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Campo Grande, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

20/09/2016 06:10

Se ler a notícia já é difícil, imagina as páginas de um inquérito de suicídio?

Paula Maciulevicius
Imagem de um ano atrás, quando uma mulher se jogou do pontilhão da Ceará. (Foto: Arquivo/Simão Nogueira)Imagem de um ano atrás, quando uma mulher se jogou do pontilhão da Ceará. (Foto: Arquivo/Simão Nogueira)

Depois de investigados pela polícia, os casos de suicídio são encaminhados ao Ministério Público para que seja descartada a ocorrência de crime. E foram os inquéritos que estampam a dor, a culpa e a angústia do depoimento de amigos e familiares que fizeram Natália Saraceni chorar. Assessora jurídica do Ministério Público, ler a descrição de testemunhas do cenário choca Natália mais do que qualquer detalhe de crime bárbaro. E é fazendo uma leitura destas páginas, que ela escreve hoje para o Voz da Experiência: 

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Eu nunca lidei muito bem com a morte. Quando era pequena dizia que queria ser médica, mas naquela época não sabia o que isso significava. Mais pra frente, quando alguns familiares queridos foram levados por Deus, após perderem a batalha para doenças graves, minha suposta vocação desmoronou diante dos meus olhos. 

Ao preencher a ficha fria de inscrição para o vestibular, não pensei duas vezes ao escolher o Direito: área que me manteria bem distante daquelas questões que eu não podia compreender e que custava a aceitar. Ledo engano... 

Recentemente quando fui trabalhar na promotoria do Júri, um dos primeiros inquéritos policiais que chegou em minhas mãos investigava um caso de suicídio. Logo ao ler o assunto da capa, senti meu estômago gelar.

Natália no trote, quando passou para Direito na UFMS. (Foto: Arquivo Pessoal)Natália no trote, quando passou para Direito na UFMS. (Foto: Arquivo Pessoal)

Atribuí aquela sensação desconfortável à mudança radical de área de atuação. Isso porque, após seis anos prestando assessoria jurídica na área de proteção aos direitos coletivos, onde a legislação revela sua faceta mais social, pensei que seria natural enfrentar alguma dificuldade ao lidar com o ramo mais repressivo do direito. Mas não era isso.

Já havia lidado com alguns crimes bárbaros desde os tempos de estágio e o direito penal sempre me encantou. Mas suicídio era diferente... Mal comecei a folhear as primeiras páginas e as lágrimas me escaparam ao ler os depoimentos de amigos e familiares da vítima que relatavam a imensa quantidade de sinais que aquela jovem moça havia dado, demonstrando uma tristeza profunda, pedindo ajuda, se sentindo sem esperança.

Os casos de suicídio são investigados pela polícia e encaminhados ao Ministério Público para que se descarte a ocorrência de crime diverso, como a instigação ou auxílio ao suicídio ou mesmo um homicídio camuflado e, por isso, são ouvidas as pessoas mais próximas do convívio da vítima a fim de comprovar se o seu comportamento já indicava a possibilidade de chegar a um ato tão extremo.

Naquela ocasião, ao narrar minha frustração com a nova descoberta, novamente não contive as lágrimas no meio da promotoria ao conversar com os estagiários sobre o sentimento de impotência que senti lendo aqueles depoimentos que revelaram que a vítima demonstrava suas intenções a todo o momento, sem que ninguém prestasse a devida atenção.

Vários questionamentos vieram à minha cabeça... Por que será que não nos damos conta da dor do outro, por mais próximo a nós que ele seja? Será que alguém que eu amo está passando por um momento assim e eu não sei? Será que eu conseguiria identificar uma situação assim?

Nos dias seguintes, me surpreendi ao ver a imensa quantidade de casos envolvendo investigação de suicídio que chegam na promotoria por mês. Eles não são noticiados, mas acontecem com uma frequência inimaginável.

Ainda hoje, mesmo lidando com crimes bárbaros, nada me choca mais do que encarar um inquérito policial que apura suicídio. Até mesmo os homicídios mais brutais não se comparam ao peso que é revolver todo o contexto social da vítima para delimitar o cenário do suicídio.

Quão desesperadora deve ser a situação de uma pessoa que tira a própria vida?
Quão intensa pode ser uma dor para que alguém acredite que a morte seja sua única cura?
Nem sempre mortes são evitáveis. Mas suicídios sim.

Acredito que para todas essas pessoas que foram vítimas da própria dor, faltou uma pequena luz no fim do túnel, uma palavra na hora certa, um abraço inesperado, ou apenas um ouvido disposto a ouvir um desabafo.

Já ouvi tantas bobagens sobre o suicida ser um egoísta, condenado ao inferno por causar tanto sofrimento com seu ato, mas já pararam para pensar que um suicida se sente tão rejeitado que acredita que sua morte não vai abalar ninguém?

Mostre que se importa. Mostre que ama. Não espere para depois...




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