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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

22/07/2016 06:15

Você levaria o seu ex-chefe como companheiro de viagem em um mochilão?

Paula Maciulevicius
Mariângela e Thierre: em um mês, as duas planejaram, adaptando o roteiro e com menos de R$ 2 mil cada, seguiram viagem. (Fotos: Arquivo Pessoal)Mariângela e Thierre: em um mês, as duas planejaram, adaptando o roteiro e com menos de R$ 2 mil cada, seguiram viagem. (Fotos: Arquivo Pessoal)

Jornalistas, Mariângela, de 53 anos e Thierre, de 28, trabalharam juntas alguns anos atrás. Mariângela como chefe, que depois virou amiga e encontrou na colega uma companhia para realizar um sonho de três décadas. Por duas vezes, ela tentou fazer um mochilão pela Bolívia e Peru. Era para dar certo agora, como deu nos 15 dias em que a dupla viajou pela cultura e vivência do povo em diferentes altitudes. Em um mês, as duas planejaram, adaptando o roteiro que já havia sido feito pela filha de Mariângela. 

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"Ela foi a minha primeira chefe, ficou minha amiga e em junho agora, a gente se encontrou e ela disse: 'tô querendo fazer aquela trip', lembra?" conta Thierre Mônaco. Por sorte, a jornalista tinha férias para tirar e coincidiu de ser na mesma época dos planos da ex-chefe. A resposta foi imediata, Thierre disse: "vamos".

A viagem foi, como Thierre, classifica: "bem modesta". Cada uma não gastou nem R$ 2 mil incluindo passagem, hospedagem e alimentação. O propósito da dupla sempre foi o de vivenciar os lugares. O roteiro partiu de Puerto Quijarro, primeira cidade da Bolívia que faz fronteira com Corumbá, de lá para Santa Cruz de La Sierra, La Paz, Copacabana (onde fica o Lago Titicaca), Puno, Cusco e por fim, Machu Picchu.

No Vale de la Luna, na Bolívia, local que presenteia turistas com uma série de formações rochosas peculiares. (Fotos: Arquivo Pessoal)No "Vale de la Luna", na Bolívia, local que presenteia turistas com uma série de formações rochosas peculiares. (Fotos: Arquivo Pessoal)
Caminhando pelo Vale de la Luna. Caminhando pelo Vale de la Luna.

Amigos pelo caminho - "A gente foi vendo como ia fazer, em Santa Cruz, eu tinha uma amiga, a Nathalia, falei com ela, que foi nos buscar. Em Cusco também tínhamos outro ponto de apoio, o Daniel, um arquiteto amigo de um amigo da Mariângela e uma das pessoas que mais nos ajudou", narra Thierre.

As duas se consideram "sortudas", pelos presentes que receberam no caminho. O encontro com os amigos que estenderam a mão, sem esperar nada em troca. "Hoje em dia as pessoas viajam para conhecer e postar no Instagram, o que a gente valoriza é a cultura, a amizade compartilhada. A solidariedade que essas pesoas tiveram conosco", frisa Thierre. "Foram elas que ajudaram a viagem acontecer", completa Thierre. 

O arquiteto é peruano e explicou às duas que gostaria de retribuir a receptividade sentida no Brasil. "Ele me disse que só queria que a gente passasse isso adiante, como uma corrente do bem. Lá eu vivi o que minha mãe sempre falou: não importa para quem você faz o bem, você lança isso para o universo e vai receber de alguém". No caso, a jornalista sentiu receber dele.

Em Cusco. Em Cusco.
Com o amigo do amigo: Daniel foi o guia em Cusco. Com o amigo do amigo: Daniel foi o guia em Cusco.

Roteiro - Antes de começar a relatar o "diário de bordo", Mariângela frisa o que quer dizer ao mundo: que é possível viajar com pouquíssimo dinheiro, basta só ter disposição. "Esperar em rodoviária, dormir em ônibus, ficar sem tomar banho. E isso com 53 anos", brinca a jornalista Mariângela Yule. 

A viagem toda foi superação, por caminhar numa altitude desconhecida para o organismo. "Em La Paz, não senti nada, mas Chacaltaya, foi um desafio subir 5,3 mil metros. Uma superação, primeiro ela altitude e pelo frio", descreve a jornalista. Chacaltaya é um pico da Cordilheira dos Andes, a 30 quilômetros da cidade de La Paz.

Mas ao mesmo tempo em que é difícil, traz uma paz imensurável a quem chega lá. "Você deita, porque tem que deitar, sentar e vai parando. Várias vezes eu fotografava e ficava olhando", completa. 

Chacaltaya foi um dos destinos, próximo à La Paz, depois de 22h de ônibus de Santa Cruz até a cidade. "Era uma cidade diferente, mas do hostel já via as montanhas com neve no topo, algo bem bonito", conta Mariângela. 

Ela e Thierre estavam "abertas" para a imersão na cultura local o que significa que as duas comeram nas ruas com o que os nativos se alimentavam e se viraram no portuñol. Em seguida, foram para Copacabana, uma espécie de vila de pescadores bem baladada, mas como o objetivo principal era Machu Picchu, não fizeram extravagâncias pelo local e de lá, seguiram até Puno, já no Peru.

"Foi o lugar mais frio da minha vida, -10 graus. Ali foi superação mesmo, eu não sentia as pernas e nem as mãos de tanto frio", descreve Mariângela. Lá que as duas fizeram um dos passeios mais marcantes: pelas ilhas flutuantes dos Uros, onde se vivencia a resistência de um povo ao frio, falta de iluminação e às vezes até de água. "Nessa ilha, você chega e as pessoas são tão calorosas, alegres, te convidam para entrar na casa delas. Foi algo surpreendente, apesar do frio", diz a jornalista. 

Talvez para que as duas vivenciassem a experiência ao máximo, que a câmera fotográfica de Thierre falhou e elas tiveram de apelar para o registro na memória e alguns, no celular. De Puno seguiram para Cusco, uma cidade encantadora, para então pegar uma van até a hidrelétrica e sair aos pés do trilho do trem que chega até Machu Picchu. 

Primeira foto da dupla, ainda em Puerto Quijarro. Primeira foto da dupla, ainda em Puerto Quijarro.

"Foram cinco, seis horas de curva, desfiladeiro de um lado e montanha de outro. Ali que a adrenalina apertava, minha mão transpirava", detalha Mariângela. Ao descerem da van, era um trecho de 9 quilômetros até Aguas Calientes, a cidade aos pés de Machu Picchu.

"Ali vai muita gente, você encontra com gente do mundo inteiro. Nem se eu viajasse o mundo ia encontrar gente de tanto lugar", explica Thierre. De Aguas Calientes para Machu Picchu, a dupla trocou as grandes mochilas por menores e assim levaram só uma blusa, água e comida.

"No caminho, eu estava muito cansada e diziam: 'Thierre, a hora que você chegar lá, você vai ver que essa dor inteira vai sumir, que vai valer à pena. E quando você vê aquela fortaleza dos Incas com o sol nascendo, acho que foi um dos momentos mais bonitos da minha vida", descreve Thierre. 

Por isso que todo mundo quer ir para Machu Picchu. "É maravilhoso, você vê uma paisagem que a vida inteira viu em cinema e na fotografia e você estar ali, é emocionante, é indescritível", diz Mariângela. 

No trilho da hidrelétrica, para chegar a Aguas Calientes.No trilho da hidrelétrica, para chegar a Aguas Calientes.
No caminho de Aguas Calientes a Machu Picchu. No caminho de Aguas Calientes a Machu Picchu.

Na mochila - Na ida, as meninas tinham em mente que aquela não seria uma viagem de compras. Levaram o mínimo para trazer de volta o máximo possível. De bagagem tinham, duas camisetas e a roupa de frio. O mesmo casaco, a mesma lã e os mesmos calçados.

Demorou 30 anos para que Mariângela realizasse o sonho. E o sentimento agora? "Foi maravilhoso, assim, além de conhecer, você viver a energia de uma viagem como essa, o desapego do luxo, de não levar nada e você vê que é possível e com tão pouco, se recebe tanto, se conhece muito".

Nas lembranças, ficará a imagem das bolivianas heroínas, que em meio à neve, pastoreavam. "De repente você olha e podia ser a minha bisavó, somos tudo uma só fronteira".

"Fazer essa viagem foi renovar e ver que existem pessoas lindas que ajudam umas às outras sem interesse. Esses 15 dias serviram para eu poder reafirmar os meus valores e acreditar que existe gente boa no mundo. É uma injeção de energia e de ânimo num mundo que está tão difícil", resume Thierre.

Se fosse definir a viagem em poucas frases, Thierre brinca que seria assim: "eu quase morri várias vezes. Morri de morrer e quase morri de amor".

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Chacaltaya, depois de subir mais de 3,5 mil metros. Chacaltaya, depois de subir mais de 3,5 mil metros.
Na chegada ao Peru.Na chegada ao Peru.
Enfim em Macchu Picchu, a cidade perdida dos Incas.Enfim em Macchu Picchu, a cidade perdida dos Incas.



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