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Campo Grande, Domingo, 04 de Dezembro de 2016

23/02/2015 06:23

Dia da cirurgia, onde o medo se mistura a ansiedade e a UTI é um martírio breve

Liziane Berrocal
Liziane já pronta para a cirurgia.Liziane já pronta para a cirurgia.

Segunda-feira, semana da cirurgia. Tudo começa a passar como um filme e começo a escrever feito louca, começo a relembrar de tudo que já passei nesses 34 anos de gordura. Eu nem durmo de ansiedade e de desejo de cruzar as pernas, sentar na cadeira de plástico, usar bota, comprar roupa na promoção e ter um filho. Ah, o desejo de ser mãe... Esse é o mais forte.

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Escrevo um texto para o Facebook, afinal, a gordinha aqui vive quase um BBB internético com seus "fãs" e “não fãs”. O texto diz muito de mim e acredito que de muita gente que submete-se a uma cirurgia desse porte. Um dia antes, conversei com minha melhor amiga Luciana, com minha sobrinha Carol e com meu companheiro que são as pessoas em quem mais confio.

Fui clara: uma cirurgia é um procedimento sério que implica riscos e como sou acostumada a ter rédeas de tudo, deixei instruções caso acontecesse algo comigo. Como há três meses havíamos perdido minha mãe, a reação dos três foi constrangedora (risos). Ficaram meio bravos, meio receosos, mas eu acreditava que era necessário.

Hoje é o grande dia, é o dia que eu começo uma mudança na minha vida com o auxílio de uma cirurgia, visto que a vida toda tentei conquistar isso por outros meios e não consegui. Para chegar até aqui, foram anos de reflexão – e "engordação" – e de auto questionamentos sobre o que isso representaria na minha vida.

Eu nasci gorda, cresci gorda, mas agora vou em busca de uma realização, ser menos gorda. Não tenho a ilusão de ser magra, nem de que a cirurgia será a resolução de todos os meus problemas. Isso é bem claro para mim e ficou mais claro ainda quando eu li e reli sobre todos os prós e contras de se submeter a uma cirurgia bariátrica.

Durante toda a minha vida, ser gordinha ou gorda para mim não era empecilho. Era parte de mim, era algo que faz parte. Sempre tive boa autoestima, sempre namorei, saí, curti, fui alto astral e inserida na sociedade.

Mas também confesso que tudo sempre foi mais difícil para mim. A adolescência, enfrentar o mercado de trabalho e foi por meio da simpatia e do profissionalismo que consegui conquistar minha sombra um pouco fresca, enquanto sempre vi pessoas às vezes competentes, às vezes não, conquistar coisas maiores por meio da “melhor” aparência.

Hoje, digo que vivi momentos horrorosos na vida de ofensas, xingamentos e apontamentos onde eu tentava entender qual o crime que eu tinha cometido. Desde o desconhecido na rua que gritava “baleia” de dentro de um carro, a pessoas que eu julgava amigas e que na primeira oportunidade usavam do mesmo artifício.

Mas também tenho inúmeros amigos que me amam convivem comigo pelo que sou, não pelo meu peso. E vaidosa que sou já tive até a honra de desfilar e ser miss plus size! A obesidade sempre foi minha companheira, uma companheira que eu mesmo nunca julguei, mas hoje decidi conhecer o outro lado, tentar saber o que é ser menos “gorda” e mais aceita. Sentar numa cadeira sem medo, cruzar as pernas, andar de ônibus e principalmente ser menos importunada.

Algumas pessoas falam em “me amar mais”. Isso não, porque eu me amo, sempre me amei e vou me amar, porque eu sou apaixonada por mim.

E fui em busca de uma realização, não de um sonho, porque sonho mesmo é viver num mundo onde a aparência seja menos importante do que caráter e que as pessoas não sejam mais subjugadas apenas por serem gordas, ou magras, ou amarelas, ou azuis ou sei lá o que for de diferente!

Quando acordei na UTI (sim, é preciso ficar na UTI para evitar qualquer problema), eu sentia dores inexplicáveis, uma dor na alma e um medo absurdo de não sair dali. E foi quando eu pensei: "Onde eu fui amarrar minha égua?"

Numa fração de segundo me arrependi do procedimento, mas já era tarde. Então ao estilo Faroeste Caboclo, lembrei de tudo que vivera até ali e já no quarto, comecei a perceber que a partir daquela tarde quente de janeiro, a vida nunca mais seria a mesma.




Caraca, Lizi! Senti exatamente isso quando "acordei" na UTI! Que merda eu fui fazer, que dor do caralho, agora não dá pra voltar atrás! E depois quando fui respirar fundo e senti minha barriga rasgando de dor, senti o mesmo momentâneo arrependimento. Mas, como tudo na vida, a gente aprende com o amor e com a dor, e vamos superando... Força nesses primeiros passos, ainda vêm muitos sorrisos e lágrimas por aí!
 
Sue em 25/02/2015 17:54:45
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