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Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

24/09/2014 06:21

Viúva de um amor de 64 anos pinta telas por saudade e desafia o Parkinson

Paula Maciulevicius
Na vida da senhorinha de cabelos curtos e branquinhos e óculos, o tempo trouxe alegrias e também acentuou tristezas. (Foto: Marcelo Callazans)Na vida da senhorinha de cabelos curtos e branquinhos e óculos, o tempo trouxe alegrias e também acentuou tristezas. (Foto: Marcelo Callazans)

Dona Neusa Hugueney de Faria tem cara de avó. Podia ser a minha. Aos 80 anos, desafia o Mal de Parkinson e a saudade. Usa os pincéis e a tinta a óleo para colorir os 64 anos de amor. Faz da pintura uma terapia e o caminho para se reencontrar com o velho amor que não está mais aqui. Seu Luiz Paes da Faria se foi em agosto do ano passado. Junto com ele morreu um pouquinho de dona Neusa, que ela tenta hoje renascer ao sentar-se no banquinho, em frente à tela em branco.

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Na vida da senhorinha de cabelos curtos e branquinhos e óculos, o tempo trouxe alegrias e também acentuou tristezas. "Foram 64 anos. Nós casamos em 1950. Muito tempo não é? Por isso que eu estou sentindo muito. Um dia, abri meu armário e encontrei a caixa de tintas. Me distraí. É com a pintura que estou conseguindo me reerguer". 

Material da terapia fica na sala, sempre à mão. (Foto: Marcelo Callazans)Material da terapia fica na sala, sempre à mão. (Foto: Marcelo Callazans)

Do final do ano passado para cá foram 70 quadros pintados. O que justifica as paredes da sala, do quarto e caixas lotadas. Retratos de um talento que sempre existiu, mas passou um tempo esquecido. "Eu gostava de criar, gostava muito de desenhar. Mais tarde, vendo umas figuras, comecei a pintar", explica.

Quando criança, os avós enxergaram na Neusa ainda menina, que a observação do cenário passada ao papel fazia sentido, expressava com exatidão os detalhes do que os olhos viam. Há seis anos, veio o primeiro "baque", o diagnóstico de Mal de Parkinson. Há cinco, ela decidiu que nem isso atrapalharia a técnica da pintura.

Seu Luiz adoeceu, teve um "problema" no pulmão. Vivia ligado a um respirador a que ela carinhosamente chamava de "jipe". Como a tinta lhe fazia mal, as telas ficaram brancas até que o preto do luto desse às caras em casa. "Depois da morte dele eu comecei a pintar outra vez. É, tem o Mal da Parkinson, mais essa. A esquerda treme mais, a direita, se faz dias que eu estou parada, ela começa a tremer um tempo e eu demoro para firmar", comenta.

O Palhaço é um dos quadros que estampam as paredes de dona Neusa. (Foto: Marcelo Callazans)O Palhaço é um dos quadros que estampam as paredes de dona Neusa. (Foto: Marcelo Callazans)
A obra preferida é de uma figura que estampa o quarto dela e da irmã Neli quando meninas. (Foto: Marcelo Callazans)A obra preferida é de uma figura que estampa o quarto dela e da irmã Neli quando meninas. (Foto: Marcelo Callazans)

Mas quando engata, a pintura corre como o tempo. Dona Neusa se senta à frente do quadro de manhã e só deixa a tela à noite ou quando a companheira que trabalha em casa, Irani, a chama para as refeições.

As pinturas estão relacionadas num livro e são contempladas por temas: pessoas, flores, animais, natureza, marinha, infantil, frutal e casarios. Por incrível que pareça, a senhorinha de 80 anos chega a pintar nus o que já causou espanto na neta de 4 anos. "Ela chamou o irmão, ficou horrorizada com o quadro". A justificativa é que Neusa não pode pintar só o que lhe dá vontade. "O povo gosta de tudo, não posso fazer só o que eu gosto", brinca.

A obra preferida é de uma figura que estampa o quarto dela e da irmã Neli quando meninas. O quadro havia se perdido nas mudanças da vida, mas a irmã encontrou uma referência. "A Neli tinha uma folhinha, eu fui e aumentei a figurinha".

As telas viram quadros a partir do olhar de Neusa à revistas ou arquivos trazidos. Ela aceita encomendas e hoje procura quem compre sua terapia e por que não seu talento? "Tem gente que tem dom. Agora essa é a minha ajuda para a falta do meu marido". As obras tem preços acessíveis, a partir de R$ 240 até R$ 600. Só a saudade de dona Neusa que não tem preço. Quem quiser adquirir, pode ligar direto para Neusa no telefone: 3341-6374.

Animais também ganham destaque, como os leões tomando água. (Foto: Marcelo Callazans)Animais também ganham destaque, como os leões tomando água. (Foto: Marcelo Callazans)
Temáticas vão de casarios, flores até indígenas. (Foto: Marcelo Callazans)Temáticas vão de casarios, flores até indígenas. (Foto: Marcelo Callazans)



Parabéns dona Neuza pelo belíssimo trabalho! Espero que se anime a expor suas obras para que toda nossa cidade possa conhecer seu talento!
Parabéns também a Paula Maciulevicius, que sempre escreve com tanta sensibilidade!
 
Welington Oliveira de Souza Costa em 25/09/2014 09:58:41
PARABÉNS DONA NEUSA QUE TRABALHO MAIS LINDO, FANTÁSTICO.
 
fabiano santos em 24/09/2014 07:56:11
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