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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

23/01/2016 07:23

Vou de cata-osso, onde todo mundo conta a vida ou vende chocolate "chumbrega"

Lenilde Ramos
Adoro andar de ônibus e a diversão já começa no ponto, onde a gente encontra tipos que, em cinco minutos contam a história de sua vida. Adoro andar de ônibus e a diversão já começa no ponto, onde a gente encontra tipos que, em cinco minutos contam a história de sua vida.

Era assim que meu sogro chamava os ônibus, quando ia assistir um Comerário no Morenão. Operariano roxo, não perdia uma partida. Mesmo com um sol de rachar mamona, levava chapéu, capa e guarda-chuva e saía dizendo: "Vou de cata-osso".

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Adoro andar de ônibus e a diversão já começa no ponto, onde a gente encontra tipos que, em cinco minutos contam a história de sua vida. Por isso, prefiro deixar pra outra hora a realidade massacrante dos ônibus lotados, de esperas intermináveis, do calor e da falta de cortesia dos mais jovens que não estão nem aí com a terceira idade.

Dia desses, voltando pra casa, peguei um cata-osso no Terminal Júlio de Castilho. O bicho vinha que vinha lotado e dei sorte de sentar. De repente, como sempre acontece, alguém vira vendedor de alguma coisa: balinha fajuta, chocolate chumbrega, CD pirata e canetas com discursos de gente que conta como saiu do vício e do crime.

Então, no dito ônibus, não estranhei quando um camarada, colado em mim, começou seu discurso. Olhei de banda e vi que ele estava de mãos vazias. "Uai... cadê a mercadoria?". Era alto, magro e de voz forte, sem fazer drama. A logística era diferente, fiquei interessada e o cara foi dizendo assim:

"Senhoras e senhores. Não tenho nada pra vender mas estou precisando de ajuda. Eu podia agora estar assaltando alguém, como fiz por muito tempo. Também sei que não é fácil conseguir trabalho devido minha situação de ex-presidiário que já puxou cadeia umas par de vezes. Tô de novo do lado de fora. Saí antes de ontem e não quero voltar. Chega de cadeia, por isso peço uns trocados pr´eu me virar, enquanto resolvo o que fazer da vida".

Rapaz... mesmo não dando bandeira, gelei e engoli seco. Eu e a turma toda daquele cata-osso, numa pausa dramática daquelas. Se fosse assalto ou coisa parecida, eu seria alvo fácil ali do lado da figura. O cara foi curto e grosso e na mesma hora o povo foi tirando os trocados do bolso. Gente, choveu dinheiro na mão do sujeito. Eu tinha ido receber um cachezinho numa escola e estava sem trocado: "Vou fingir de morta que, de repente ele passa batido". Ufa! Pois é... ele passou batido e desceu alguns pontos depois, feliz da vida. Eu desci mais adiante... feliz da vida também, desejando tudo de bom pra ele!

*Lenilde Ramos é sanfoneira, jornalista e conta suas histórias aqui no Lado B.




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