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Campo Grande, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

18/01/2016 06:56

A lição que os apontamentos de minha mãe deixaram e a foto símbolo de realização

Liziane Berrocal
Lizi e mãe, em uma das últimas fotos registradas. (Foto: Arquivo Pessoal)Lizi e mãe, em uma das últimas fotos registradas. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando as datas representam algo na vida da gente, ficamos reflexivos e até mesmo melancólicos com determinadas coisas. Escrever o #VaiGordinha há um ano aqui no Lado B trouxe isso para mim. Conversando com nossa editora Ângela Kempfer, falei para ela que tinha uma frustração: minha mãe não me ver emagrecendo.

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Quando minha mãe descobriu a doença dele em novembro de 2013 eu estava em um ano super difícil profissionalmente, trabalhava na Câmara Municipal e pesava 140 quilos. Naquele ano, eu estava fazendo exames para a cirurgia bariátrica acontecer. Eu entrei na Câmara com 125 quilos, e um ano ferrado, lascado e outros mais, me fizeram saltar para mais de 150 no momento exato que descobrimos que o que minha mãe tinha era um câncer.

Minha família sempre foi de “Gordinhos” e ainda assim, eu era a GORDA da família e sim, sofria um bullying lascado, inclusive da minha mãe. Quando ela estava carinhosa comigo – nosso relacionamento era de amor e ódio intensos, muito mais de amor, mas de muito enfrentamento, ela me chamava de “meu godinho” e quando estava muito brava, lascava um ‘você está muito gorda, dona redonda, vai explodir’, sem pudor nenhum.

Ela era uma mulher linda, de formas definidas e mesmo parindo quatro filhos – sendo três de parto normal, tinha uma cintura fina e os quadris “bem brasileiros” com um bumbum avantajado. Minha mãe era vaidosa, era dona de roupas e sapatos lindos e quando foi vítima de uma traição do meu pai – uma das muitas, ela ficou tão mal com si mesma que fez uma plástica, ficando aos 50 anos com uma barriga de dar inveja.

Como presente de um amigo, a montagem coloca Lizi e a mãe, ela mais magra. (Foto: Arquivo Pessoal)Como presente de um amigo, a montagem coloca Lizi e a mãe, ela mais magra. (Foto: Arquivo Pessoal)

Nem preciso dizer então, que ela era meu espelho. Uma mulher que cuidava dos cabelos como ninguém e que eu vivia tentando agradar a todo custo. Eu já entendi depois de anos de terapia que relações entre mãe filha podem ser tóxicas, e acredito que apesar de todo o amor que minha mãe tinha por mim meu relacionamento com ela era nesse nível.

Lembro que eu tinha um cabelo imenso, encaracolado e que ela sempre implicava. Mas o que incomodava mesmo era a “gordura”. E ela sempre me dizia para emagrecer. Sempre! Quando a doença da minha mãe chegou ao auge, eu lembro dela no quarto do quarto andar do Hospital Regional vendo eu me pesar em uma balança que havia lá. A balança acusou 162 quilos. Foi na ocasião da primeira cirurgia dela. Eu engordava na velocidade da luz. No dia 15 de novembro de 2013 eu quase perdi minha mãe pela primeira vez. Ela teve uma infecção hospitalar que me deixou em estado de desespero. Minha mãe emagreceu, muito, eu engordei, mais ainda...

Então, aquele ano foi de lutas, muitas lutas e eu vi a barriga perfeita da minha mãe ser invadida por duas bolsas de colostomia e os cabelos dela irem embora com o tratamento para o câncer. Eram os cabelos vermelhos mais bonitos que eu já vi. E aquilo foi muito significativo para mim, porque eu sentia vergonha de cuidar dos meus cabelos longos, loiros e já alisados por mil processos químicos (ela pegava muito no meu pé, por ter um “cabelo ruim”, apesar que o dela já tinha sido). Aquilo doía muito na minha alma, mas me ensinou muito também.

Minha mãe era contra eu fazer minha cirurgia do estomago, ela não falava para mim, mas ela tinha medo que eu morresse. Queria que eu emagrecesse por mim mesma, já tinha me levado para tomar remédios, fórmulas, tudo que se imaginasse. Talvez o sonho da minha mãe era que eu fosse alguém que não sofresse tanto por ser gorda, porque ela sabia que eu passava por muitas situações ruins e constrangedoras, em especial quando separei do ex-marido e ele desfez de mim para ela, por causa da minha gordura. Então, no fundo acredito que para ela, era um sofrimento me ver sofrer por isso.

E aquele ano de 2014 foi o ano em que eu e ela, ficamos internadas juntas. Ela como paciente e eu como acompanhante. Eu não comia direito, mas engordava, engordava, engordava... E então chegou o grande dia que minha mãe iria realizar o sonho de tirar as bolsas de colostomia. Seu cabelo já estava crescendo, e a Cris, nossa cabeleireira já tinha inclusive separado meu cabelo para fazer um mega hair no cabelo da minha mãe, já pintava o cabelo, só faltava a “barriga” dela de volta.

Minha mãe foi para o hospital, eu lembro até hoje do grande X que ficou na sua barriga, mas ela não mais ligava, porque ela tinha vencido o câncer. E então, no dia 22 de outubro, pela manhã quando acordei com ela no hospital falei que eu não tinha filhos para cuidar dela, que era meu bebê. Naquele dia, 7h30 da manhã, minha mãe me respondeu assim:

- Não, você precisa ter seus filhos, vai emagrecer, cuidar da sua saúde, faz sua cirurgia e vai ter a sua família. Você precisa cuidar de você.

Ela nunca tinha me dito para fazer a cirurgia. E aquela foi a última vez que eu falei com a minha mãe. No mesmo dia, às 13h ela morreu após uma hemodiálise. Foi a pior dor que eu senti na minha vida inteira, a ponto que escrevo esse texto aos prantos, lembrando de tudo que aconteceu.

15 dias depois, eu estava com aquelas palavras martelando minha cabeça, no consultório do doutor Cesar Conte. Ele perguntou por que eu havia demorado tanto e contei. Conversamos muito, saí de lá com a cirurgia marcada e o resto quem me acompanha aqui já sabe. Então eu penso todos os dias na minha mãe, todos os dias eu fico pensando como seria se ela me visse hoje, com 70 quilos a menos.

Todas as melhores fotos que tenho com ela, eu estou muito gorda e tinha dito a Ângela o quanto eu queria ter uma foto com ela, assim como eu estou. E ao fazer um ano de cirurgia, um grande amigo, o Paulo Sérgio, me deu um presente: uma montagem onde estou com minha mãe em uma foto “magrinha”.

Chorei como criança, mas ao mesmo tempo, me deu um conforto tão grande, perceber que no final da vida, mesmo que tão precocemente, minha mãe percebeu que na vida o que eu queria era o aval dela para mudar a minha.

E o que eu quero dizer com tudo isso? Além de mostrar o quanto o relacionamento de mães e filhas podem influenciar na auto-estima de uma mulher é dizer que você, que hoje sofre com a obesidade, que sofre por ser “apontada”, por ser referência, que busque dentro de você a força necessária para mudar. E para você, que tem uma filha – ou sobrinha ou prima, ou irmã, que enfrenta a obesidade – seja ela real ou imaginária, muito cuidado com o que fala, isso pode influenciar a vida de uma mulher para o resto da vida.

E hoje, o que fica da minha mãe – além das roupas maravilhosas que herdei dela e uso com muito carinho, é o exemplo que a mulher deve sim, se amar e se cuidar, para si mesmo, porque eu guardo minha mãe na memória como a mulher mais bonita do mundo...

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Muito emocionante a sua história, Lizi! Eu também passei pela cirurgia de redução de estômago, e entendo perfeitamente tudo o que disse em relação às palavras e às vivências familiares que podem ser extremamente destrutivas. Felizmente minha querida mãe está ao meu lado, e assim ainda estamos ponto os pontos nos is e promovendo uma maior interação. Obrigada pelo relato. Bjs
 
JESSICA MACHADO GONÇALVES em 18/01/2016 13:54:49
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