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Campo Grande, Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2016

03/02/2015 06:15

Gordinho dançarino se exibe de toalha em manifesto contra a ditadura da magreza

Elverson Cardozo
Com pelo menos 125 quilos, jovem se mostra assim na internet. (Foto: Arquivo Pessoal)Com pelo menos 125 quilos, jovem se mostra assim na internet. (Foto: Arquivo Pessoal)

Enquanto muitos gordinhos evitam posar para fotos de corpo inteiro, Pedro Paulo Mendes Leite, de 18 anos, se deixa fotografar por completo e, inclusive, sem camisa. Em um dos registros postados no Instagram há exatos 12 meses, o jovem, que atualmente mora em Aquidauana, a 135 quilômetros de Campo Grande, aparece sorrindo, caminhando de bermuda e com uma toalha enrolada na cintura, num deck da Praia da Figueira, em Bonito. Na legenda, escreveu: “Sem preconceito! BANHA, estou tão feliz com vc!!”. A palavra “Banha” aparece grafada assim mesmo, em letras garrafais, para ser lida como um grito.

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A atitude do rapaz, que este ano começa a cursar Engenharia de Controle e Automação no Estado do Paraná, chega a ser um manifesto contra a ditadura dos corpos esculturais, perfeitos, aquelas que as capas de revistas estampam. Pedro, também conhecido como “Bigpepa”, não apenas posta fotos, mas divulga vídeos. Em vários, ele surge dançando, reproduzindo coreografias de clipes famosos, a maioria da cantora favorita, Britney Spears, a princesinha do pop.

Pedro em mais uma coreografia para o Instagram. (Foto: Reprodução/Youtube)Pedro em mais uma coreografia para o Instagram. (Foto: Reprodução/Youtube)

Em uma das gravações mais recentes, publicada há três semanas, o rapaz mandou um aviso aos possíveis incomodados: “Vou postar porque sim, porque gosto, porque quero! Aqueles que não gostarem, não gastem o tempo comentando idiotices! Obrigado!”. Em outra mais antiga, feita há cinco meses, pediu: “Deixa o gordo ser feliz. Só um pouco”.

Ao Lado B, Pedro disse que sempre gostou muito de dançar e ouvir música pop internacional, mas passou a explorar o talento há pouco tempo. “Eu tenho vergonha de fazer isso por causa do meu corpo, mas acabei fazendo, não sei porque... foi por fazer. As pessoas começaram a gostar e eu me empolguei”, relata.

Até agora, garante, a maioria tem elogiado. “Só teve um cara que falou que isso não é correto, que é broxante ver um homem dançando, mas eu não ligo para isso”, comenta. “Apesar de gordo, as pessoas falam que danço bem”, completa.

Bem resolvido na rede e confuso na vida real - Com pelo menos 125 quilos, distribuindos em 1,76 m, Pedro se mostra super bem resolvido ao dar um “chega para lá” no preconceito. Na rede social, se expõe sem medo, brinca com a própria banha, como ele mesmo diz, e mostra que é livre das amarras sociais.

Mas isso é na rede. Fora dela, a história parece ser bem diferente. Uma bate-papo informal, como foi com o Lado B, revela uma lacuna imensa entre a figura em exposição na internet e o garoto que, desde a infância, luta contra a balança.

“Sempre fui gordinho. Nasci com 3,7 kg. Quando era pequeno as pessoas me chamavam de fofo, fofinho. Achava que isso era elogio, mas depois percebi que não era. Também falavam aquela popular frase: 'gordo baleia, saco de areia'. Eu tentava encarar como brincadeira, mas no fundo sempre me magoava. Só que não guardo rancor. No dia seguinte nem lembrava mais”, relembra.

Quando era pequeno as pessoas me chamavam de fofo, fofinho. Achava que isso era elogio, mas depois percebi que não era. (Foto: Arquivo Pessoal)"Quando era pequeno as pessoas me chamavam de fofo, fofinho. Achava que isso era elogio, mas depois percebi que não era". (Foto: Arquivo Pessoal)

Vítima de bullying, ele diz que aprendeu a ignorar as ofensas e, com o tempo, se tornou forte o suficiente para levantar a cabeça e seguir em frente. Hoje, dá a cara a tapa. No Facebook e no Instagram, “Bigpepa” mostra que, sim, está de bem com o próprio corpo.

Mas o discurso feito na internet não se sustenta. Ele sabe tanto disso que pensa até em procurar a ajuda de um psicólogo. Entre uma resposta e outra, Pedro admite que se incomoda com o peso.

“É desconfortável, principalmente quando tenho que entrar no ônibus. As pessoas olham. Passo vergonha”. O desconforto, no entanto, não é sentido em todo lugar. “Se estou em uma festa eu não estou nem aí para o meu corpo. Danço até o chão”, exemplifica. Perdido entre as próprias considerações, constata: “Está muito confuso”.

Mas você é feliz assim?, pergunta a reportagem. “Feliz, feliz totalmente não posso falar. Não sou. É meio hipocrisia falar”, responde, ao explicar que, na internet, se mostra bem resolvido porque recebe elogios de várias pessoas que o admiram pelo despreendimento. Assim, sente-se melhor.

Ao canal, Pedro também contou que já tentou várias dietas, mas sempre para. Ele quer emagrecer, mas diz que não encontra forças para lutar contra os quilos a mais. Sabe, porém, que precisa de uma mudança. “Devido a minha saúde... estou preocupado com minha respiração. […] Caminho e canso muito fácil”, diz.




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