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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

05/04/2015 08:40

Em casa e antes do previsto, Manoel nasceu como poesia de parto mais que natural

Paula Maciulevicius
Manoel: o bebê tem nome de poeta (em homenagem ao poeta Manoel de Barros) e nasceu em forma de poesia. (Foto: Arquivo Pessoal)Manoel: o bebê tem nome de poeta (em homenagem ao poeta Manoel de Barros) e nasceu em forma de poesia. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Para fazer pessoas ninguém ainda não inventou nada melhor que o amor". A frase é de Manoel de Barros. O poeta que trouxe versos à vida de Carol também lhe trouxe vida através do filho Manoel. Em homenagem a ele, Carol e Marcus Vinícius deram o nome de Manoel ao bebê nascido em casa, de parto natural, às 4h41 da manhã, naquele 29 de dezembro. 

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No relato de parto, Carolina Rangel Martins Oruê, à época com 21 anos e estudante de Psicologia, enfatiza que não é a favor do parto domiciliar desassistido, mas sim com uma equipe previamente contratada, capacitada e bem equipada para garantia do bem estar da mamãe e do bebê, que possa estar pronta para agir diante de qualquer possível intercorrência. No caso deles, Manoel escolheu nascer de surpresa, quando era esperado só para dali quase um mês. Ao se darem conta de que o parto ocorreria mesmo no ambiente domiciliar, ela, o pai do bebê e a doula que os acompanhava, acionaram o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

A história do nascimento de Manoel começa a partir da descoberta da existência dele. Aos 3 meses de gestação, Carolina Rangel Martins Oruê, à época com 21 anos e estudante de Psicologia, viu o positivo no exame que confirmava a gravidez. 

Desde muito antes de sequer pensar em ser mãe algum dia na vida, Carol conta que já brincava que se tivesse um filho seria "um parto natural, sem anestesia e embaixo de uma árvore". "No modo das índias, bugras ou de quaisquer outras mulheres consideradas 'parideiras'. Mas até então, eu nunca poderia imaginar que só ficaria faltando a parte da árvore, porque todo o resto se concretizaria".

A mãe conta que cresceu ouvindo o relato de avós que tiveram partos naturais, alguns mais complicados que requereram intervenções, outros totalmente simples como a natureza se encarrega de fazer e à luz dessas experiências, Carolina acredita que o mais correto, fisiológico, mais benéfico, mais enriquecedor e mais seguro sempre seria o parto natural, mesmo tendo nascido através de uma cirurgia cesariana.

De início ela já se manifestou a favor do parto natural, sem qualquer intervenção. Seguiu com o pré-natal junto do médico que sempre acompanhou a família toda, mas que deixou bem claro, desde a primeira consulta, que com ele era só cesárea.

Manoel e o pai, Marcus Vinícius, logo depois de nascer. (Foto: Arquivo Pessoal)Manoel e o pai, Marcus Vinícius, logo depois de nascer. (Foto: Arquivo Pessoal)

Como gestante e futura mamãe, Carolina conta que mergulhou profundamente na informação, nos estudos, nas pesquisas sobre o universo da gestação, parto e pós-parto. "Eu lia tudo o que podia, sempre bebendo da fonte da Medicina baseada em evidências que é o que temos de conhecimento mais atual e confiável a respeito das práticas clínicas em saúde", relata.

Na 34ª semana, Carolina que teve uma gravidez toda de baixo risco e sem nenhuma intercorrência, passou por um sangramento ínfimo, acompanhado de uma ardência ao urinar. Na consulta com o obstetra veio a confirmação de que o colo já estava mole, mas sem nenhuma dilatação ainda. Como ela já havia começado a sentir algumas cólicas com contrações, entrou com repouso e medicação. Passado o susto, a gravidez continuou sem mais intercorrências até o domingo do dia 28 de dezembro... 

"Acordei às 6 e pouco da manhã para ir ao banheiro e quando deitei de novo percebi que estava com cólicas, ainda muito fraquinhas mas acompanhadas de contrações. Desde o começo da gravidez lá pelos 3 meses, já sentia as contrações de Braxton-Hicks, que são contrações de treinamento do útero mas sem dor que preparam o corpo para o momento do parto. Nessas contrações, a barriga inteira ou parte dela se endurecem", descreve.

Ainda bem espaçadas e sem ritmo, as contrações persistiam a ponto de Carol começar a pensar que talvez pudesse ter chegado finalmente o dia. Manoel, segundo os exames de ultrassom só chegaria do meio para o final de janeiro.

"Nessas horas um misto de euforia, força e alegria tomam conta da gente. Andei um pouco, tomei café e durante toda a manhã nada das cólicas com contrações passarem. Fui um pouco para o chuveiro que funciona como um analgésico natural para alívio das dores no baixo ventre e na lombar. Durante o trabalho de parto o chuveiro é como uma prova, se você passa uma hora sob a água quente e as contrações não cessam, então realmente é trabalho de parto". 

No começo da tarde, ela começou a perder o tampão mucoso. O que não deixava dúvida alguma de que era sim trabalho de parto. "Era o colo do meu útero dilatando e deixando sair aquela substância que durante toda a gestação esteve ali para proteger o meu útero e consequentemente o meu bebê! Mas era chegado o dia, Manoel já não precisaria mais da proteção do tampão porque daqui a algumas horas estaria na proteção dos meus braços e de seu pai!"

A doula que a acompanhou durante a gestação não pode estar presente. De última hora uma segunda foi acionada. Fernanda, o anjo da guarda de Manoel. O parto seria feito por uma médica obstetra no Hospital Universitário ou na Maternidade Cândido Mariano. Mas a intenção era de passar o máximo de tempo possível em casa e só seguir para para um destes lugares quando realmente fosse a hora.

Manoel não deu tempo. Escolheu onde, quando e como nascer.

"Um trabalho de parto de primíparas (mulheres que terão o primeiro filho) pode durar muitas horas, portanto o plano era passar a maior parte do tempo em casa, e só ir para o hospital em trabalho de parto ativo realmente para evitar intervenções desnecessárias me internação precocemente. Fui caminhar na rua até uma praça perto de casa, quando as contrações vinham parava, respirava e esperava passar para continuar caminhando", narra Carol.

Desde os 10 anos, Carol descobriu a paixão pela poesia de Manoel de Barros. (Foto: Arquivo Pessoal)Desde os 10 anos, Carol descobriu a paixão pela poesia de Manoel de Barros. (Foto: Arquivo Pessoal)

A mala ainda não estava pronta. Nem da mamãe e nem do bebê. O plano de parto também não. Foi feito ali, às vésperas do nascimento, entre uma contração e outra. "Estávamos esperando o Manoel vir da metade pra frente do próximo mês, aquele trabalho de parto pegou todo mundo de surpresa, não tínhamos realmente nada pronto. Uma bela surpresa, a mais extraordinária de nossas vidas!"

Durante a madrugada quando estava em um estágio bem avançado do trabalho de parto, as contrações muito próximas umas das outras e bem fortes, Carolina encontrou, ao sentar no vaso do banheiro, uma posição mais confortável. Ao entrar no chuveiro, para tomar uma ducha e seguir à maternidade, lá vem o primeiro "puxo".

"Eu já estava no expulsivo, era meu corpo fazendo força sozinho e lentamente empurrando o bebê. Eu não podia acreditar que já estava na hora porque apesar da dor realmente intensa eu estava me preparando para que piorasse muito mais. A gente ouve todo mundo dizer que a dor do trabalho de parto é uma 'dor de morte', então apesar da dor forte, eu pensava que ia piorar muito mais e ainda demorar muito mais tempo, então estava tranquila suportando tudo muito bem esperando ficar pior. Ao sentir o primeiro puxo agachei no box automaticamente e fiquei esperando vir o próximo para ter certeza que já era a hora mesmo".

A doula percebeu e entrou no banheiro para dizer que todo mundo estava pronto. Manoel era o primeiro deles. Foi quando Carol avisou que não tinha como sair dali naquele momento. "Ela me perguntou se eu conseguia me tocar, me toquei e já senti a cabeça dele lisinha envolta na bolsa amniótica. Nessa hora me dei conta de que a bolsa não tinha estourado. A doula ligou para a médica que nos orientou a chamar o Samu. E assim ela o fez."

Quando a equipe de médicos e socorristas do Samu chegaram à casa, no Jardim Flamboyant, Manoel estava começando a coroar. "Nessa hora senti uma ardência gigante, estava semi-acocorada apoiada sobre o joelho esquerdo com a perna direita aberta de lado. Lembrei de não fazer força para que não houvesse lacerações no períneo, o bebê veio vindo devagarinho somente pela força involuntária do corpo".

Com uma assinatura do pai, se certificando que estava ciente dos riscos, Carolina seguiu com o parto. A equipe chegou a pedir para que ela fosse para o quarto. "Respondi que não iria, pois ele já estava nascendo e pedi que eles aguardassem ele nascer para prestar os primeiros atendimentos. A equipe de plantão do Samu foi muito respeitosa e aguardou do lado de fora do banheiro a postos, por um pedido meu. Ficamos somente eu, meu marido e a doula até ele nascer. Eu apoiada no meu marido e a doula do lado com as mãos de prontidão para apará-lo quando nascesse".

"Ele começou a nascer com a bolsa íntegra, saiu toda a cabeça e os ombros tudo dentro da bolsa. Somente quando foi nascer o resto do corpinho a bolsa estourou e ele terminou de nascer amparado pela doula, depois foi direto pros braços do pai que o entregou a mim logo em seguida. Foi um momento maravilhoso! O mais incrível de nossas vidas."

Manoel se uniu ao corpo da mãe ainda todo sujinho de vérnix. Logo em seguida, recebeu os primeiros atendimentos pela equipe do Samu. "Deitamos os dois na cama onde Manoel mamou pela primeira vez".

Manoel nasceu às 4:41 da madrugada do dia 29/12 depois de quase 22 horas de trabalho de parto, com 49 centímetros, pesando 3.275kg. Depois de tê-lo em casa, mãe e bebê foram para o hospital para a retirada da placenta.

"E esse foi o nascimento da maior poesia da minha vida: Manoel. Bebê que tem nome de poeta (em homenagem ao poeta Manoel de Barros) e nasceu em forma de poesia! E o parto é assim, umas das experiências mais vívidas da humanidade. Algo que uni o corpo, a mente e o espírito, condensa a dor e a alegria, o cansaço e a força só podia ser mesmo uma poesia!"

Manoel não deu tempo. Escolheu onde, quando e como nascer. (Foto: Arquivo Pessoal)Manoel não deu tempo. Escolheu onde, quando e como nascer. (Foto: Arquivo Pessoal)
E esse foi o nascimento da maior poesia da minha vida: Manoel, diz a mãe. (Foto: Arquivo Pessoal)"E esse foi o nascimento da maior poesia da minha vida: Manoel", diz a mãe. (Foto: Arquivo Pessoal)



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