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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

17/08/2014 08:30

Um bom pai é aquele que permite que o filho seja quem ele é

Andrea Brunetto
Um bom pai é aquele que permite que o filho seja quem ele é

Terminei de ler “O perdão dos pecados”, do escritor espanhol Antonio Fontana. A narradora da estória é Ângela, que aos vinte anos fugiu de seu povoado, perdido no meio do nada, foi se exilar em Madri e nunca mais voltou para ver sua mãe e sua irmã, a não ser para o velório das duas, muitos anos depois.

A irmã de Ângela nasceu de um parto muito complicado e teve como sequela paralisia cerebral. Ao ver aquele bebê, seu pai lhe deu como indicação “cuide de sua irmã”. É sua única lembrança do pai, ela aos cinco anos de idade, a mãe logo após o parto, discutindo com o marido, que ao ver aquela criança que não era “normal”, repetidamente se perguntava “por que aconteceu isso conosco?”. Ao que a esposa respondia “aconteceu com ela, não com você”. O pai dá essa ordem à Ângela, sai de casa, da cidade, fugindo da família para nunca mais voltar.

A vida de Ângela é permeada pela presença dessa irmã, a quem tem de cuidar, da qual vai fugir aos vinte anos, mentindo para a mãe que logo voltaria para vê-las, descumprindo suas promessas e fazendo como o pai: a mesma covardia, a mesma deserção. Embora tenha ido para nunca mais voltar, nunca construiu nada que depois não perdesse com os remorsos, a culpa e os traumas que sempre carregou. O autor nos mostra que não adianta fugir do passado, o carregamos conosco: “O passado não desaparece: espera por nós, disposto a ajustar as contas. Pelo que devíamos ter feito e não fizemos, pelo que fizemos e não devíamos ter feito”.

Essa estória romanceada não é incomum. Trabalhei muitos anos com Educação Especial e escutávamos com certa frequência das dificuldades para os pais, muito mais para o pai do que para a mãe, em aceitar que seu filho ou filha nascesse com limitações físicas ou mentais. Os pais sempre esperam que seus filhos deem na vida passos além deles próprios: que sejam mais inteligentes, mais bem-sucedidos, mais felizes. E, de repente, podem ser surpreendidos por uma criança que talvez não consiga realizar o ideal que se espera dela.

Poder amar seus filhos, mesmo que eles estejam aquém do ideal, seja por uma deficiência física ou mental, amá-lo mesmo quando ele não vai realizar suas expectativas, pois quer traçar caminhos diferentes é uma qualidade muito grande, é dar um passo além do próprio egoísmo, é permitir que o outro seja o que é e não o que você quer que ele seja. Amar o que se amaria não é grande coisa. Esse é o dilema que os pais têm de passar, e não apenas aqueles que têm um filho que nasceu com alguma imperfeição.

Comecei com esses casos de homens que abandonam a família com o nascimento de um filho com alguma deficiência, porque eu queria falar sobre a paternidade. E começo explicando o desprezo que eu tinha por um político e a admiração por outro. O que tinha desprezo morreu algum tempo atrás, era vice-presidente e viveu uma longa batalha contra o câncer, motivo pelo qual muitos o viam como um guerreiro. Eu, quando o via falando na televisão, só enxergava uma coisa: que a vida inteira ele teve uma batalha judicial para não reconhecer uma mulher como filha, fruto de um relacionamento fortuito que teve no passado longínquo. Recusava-se sempre a fazer o teste de DNA e, mesmo quando à revelia disso, o judiciário lhe atribuiu a paternidade, recorria do processo seguidas vezes, desobedecendo até mesmo juiz. E tudo para não reconhecer uma mulher como sua filha. Que coisa triste!

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E o que tenho admiração foi um que, já tendo quatro filhos, ele e a mulher sabiam que havia chances do último filho nascer com Síndrome de Down, não apenas acolheu o bebê, mas deu a ele o nome de seu amado avô, figura eminente na política brasileira. Sua foto no berçário com Miguel e os outros quatro filhos olhando, no vidro atrás, correu pela internet esta semana.

Tendo a achar, nesses anos todos em que escuto os dramas humanos, que se um homem é um bom pai é boa pessoa, se ele consegue acolher uma criança que nasce, lhe dá seu nome, sua presença, e seu apoio, mesmo que ela não tenha nascido como seu ideal, ou do relacionamento ideal, é alguém que consegue enxergar para além de seu próprio narcisismo. Por isso desprezo o primeiro exemplo – não vou dizer o nome, vocês sabem muito bem quem é – e tenho admiração por Eduardo Campos.

Foi uma perda para o Brasil, mas foi, sobretudo, uma perda para seus filhos. Mais ainda para Miguel, um bebezinho que foi privado de uma vida com esse pai.




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