuel e Thiago”. Samuel era segunda voz e tocava teclado, enquanto o irmão, fazia a primeira voz e se dividia entre o sax e o violão.

Fotos que Elizzete carrega na carteira. (Foto: Alan Nantes)Fotos que Elizzete carrega na carteira. (Foto: Alan Nantes)

“O Samuel era mais dado com as pessoas. Ele era muito sorridente, o sorriso, isso era uma marca registrada dele. Vivia sorrindo, era debochado”, lembra a mãe. Elizzete volta no tempo para falar de saudade e o que ficou de quem partiu. Nas lembranças, ficou a imagem do filho acordado de madrugada para acompanhar corridas de Fórmula 1 ou partidas de tênis. Duas grandes paixões do garoto.

“Ele morreu com 17 anos, no dia 28 de agosto de 1999. Foi um acidente, eles estavam em cinco jovens no carro”, conta. Samuel tinha passado o dia num clube de laço com os amigos e voltava à cidade para duas festas de aniversário. O que disseram para a mãe é que a motorista, de 18 anos e dona do carro, perdeu o controle do veículo, atravessou o canteiro e entrou num caminhão basculante. Com o impacto, o tanque de combustível do caminhão explodiu, provocou um incêndio, matando todos os ocupantes.

“Incendiou o carro. Alguém conseguiu tirar os da frente, mas o Samuel, o Zé Eduardo e o Bruno, não... Foi até difícil identificar quem era quem”.

Elizzete não viu nada. Estava em Goiânia, hospedada na casa de amigos. Havia passado o dia inteiro falando, pensando e tentando se comunicar com o filho, mas não tinha conseguido. “O pai deles ligou, tentou primeiro falar com o amigo onde eu estava hospedada, mas não conseguiu. E eu perguntei pelo Samuel, falei que não tinha conseguido falar com ele.

Ele respirou e disse: ‘O Samuel, da dupla Samuel e Thiago não existe mais’. Eu perguntei ‘como assim?’ Ouvi: ‘ele morreu’. Eu só escorreguei e sentei. O pai deles também estava sofrendo e não sabia como me contar.

Eu penso nele e puxa vida, eu estou tendo a oportunidade de ficar, de viver. Então eu tenho a obrigação de ser feliz. Porque era assim, ele vivia intensamente. (Foto: Alan Nantes)"Eu penso nele e puxa vida, eu estou tendo a oportunidade de ficar, de viver. Então eu tenho a obrigação de ser feliz. Porque era assim, ele vivia intensamente". (Foto: Alan Nantes)

A notícia chegou às 11h da noite, exatamente depois que o último voo para Campo Grande já havia saído. No primeiro horário da manhã, o aeroporto estava fechado pelo mau tempo. Elizzete só foi conseguir chegar aqui ao meio-dia.

“Ele foi enterrado à 1h da tarde. Estava só esperando eu chegar. O caixão foi lacrado e graças a Deus, eu tenho a memória só do sorrisinho dele. Além da saudade, que é demais”.

Entre as lágrimas de relembrar da dor, Elizzete consegue falar o que ficou de quem partiu. “Essa é a história. O que restou foi a saudade e a lição de que ele era muito sorridente, muito feliz. Eu penso nele e puxa vida, eu estou tendo a oportunidade de ficar, de viver. Então eu tenho a obrigação de ser feliz. Porque era assim, ele vivia intensamente”.

No cartão da missa ficou o poema de Fernando Pessoa e uma das poucas fotos de Samuel. Mãe coruja, Elizzete sempre filmava os meninos cantando, mas eram poucas as fotografias. A foto dele na carteira veio como um alento e ela nunca pode agradecer.

Samuel, nas palavras da mãe, marcou pela felicidade que trazia consigo por onde passava. (Foto: Arquivo Pessoal)Samuel, nas palavras da mãe, marcou pela felicidade que trazia consigo por onde passava. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os dois meninos e ainda a filha caçula estudavam no Colégio Dom Bosco e no ano de 1999, os gêmeos se formavam no 3º ano e a menina, na 8ª série. À época dona da livraria Dom Bosco, Elizzete viu entrar pela porta dois álbuns de formatura e caiu no choro. Explicou para quem fez a entrega que eram para ser três. Dias depois, ao chegar no comércio, encontrou um envelope com a foto do único filho que não chegou a se formar. “Eles tiravam foto de um por um no meio do ano e identificavam com um número, era para o fotógrafo saber e acompanhar no dia da formatura. Eles me trouxeram essa dele, tirada dias antes do acidente. Eu nunca pude agradecer”.

Samuel, nas palavras da mãe, marcou pela felicidade que trazia consigo por onde passava. Um tempo depois, ele ainda pode estar, representado pela música, no casamento de um dos melhores amigos, Alvinho.

O irmão iria tocar na cerimônia, junto de um grupo musical e bem na hora queimou o teclado na igreja. Thiago se lembrou do instrumento do irmão, voltou em casa e pegou. “Ele, de alguma forma, estava lá”.

“Acho que Deus me agraciou com isso, de querer fazer como ele, de fazer a diferença por onde eu passar. Eu acho que esse é o sentido da nossa vida e o que eu busco fazer: a diferença com quem eu convivo.

É duro falar, porque é uma ferida que nunca vai cicatrizar, mas a gente aprende a viver com essa dor. A dupla Samuel e Thiago era um casamento perfeito. Eles tinham um carisma no palco e todo mundo falava que era uma promessa do Estado. Infelizmente, eles não tiveram a chance de gravar um CD, porque o Samuel morreu”.

“O valor da coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que elas acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”. (Fernando Pessoa).

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Grande Elizzete!! Eu a conheci pessoalmente, depois de um primeiro contato pelo Orkut.
Temos histórias parecidas e dores iguais.
É preciso uma força descomunal a cada dia amanhecido. Sobrevivemos, sim! Sorrimos, amamos, viajamos, trabalhamos, comemoramos... aproveitamos os momentos felizes!
Mas, corrigindo o comentário abaixo, é só a dor desesperadora que passa! Sofreremos de dor eternamente dentro dos recônditos dos nossos corações. E daí vem o exercício diário da superação, da atenção voltada para outros assuntos, da observação mais acentuada das belezas deste mundo, do agradecimento a Deus pelos momentos vividos com nossos filhos que já se foram.
Em uma semana completar-se-ão onze anos da partida do meu filho... e ainda dói!
Só quem passou por isso entenderá em sua completude :'(
 
Elaine Manzig em 03/02/2016 12:33:26
Muito comovente a mãe contar está história da perda de seu filho, uma situação em que a dor passa mas a saudade é para sempre.
 
Ramiro em 03/02/2016 11:19:39
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