A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

18/04/2012 09:35

Uma cidade clandestina, com 2 nomes, complica a geografia na fronteira com MS

Elverson Cardozo
Entrada do vilarejo mostra única igreja da região. Missa acontece uma vez ao ano. (Foto: Marlon Ganassin)Entrada do vilarejo mostra única igreja da região. Missa acontece uma vez ao ano. (Foto: Marlon Ganassin)

A dificuldade em descobrir qual cidade faz fronteira com Aral Moreira, município a 402 quilômetros de Campo Grande, fez o Lado B cruzar a fronteira. A região agora é famosa por ser a terra do vencedor do BBB 12, Rafael Cordeiro.

Veja Mais
Caligrafia da escola rendeu à Marystella a profissão de designer de lousas a giz
Luis ganhou o título de presidente e hoje é dono da própria cadeira no bar

No mapa não existe indicação sobre a vizinha de Aral Moreira. A informação não aparece nem na internet. A opção foi perguntar aos aralmoreirenses. Alguns afirmam que a comunidade é clandestina e, por isso, não consta nos registros geográficos.

Tem quem chame o local de colônia. Fora a confusão com a nomenclatura, o nome muda de morador para morador. "Cerro 21" é o mais comum, mas “Nova Virgínia” também figura entre as definições.

Nosso destino fica na chamada “fronteira seca”. É só atravessar a rua para estar em território paraguaio. Um dos acessos ao local é pelo trevo Maria Clarinda Pereira – ponto onde a cidade brasileira termina.

Para chegar é preciso percorrer um caminho de aproximadamente 2 quilômetros. À primeira vista, o trajeto não parece ser tão receptivo. Fora o mato alto, a poeira vermelha que sobe da estrada de chão é quase um atrativo. A placa na entrada anuncia o “Puesto Militar Cerro 21”.

Brasiguaios na colônia de 2 nomes. (Foto: Marlon Ganassin)Brasiguaios na colônia de 2 nomes. (Foto: Marlon Ganassin)

Departamento de polícia tem. Mercado, praça e mais de uma rua, não. A “cidade” começa e termina na linha internacional. Rota de caminhões e caminho para a cidade de Capitan Bado, no Paraguai. “São 6 famílias”, explica Gládis Romeiro, de 29 anos, nascida em Aral Moreira, mas criada no Cerro 21.

Gládis tem as duas nacionalidades e fala tanto o Português como o Guarani. Há 4 anos trabalha no serviço de limpeza da Iagro (Agência de Defesa Sanitária, Animal e Vegetal) em Aral Moreira.

Brasiguaias, as duas filhas dela foram são criadas no vilarejo. Se quiser divertir, conta a mãe, precisam ir para Aral Moreira. A mais nova, Lary Gabrielli, de 12 anos, não gosta do Cerro 21 “porque não tem lugar para brincadeiras”.

História- A mãe de Gládis, Bernardina Romeiro, de 60 anos, foi uma das primeiras moradoras. No início, relembra, era “só umas duas ou três casas”. Paraguaia legítima, a mulher recorrer à filha para dar entrevista.

No papel de tradutora, ela explica que tem algumas palavras do português que a mãe não sabe falar. “Tem coisas do Guarani que eu também nãos sei traduzir”, disse.

“Minha terra é aqui no Paraguai”, diz dona Bernardina, mãe de Gládis.(Foto: Marlon Ganassin)“Minha terra é aqui no Paraguai”, diz dona Bernardina, mãe de Gládis.(Foto: Marlon Ganassin)
Gládis tem as duas nacionalidades. Fala o Guarani e o Português. (Foto: Marlon Ganassin)Gládis tem as duas nacionalidades. Fala o Guarani e o Português. (Foto: Marlon Ganassin)

No Cerro 21, Dona Bernardina mora desde 1980. Gosta da região em que vive, apesar das dificuldades. “Minha terra é aqui no Paraguai”, disse. Na cidade não existe água encanada. Um poço artesiano é o que abastece toda a localidade.

A história – com ares de lenda – diz que um fazendeiro brasileiro é dono das terras permeia o vilarejo. “Dizem que ele já doou, mas ninguém corre atrás”, afirmou a filha.

Acadêmica de letras e moradora de Aral Moreira, Karolaíne Ferraz, de 19 anos, relata que a localidade existe há pelo menos 50 anos. Conta que a região “nasceu” de algumas famílias paraguaias que se instalaram por lá.

“Na época tinha muitas fazendas que cultivavam café e havia bastantes madeireiras. Então, a oferta de emprego era grande", disse.

O marceneiro Realino Gonçalves tem 36 anos e está no Paraguai há 6. Saiu de Dourados para trabalhar com o pai em uma das únicas marcenarias que sobrou no vilarejo.

Apesar do tempo, diz que tem dificuldades em compreender o Guarani. O relacionamento com os vizinhos paraguaios às vezes fica prejudicado. “Dá um trabalho entender eles”, declarou. O pai, Bonifácio Portilho, de 64 anos, domina os dois idiomas.

Karolaíne afirma ainda que na fronteira existem quatro cerros: "O 21, o Cerro Corá, Ibyjáu e Nova Jaú”. “O cerro 21 é o mais perto daqui. É o que fica na Colônia Nova Virgínia”, disse.

Religiosidade - Única igreja católica da “cidade”, a “Capilla Santa Rosa de Lima” só abre as portas uma vez ao ano. A última missa foi em agosto de 2011. Quem celebrou foi um padre da cidade paraguaia de Capitan Bado. Dá para contar os fiéis nos dedos da mão. “Uns 10, no máximo”, relatou Gládis.

Cidade começa e termina na linha internacional. (Foto: Marlon Ganassin)"Cidade" começa e termina na linha internacional. (Foto: Marlon Ganassin)

A estudante Karolaíne Ferraz conta que a igreja é como um santuário. Pelo menos foi o que aprendeu com as histórias repassadas pela mãe e pela avó, que moram em uma chácara “colada” à fronteira.

“Os antigos contam que eles tinham uma visão. A imagem de um santo aparecia lá naquele lugar, por isso que construíram aquela igrejinha”, relatou, acrescentando que esse é um dos motivos para a não celebração de missas aos domingos.

Cerro 21 ou Nova Virgínia não tem cara de bairro, de cidade e muito menos de vilarejo. Não é bucólica, nem despovoada. É viva na história e nos relatos de moradores.

É a "casa" de aproximadamente 30 pessoas que, por escolha ou falta de opção, vivem com poucos recursos e tentam se adaptar todos os dias às diferenças culturais entre Brasil e Paraguai.

Cerro 21 fica na baixada de um morro. (Foto: Marlon Ganassin)Cerro 21 fica na "baixada" de um morro. (Foto: Marlon Ganassin)



Adorei a matéria. Também nasci e fui criada na Pontinha do Cocho e gostaria muito de ler uma reportagem sua Elverson Cardozo sobre o local.
 
Aparecida Pereira em 19/04/2012 09:14:45
mais q linda materia que foi feita esta

parabens
 
neilton martins em 19/04/2012 09:01:40
Gostei muito. É isso que chamo de cumprir o papel da boa comunicação. Gostaria de ver uma matéria sobre o distrito de Graça de Deus, ali na região de Ponta Porã. Parabéns!
 
Hilda França em 18/04/2012 12:31:03
Parabéns pela matéria e pela curiosidade jornalística em buscar este local distante e esquecido e trazê-lo ao nosso conhecimento. Isso confirma que o jornalismo vai muito além da política e da polícia.

Abraço
 
João Carlos Marchezan em 18/04/2012 12:19:16
Notícia interessantíssima. Fiquei encantada e até gostaria de um dia, ter o privilégio de conhecer o Cerro 21. Parabéns Campo Grande News!
 
Mara Lacerda em 18/04/2012 11:01:48
Bom jornalismo, raro de ser ver hoje em dia, parabéns ao jornalista Elverson Cardozo pela matéria.
 
Cleverson Ribeiro em 18/04/2012 10:17:45
Interessante a matéria.
Me lembro da região onde nasci e fui criado: Pontinha do Cocho, município de Camapuã. Passaram quase 50 anos e monotonia continua no local, que é amável e aconchegante.
Também tem cultura "velha", crendices, lendas e folclore. É impressionante.
Merece uma reportagem semelhante, para que o Estado passe a conhecê-la melhor.

 
Etevaldo Vieira em 18/04/2012 08:59:34
parabéns, encantado com o lugar.
 
Sadi Depauli em 18/04/2012 08:49:51
excelente materia. Elverson Cardozo tem muito a ensinar aos demais.
 
DALVA PEREIRA em 18/04/2012 07:10:26
Vou junto dos comentários anteriores que elogiaram a matéria. E, seguindo o exemplo de um que pediu matéria, peço sobre SANGA PUITÃ, pois lá passei um trecho importante de minha infância. Parabéns novamente.
 
rose mara em 18/04/2012 04:04:09
Parabéns pela reportagem. Moro na região de fronteira com o Paraguai, poucas vezes se vê no meio de comunicação algo que não marginaliza esta região e em especial o País vizinho, isso pela associação do trafico de drogas com essa bela região dos dois paises Paraguai e Brasil. Importante mostrar a história, a gente, e seu modo de vida para refletir sobre algumas chagas sociais.
 
Valdecir Escalhar em 18/04/2012 02:57:13
Muito boa matéria e ÓTIMAS fotos! parabéns!
 
Nayara Martins em 18/04/2012 02:35:14
PARABENS PELA MATERIA GOTARIA DE CONHECER ESSA CIDADEZINHA
LUGARES ASSIM É BOM DE MAIS ALI REINA A PAZ PARABENS CAMPO GRANDE NEWS
 
DIEGO SUCKER ROMEIRO em 18/04/2012 01:07:46
Muito interessante a matéria, descrita de uma forma interessante destacando as falas da população local. Realmente parabéns a equipe que a produziu.
 
Nivaldo Correa Tenorio em 18/04/2012 01:05:56
Adorei :D ficou muito legal mesmo! haha :D
 
Karolaine Ferraz em 18/04/2012 01:03:45
imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.