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Campo Grande, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

08/01/2016 06:12

Usando só o wi-fi de shopping, Márcio vai concluir curso de inglês a distância

Paula Maciulevicius
Márcio acompanhando as aulas pelo Youtube, em pleno shopping. (Fotos: Paula Maciulevicius)Márcio acompanhando as aulas pelo Youtube, em pleno shopping. (Fotos: Paula Maciulevicius)

Há 14 anos um acidente fez Márcio passar a ver a vida vertical. Antes bastava ele olhar para frente para enxergar. Tetraplégico, numa cadeira de rodas, é de baixo para cima que os olhos veem o mundo desde então e há quatro anos ele pega de dois até quatro ônibus para chegar ao Shopping Campo Grande. Sai do bairro Parati com destino ao comércio apenas para ver gente e o movimento. Nos últimos seis meses, a "viagem" ganhou outro valor: de estudar Inglês usando o wi-fi do lugar.

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"O que eu vou fazer? Como eu já estava vindo aqui todo dia, pensei em fazer alguma coisa útil", explica Márcio Ribeiro, de 43 anos. Ele dirigia o carro da vizinha, junto da então esposa, de Campo Grande até Bela Vista, onde as duas ocupantes do veículo trabalhavam, quando dormiu no volante, perdeu a direção e capotou. Do acidente, Márcio saiu tetraplégico.

Nos primeiros anos como cadeirante, passava os dias trancado num cyber. "Ficava 4, 5h lá. Um dia a dona falou: para de vim aqui, sai um pouco. Vai descobrir a vida lá fora. Eu nunca tinha andado de ônibus como cadeirante. Escolhi vir aqui e gostei de ver gente, de respirar, tanto é que não parei mais", descreve.

Graças à tecnologia touch, Márcio consegue se comunicar pelo celular. Graças à tecnologia touch, Márcio consegue se comunicar pelo celular.

Dentro da trajetória como cadeirante, ele conta ter resolvido estudar Gestão em Marketing, curso pelo qual hoje é formado. Evangélico, passou a notar que as visitas de pastores americanos à igreja que frequenta sempre necessitavam de intérpretes do Inglês para o Português.

"Por que eu não vou traduzir? Vou aprender então. E resolvi estudar. Se você fala Inglês, te abre muitas portas", sintetiza Márcio. Não são seis meses ininterruptos, esclarece, já tiveram dias em que ele "faltou". O motivo principal não é nem o wi-fi, porque isso ele tem em casa também. "Eu venho no shopping porque em casa me dá sono, eu durmo ao invés de estudar", diz.

O Shopping Campo Grande é a escolha por ter dois andares, o que possibilita ele de andar mais depois que as duas horas de estudo foram cumpridas. Graças à tecnologia touch que ele consegue manusear o celular. A tetraplegia deixou a ele poucos movimentos. Pelo celular, Márcio estuda por aplicativos e aulas gratuitas no Youtube. O wi-fi é dado pelos funcionários de lojas com quem o cadeirante já fez amizade.

"Eu estou aprendendo já a montar frases, agora que vai ficando mais difícil. Você sabia que shopping em inglês quer dizer compras? E que mall é shopping?", conta sobre as aulas. 

Aposentado, ele já tentou fazer curso de Inglês em escolas, mas os planos se frustraram quando uma negociação não saiu como o planejado. Márcio tinha duas cadeiras motorizadas, pôs uma à venda por R$ 3 mil. Grana que seria revertida para custear as aulas.

"O cara que comprou foi turbinar e queimou. Ele torrou a cadeira. Conclusão? Ele me deu mil reais e o resto eu deixei para lá, ele não tinha como pagar", explica. 

No shopping ele diz que já chegou a ganhar presentes de lojistas, desde lanche até colchão de ar e celular. 

Em casa, a rotina dele é acompanhada por cuidadores. Ele dorme às 9h da noite, acorda 10h da manhã, almoça e sai de casa por volta do meio-dia. Só volta depois das 5h. Todo trajeto é feito de ônibus, de dois até quatro. 

"Pego dois para vim e para voltar. Se eu mudar de percurso, posso pegar até oito. Por que eu mudo? Eu não gosto de mesmice. Você vai embora para casa todo dia pela mesma rua, tenho certeza, não? Tenta mudar, vai por cima, por baixo. Eu sou assim. Você vai pensar que eu sou louco, não é?", brinca.

Cadeirante fica geralmente no primeiro piso, próximo à Rihappy. Cadeirante fica geralmente no primeiro piso, próximo à Rihappy.

Com o Inglês, Márcio quer além de traduzir quando pastores americanos vierem à sua igreja, viajar para o Canadá. Com o acidente, faz 14 anos que ele não sai de Campo Grande. "Lá não é igual ao Brasil, que tem acessibilidade fracionada, lá tem muita, em tudo", compara. Ele diz que soube lendo e vendo programas de viagens para cadeirantes

As viagens saíram da vida dele depois do acidente. "É que onde eu vou, tenho que levar cuidadora, se for viajar. Só tenho liberdade quando eu sento na minha cadeira e venho para cá. Ninguém precisa me empurrar e me sinto o máximo assim. Quando volto para casa e vejo que preciso de ajuda... Isso acaba comigo. 

Adoro praia, sair, andar de bicicleta, jogar bola. Na verdade, tenho mente de meninão. Acho que o acidente deve ter retardado as minhas vontades. E só me sinto vivo, quando venho no shopping". 

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Essa sugestão é da jornalista, amiga e leitora Carmen Cestari. 




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