A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

17/11/2015 06:56

Niemeyer projetou a Universidade de Cuiabá que nunca saiu do papel

Ângelo Arruda
Ângelo com Oscar Nimeyer em 2006.Ângelo com Oscar Nimeyer em 2006.

No ano de 1968, o Estado de Mato Grosso era governado pelo engenheiro Pedro Pedrossian. Eram tempos difíceis; faltava infraestrutura urbana e regional em toda a região Centro-Oeste, além de mão de obra e recursos materiais e financeiros. A capital Cuiabá pulsava, seja pelo seu domínio político no Mato Grosso e seja pelo caráter visionário de Pedrossian.

Veja Mais
Um ano de conversa sobre Campo Grande e muitas experiências novas
O 1º Plano Urbanístico de Campo Grande veio há 80 anos, com Eduardo Olímpio

Nos sonhos do governador, a educação era um campo prioritário e para deixar suas marcar na história ele queria implantar uma universidade em Mato Grosso mas não contava com o apoio do governo federal, em plena ditadura militar. Senso assim, tomou a decisão de fazer a obra com recursos do Estado e, para começar, mandou contratar o mais importante arquiteto brasileiro daqueles tempos, para elaborar o projeto da Universidade de Cuiabá. Esse era o nome original da obra.

O governo solicitou ao arquiteto Oscar Niemeyer que fizesse o projeto e deu-lhe a responsabilidade de criar uma universidade “do zero” e delegou ao arquiteto Armênio Arakelian, nascido em Campo Grande, o papel de fazer a interlocução com o governo e a sociedade.

Relembrando a história, Pedrossian foi eleito pelo PTB derrotando Lúdio Coelho do PSD em 1966 e passou a governar um estado atrasado, como ele me disse em entrevista no ano de 2002: “Tive que trazer gente de São Paulo, profissionais, pois não tínhamos mão de obra capacitada para muitas funções que eu iria precisar criar e assim nasceu a ideia de criarmos uma universidade.

A Universidade de Cuiabá precisava de um projeto de arquitetura. O Secretário de Educação de Mato Grosso, militante do Partido PCB, agendou um encontro com o arquiteto no Rio de Janeiro, fez o convite e tudo certo. Começava a nascer o embrião de um projeto nunca executado, de arquitetura modernista pelas mãos de Niemeyer em Cuiabá. Detalhe: Campo Grande e Corumbá já tinham duas escolas projetadas pelo grande arquiteto anos antes, em 1954 – o Maria Constança de Barros e o Maria Leite de Barros, prédios iguais.

Niemeyer fez um estudo preliminar – etapa que antecede o projeto em si – mas já escreveu no Memorial do Projeto a sua definição:

"Nossa ideia de universidade é bem diferente das universidades em construção neste país, mas as razões que apresentamos são evidentes e a nosso ver irrefutáveis. Recusamos a "universidade tradicional", com um edifício para cada faculdade, universidade que exige áreas imensas, universidade de construção onerosa e organicamente desatualizada. A universidade que propomos se baseia na centralização, na flexibilidade, na economia, na pedagogia de adulto, inclusive.

Originais com a letra do Niemeyer explicando o projeto.Originais com a letra do Niemeyer explicando o projeto.
Niemeyer projetou a Universidade de Cuiabá que nunca saiu do papel

O terreno escolhido é onde a UFMT está implantada em Cuiabá, uma área do governo do Estado, localizada às margens da BR 364 mas hoje cercada de vias pelas suas faces. A área em formato trapezoidal linear, fez Niemeyer propor edifícios que seriam implantados obedecendo o aspecto longitudinal e unidos por uma passarela coberta.

Oscar descreveu: “ centralizamos as salas de aula, anfiteatros e laboratórios em dois edifícios. O primeiro compreende todos os tipos de sala - aulas teóricas - o outro, os laboratórios de ciência e pesquisa. Desses dois edifícios se utilizam todas as faculdades, cujos órgãos diretores (administração, direção, corpo docente, etc.) são localizados em edifício próprio. Essa solução permite enorme flexibilidade e redução no número de salas, garantindo ao ensino - ciência, principalmente - a unidade e o nível técnico indispensáveis e aos alunos o intercambio de conhecimento conveniente. Em vez de construir muitos prédios - um para cada faculdade, nos limitamos a construir esses dois edifícios.”

No programa do complexo, a administração, biblioteca, anfiteatro, alojamentos para alunos e professores, piscina, quadras esportivas, ginásio coberto, concha acústica, restaurantes e claro, os edifícios escolares complexos.

Planta esquemática com as ideias do arquitetoPlanta esquemática com as ideias do arquiteto

Para analisarmos o projeto, vamos nos fixar nas ideias do Niemeyer para os edifícios educacionais, para práticas de aulas e atividades de pesquisa e extensão.

Eram blocos com 300 metros de comprimento, sob pilotis, com um pavimento com 40 metros de largura e vão entre pilares com seções de 35 e 60 metros e um balanço de 25 metros nas laterais. Uma placa de concreto com furos redondos e vidro, em formato de janelas e uma insolação protegida pelo teto com aberturas controladas.

Eram prismas de seção retangular com muita beleza estética vista em outros projetos do arquiteto, especialmente a Universidade de Argel. Além desses prédios, o arquiteto usou formas circulares para o restaurante, uma asa de pássaro para o auditório, um prisma em formato de pirâmide para a biblioteca e para os alojamentos, formas semicirculares e quadradas.

Maquete da Universidade de Cuiabá.Maquete da Universidade de Cuiabá.

Este projeto nunca foi executado. Os valores da obra não seriam suportados pelo Tesouro do Estado de Mato Grosso e com isso, Pedrossian, tomou uma decisão que mudou a vida de um outro arquiteto: Armênio Arakelian, que tinha sido indicado pelo governo para acompanhar as atividades do Niemeyer é convidado para projetar, com o arquiteto paulista Oscar Arine, a nova universidade de Mato Grosso. A trajetória desse arquiteto vamos conversar sobre ela daqui há alguns dias.

Por hoje fica essa informação histórica de que, Cuiabá, mesmo sendo a capital de Mato Grosso, por pouco não teve uma grande obra de um grande arquiteto: Oscar Niemeyer (1907-2012). Eu tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, em 2006. Fui ao seu escritório (foto abaixo), lhe dediquei meu livro Arquitetura em Campo Grande que fez publicar, pela primeira vez no Brasil, o colégio que ele projetou. Contaremos também essa história em outra oportunidade.

*Ângelo Marcos Arruda é arquiteto e urbanista, professor da UFMS




Professor Angelo, o tombamento do maria constança foi feito de forma correta? Porque hoje ainda há o debate sobre o tombamento ou não do local?
 
davi da costa em 23/11/2015 22:27:15
imagem transparente

Compartilhe

Classificados


Copyright © 2016 - Campo Grande News - Todos os direitos reservados.