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Campo Grande, Sexta-feira, 22 de Março de 2019

13/03/2019 13:09

Em áudio que racha PF e MPF, foragido ri e delegado dá dica a fazendeiro

"É bater na imprensa, chamar a mídia e bater neles, porque eles gostam de tá bem com a população"

Aline dos Santos
Sede da Polícia Federal em Dourados, que investigou ataque a indígenas em Caarapó. (Foto: Helio de Freitas)Sede da Polícia Federal em Dourados, que investigou ataque a indígenas em Caarapó. (Foto: Helio de Freitas)

“Doutor do céu, arrumou a cama pra mim aí já ou não?! (risos)”. Com essa frase, o fazendeiro Dionei Guedin, que estava com prisão preventiva decretada pelo ataque a índios com uma morte em Caarapó, abre o diálogo com Denis Colares de Araújo, delegado da PF (Polícia Federal). A conversa foi às 8h44 de 22 de agosto de 2016 e coloca em lados opostos duas instituições conhecidas por atuação conjunta em operações e força-tarefa: o MPF (Ministério Público Federal) e a Polícia Federal.

Para a procuradoria, o diálogo abriu uma série de crimes: inserção de dados falsos em sistema da polícia, falsidade ideológica e prevaricação. A Corregedoria da PF não detectou irregularidade, mesma decisão da Justiça Federal de Dourados, que extinguiu o processo. Por sua vez, o MPF recorreu ao TRF 3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) na tentativa de derrubar a decisão.

Retomando o diálogo captado durante monitoramento da PF de suspeitos do ataque, o delegado responde que não e esclarece: “Não tem um pedido da gente, o Inquérito que tava com a gente não tinha um pedido de prisão p*** nenhuma. Inclusive a nossa relação com o MPF f**** de vez... Agora, vocês fazendeiros tem que se unir e bater no MPF”, diz Denis de Araújo.

O fazendeiro não aceita a dica, conta que vai se entregar depois do almoço e pede que o interlocutor não comente. O delegado prossegue e "dá" a fórmula: “É bater na imprensa, chamar a mídia e bater neles, porque eles gostam de tá bem com a população”.

Na sequência, Dionei Guedin se entregou na tarde de 22 de agosto de 2016, mesmo dia da conversa. A prisão preventiva de Guedin e dos agropecuaristas Jesus Camacho, Virgílio Mettifogo, Eduardo Yoshio Tomonaga, o “Japonês”, e Nelson Buainain Filho, dono da fazenda Yvu, onde ocorreu o ataque, foi decretada no dia 5 de julho de 2016 pela Justiça Federal de Dourados. As ordens foram cumpridas pela PF em 18 de agosto. Dionei estava em viagem e se apresentou depois.

Na ocasião, sobrou troca de farpas entre a Polícia Federal e o MPF. A procuradoria reclamou da demora de 40 dias para cumprir os mandados de prisão e falta de prioridade para as questões indígenas em Mato Grosso do Sul. A Polícia Federal respondeu que atua com imparcialidade e que faltou bom senso em pedir as prisões sem informações básicas sobre os locais em que os mandados seriam cumpridos.

Fé pública - Em 31 de julho de 2017, o Ministério Público denunciou agente e delegados da Polícia Federal por falsidade ideológica e crimes contra a fé pública. De acordo com o MPF, entre 22 de agosto e 8 de setembro de 2016, os acusados, valendo-se da estrutura da Delegacia de Polícia Federal de Dourados, excluíram informações corretas e inseriram dados e legendas falsos no Sistema Guardião, utilizado para escutas judicialmente autorizadas.

Conforme a procuradoria, eles também omitiram declaração que deveria ser repassada ao MPF, colocando em seu lugar uma outra, ideologicamente falsa, que alterou a verdade sobre fato juridicamente relevante. Ainda foi relatado à Justiça Federal que o procedimento disciplinar interno da PF, que investigava o caso, foi arquivado, sob o argumento de que “o fato não configura evidente infração disciplinar ou ilícito penal”.

Em decisão de janeiro de 2018, a Justiça rejeitou a denúncia contra o agente Álvaro Victor dos Santos Neto e os delegados Denis Colares, Fernando Araújo Campos e Nivaldo Lopes da Silva. Também foi rejeitado o pedido da Polícia Federal para acionar o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), órgão de controle da atuação do MPF.

Ontem (dia 12), o MPF divulgou à imprensa o recurso ao TRF 3, contudo, não informou como tomou ciência do diálogo. O Campo Grande News entrou em contato com a Polícia Federal e não recebeu resposta até a publicação da matéria. 

Em 2016, MPF reclamou de demora para cumprir mandados de prisão contra fazendeiros. Em 2016, MPF reclamou de demora para cumprir mandados de prisão contra fazendeiros.

Carne Fraca – O processo informa que com a descoberta do contato entre o foragido e o delegado, foi autorizada quebra de sigilo telefônico do delegado Denis Colares de Araújo. Ao todo, houve identificação de três ligações em 2016: 27 de junho, 20 e 22 de agosto. Não há registro de repasse de informação sigilosa e o inquérito sobre o ataque aos indígenas era presidido por outro delegado da Polícia Federal.

O MPF ainda detalha que a situação foi tratada em duas reuniões internas da polícia e por maioria, os delegados teriam entendido que o contato entre Denis e o foragido não deveria ser informado ao Ministério Público Federal e à Justiça Federal.

A decisão que extinguiu o processo lembra que foram trágicas as interpretações de áudio realizadas por analistas da Polícia Federal durante a operação “A Carne é Fraca”, com ampla divulgação nos meios nacionais de mídia sobre mistura de papelão na carne, depois foi esclarecido que era para embalar o produto.

Para o MPF, a Justiça Federal em Dourados, ao analisar a admissibilidade da denúncia, praticamente julgou os acusados, isentando-os de qualquer culpa, e extinguindo a ação penal.

Cartuchos recolhidos em área de conflito em Caarapó. (Foto: Helio de Freitas)Cartuchos recolhidos em área de conflito em Caarapó. (Foto: Helio de Freitas)

Ataque – O ataque aos indígenas, ocorrido em 14 de junho de 2016, aconteceu dois dias depois de invasão na Fazenda Yvu, em Caarapó, a 283 km de Campo Grande.

Os proprietários afirmam que os índios também atiraram, mas não houve registro de feridos do outro lado do confronto. O episódio teve seis índios feridos e um morto: o agente de saúde indígena Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza, 26 anos.

Na sequência, os índios investiram contra um caminhoneiro que seguia na estrada ao lado da aldeia, queimaram o caminhão e uma colheitadeira. Três policiais militares que seguiam para a área de conflito também foram atacados, espancados com pedaços de pau e tiveram as armas e os coletes roubados.



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