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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

06/05/2012 16:29

Decisão sobre troca de nome e sexo fecha ciclo e faz uma vida "renascer"

Paula Maciulevicius

Beneficiada por decisão judicial, ela poderá adotar nome feminino nos documentos oficiais

"Ela me propôs um renascer. Eu tive duas datas de nascimento. Uma quando saiu a decisão e a outra quando nasci". É com brilho nos olhos que a personagem desta história fala sobre a decisão inédita do Judiciário em Mato Grosso do Sul, que autorizou a troca de sexo, masculino para feminino, e também de nome, na documentação.

A conversa ocorreu após muita negociação e sob a condição de não haver registro de imagens. Os nomes, nem o antigo masculino nem o feminino, serão divulgados, obedecendo ao segredo de justiça do caso.

A trajetória para chegar até aqui explica tudo. O processo para ter o direito de ser "ela" nos documentos levou tempo. A mudança também. A vida da transsexual, compara, é como a metamorfose da borboleta, de passar pelo casulo, se transformar até poder bater asas e voar.

Desde pequena era menina no corpo de um menino, brincava com os sapatos de salto da mãe, mas tinha de segurar a vontade de fazer xixi na escola, porque não podia usar o banheiro das meninas e lhe parecia fora do normal usar o dos meninos. "Eu tinha que ser vinculada a situações onde o biológico era classificado", recorda.

A etapa do casulo começou na adolescência. Levou tempo para ela conseguir ser o que era até mesmo dentro de casa. Onde os pais, à época, não aceitavam, os professores não estavam preparados para atender um menino com características de menina e o tema transsexualidade passava longe das discussões.

Adolescente, começou a dar os primeiros passos para ter o poder de falar que queria ser de um jeito. "Foi quando eu pude me entender melhor e ser quem eu realmente era, mas ainda sem condições financeiras".

A transição incluiu crescer, ter emprego e começar a mudar a forma de se vestir. Palavras ditas por ela mesma, alta, magra e de olhos esverdeados. Dos dedos dos pés aos fios do cabelo curto, não há o que diga que ela tenha nascido ele. A classe para andar de salto alto sempre pertenceu a ela, assim como o carisma e toda a fineza na hora de se expressar.

O nome masculino foi o entrave para muitas realizações. A transsexual largou os estudos antes de terminar o Ensino Médio, o que atribui, em grande conta, ao constrangimento na hora da chamada. Pelo mesmo motivo, conta, não tirou Carteira de Habilitação, nem frequenta academias de ginástica.

Uma vida de contrasensos - Ser homem apenas no nome não permitia nem fazer alterações em sua própria conta bancária pelo telefone, porque a voz feminina não condizia com os documentos no banco. "Eles sempre falavam que alguma coisa não estava batendo e que era para eu procurar a agência pessoalmente".

No trabalho não foi diferente. Enquanto ainda aguardava a decisão, ela conta dos colegas que não querem chamá-la pelo "nome social". "Eles falam que o dia que trocar o documento, eles me chamam pelo outro nome. É um direito do ser humano ser chamado pelo nome social. Estamos num mundo onde a maior parte das pessoas que administram empresas são homens. Me senti perseguida sim e por homens", diz.

O relato não para por aí. Perceber a situação da qual era vítima dentro do ambiente profissional foi como sentir o peso do preconceito do mundo nas costas. "Eu senti isso na pele. Fiquei extremamente deprimida. As pessoas têm que ver o outro pelo caráter, pela integridade. Isso, antes da sexualidade. Querer julgá-la devido a uma parte biológica?", questiona.

A transformação veio de forma paulatina. A escolha do nome, ela explica que não passa de uma coincidência com o de registro de nascimento. "Há 15 anos eu comecei a ser chamada por este nome e foi ficando no subconsciente e acabou sendo..."

Durante o processo ela não esconde: "Cheguei a pensar em me automutilar, não vou mentir para você isso. Não tinha referências, sempre tive que ler, buscar nos livros, me compreender melhor e saber o caminho que eu ia entrar", desabafa.

Os movimentos para deixar o "casulo" começaram há três anos, após a cirurgia de orquiectomia bilateral, que bloqueou totalmente a produção de hormônios masculinos no corpo dela. O procedimento que só foi possível depois de laudo psiquiátrico indicando a cirurgia. Ela teve de ser acompanhada por especialistas e viajar ao Rio de Janeiro para o tratamento.

Desde a operação até a administração de hormônios é feita por lá. "Em Campo Grande não existem profissionais endocrinologistas habilitados a administrar hormônios em transsexuais", expõe.

Com a documentação da cirurgia em mãos, ela conta que teve a plena convicção para entrar com o pedido de alteração de nome e sexo na Justiça. "Já estava mais do que na hora e os documentos tornavam a situação palpável para que eu ganhasse", justifica.

O primeiro pedido foi indeferido. E a felicidade bateu à porta na semana que encerrou. No recurso, o desembargador Sérgio Martins concedeu o direito de ser ela mesma, no papel.

"Quando eu li na íntegra a decisão, não tenho como descrever a felicidade de ter conseguido. O ser humano que nasceu do sexo masculino e eu agora são as mesmas pessoas. Apenas em um corpo que não condizia com a parte psicológica".

Aos 36 anos ela fecha um ciclo. "São fases. Você nasce, cresce e morre. Este é um ciclo aberto desde o meu nascimento que se fechou. Estou indo para uma nova vida. Uma nova fase onde não vou mais ter de dar explicações. Assim como você vai fechar a sua matéria, eu vou fechar este ciclo. Não posso mais ficar vivendo o passado. Hoje sou autorizada a trocar de nome, de sexo e pronto. É o que importa", sorri.

Tudo é dito com a delicadeza e a sensibilidade de um ser humano que luta para ser, de fato, o que sente. "Eu apenas queria ser quem eu sou. Não me considero transsexual, homem e sim um ser humano feliz".

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Interessante é uma pessoa julgar a outra pela sua opção sexual e ainda basear em leituras bíblicas, q pela interpretação q fez desconhece.Importante expressar sua opinião, mas q ñ seja de forma preconceituosa.Estamos no seculo XXI onde diversidade é algo comum, entendo q ter uma religião é de suma importância para o Ser Humano, o que ñ da direito a julgamento. Que Deus tenho piedade dos que julgam
 
Ary Ferreira Motti em 07/05/2012 12:44:41
E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.Gênesis 1:27
Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor.1 Coríntios 11:11
Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus.1 Coríntios 11:12
 
CLEVERSON NOGUEIRA em 07/05/2012 10:47:06
Deus é misericordioso é nos deu o livre árbitro. Cada vai responder no julgamento final.
Agora sinceramente quando essa pessoa arrumar um namorado, casar e não poder engravidar... ops!
Ou então ela adota uma criança. Mostra uma foto quando, ela era criança, mais era um menino??
Logo, quem for solteiro vai ter que solicitar teste de DNA pra namorar.
Quem é dono da verdade nesse mundo?
 
CLEVERSON NOGUEIRA em 07/05/2012 10:44:24
No ponto de vista isso é absurdo.Deus fez as pessoas da maneira correta, perfeitas, e agora essas pessoas querem mudar de sexo.É por que não sabe verdadeiramente como é ser uma mulher, ter TPM, ciclo menstrual, ter que gerar um filho.Essas pessoas podiam ter isso também, dai irião ver como é "bom" ser mulher.
 
Pamella Couto em 07/05/2012 09:41:13
APLAUSOS!!! Deve ter sido uma difícil caminhada contra o preconceito. Prevaleceu o direito de ver sua necessidade de VIVER BEM satisfeita. Desejo sua felicidade em plenitude. Torço para que você continue sendo abençoada.

Tenho a esperança de que possamos ter uma sociedade brasileira fraterna e compreensiva. Em que as opiniões de uns não sejam pretexto para opressão de outros. PAZ A TODOS E TODAS!
 
Marcelo Souza em 07/05/2012 09:08:43
Gracyella, direito é uma via de mão dupla que deve ser sempre respeitada para evitar confusões. Assim com você eu não concordo com muita coisa, mas usar a religião para criticar um semelhante, isso não pode vir de Deus, a religião serve para aproximar e não afastar as pessoas.
 
Antonio Edson em 07/05/2012 08:39:04
O direito todos tem de fazer o que quizer da vida, mas ele (ela) terá que aguardar o juizo final.
 
Jorge Luiz em 07/05/2012 02:45:41
Seja muito muito FELIZ!!!
 
GRACYELLA GALHARDO em 06/05/2012 10:57:51
"Querer julgá-la devido a uma parte biológica?" Tá doidO? não se trata de julgar ninguém, mas de tratá-lo como a natureza o fez. Não estamos na época do respeito aos ditames da natureza? Então porque essas aberrações na nossa sociedade? O pior é ter de aguentar as decisões irresponsáveis dos juízes. Pecado mortal contra o Espírito Santo! E tenho o direito de usar a religião para criticar, sim!
 
Gustavo Ribeiro em 06/05/2012 09:06:07
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