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Campo Grande, Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

24/08/2019 08:30

Capital envelhece à espera de conforto para quem passa o dia fora de casa

Estar fora de casa é sinônimo de incerteza para necessidades simples como ir ao banheiro, beber água ou ter um lugar para descanso

Izabela Sanchez
Capital envelhece à espera de conforto para quem passa o dia fora de casa
Região central de Campo Grande (Foto: Henrique Kawaminami)Região central de Campo Grande (Foto: Henrique Kawaminami)

A manhã evolui incerta no centro de Campo Grande. É segunda-feira (20) e uma camada poeirenta, cheia de fumaça, faz o céu ganhar cores cinzentas de uma falsa chuva que não vem há mais de um mês. É hostil o clima e também a cidade, onde não só o céu se anuncia incerto, mas também a recepção e a solidariedade para quem precisa ficar longe de casa durante o dia.

A Capital de Mato Grosso do Sul apaga novas velinhas no dia 26, são 120 anos. É certo que fica mais velha, mas é preciso olhar com mais cuidado para saber se fica mais sábia. Apontada como a Capital mais verde do Brasil, não deixa de acompanhar o ritmo de desenvolvimento de outras cidades que tornam-se cada vez mais “cidades-máquina”, recheadas de concreto e pouca humanidade, mais voltadas aos carros do que às pessoas.

O tempo que não se tem para gastar une-se a falta de conforto e formam, para além do céu, uma camada hostil entre as pessoas, sentida, principalmente, no sistema nervoso campo-grandense. Por ali, ir ao banheiro, beber uma água gelada e ter onde sentar-se pode ser impossível.

As dificuldades não são sentidas apenas por quem vive todo o tempo nas ruas, gente cujo teto da casa é o próprio céu. Ambulantes, clientes, trabalhadores das obras, hippies com sua arte e taxistas também formam a diversidade de pessoas que passam boa parte do dia na rua.

Adriano passa o dia entre as revistas da banca na Rua 15 de novembro (Foto: Henrique Kawaminami)Adriano passa o dia entre as revistas da banca na Rua 15 de novembro (Foto: Henrique Kawaminami)

Adriano Guedes, 40, é dono de uma banca de revistas na Rua 15 de novembro, em frente à Praça Ary Coelho, propriedade da família há 30 anos. A sorte dele é que a mãe, lojista na mesma rua, oferece ao filho um local para poder utilizar o banheiro ou beber água. “Mais provável [pedir permissão em outra loja] se não tivesse essa facilidade, porque para ir ali na praça é meio complicado e tem muitas pessoas que... ali acontece tudo, né?”, diz.

Entre o espaço de uma cliente que pede um tipo de cigarro esgotado e outro que olha uma revista, Adriano reclama que a praça, símbolo da cidade, não abraça quem convive ao lado dela. Sempre em manutenção, ocasionalmente fechada. A saída, para quem não encontra saída, é, então, pedir um espacinho aos lojistas. A recepção nem sempre é boa.

“Dificilmente eles emprestam [banheiro], sempre falam que está estragado, em manutenção. Muitas vezes a praça está fechada, ou o banheiro está isolado também, eles fecham”, conta o comerciante.

A cena interrompe a hostilidade: trabalhador ajuda idosa a atravessar a rua (Foto: Henrique Kawaminami)A cena interrompe a hostilidade: trabalhador ajuda idosa a atravessar a rua (Foto: Henrique Kawaminami)

Conforto custa – E custa dinheiro. Ao menos na rotina de Julia Silva Santos, 44, “que vive pelo centro”, a trabalho ou para comprar. Se não tiver a intenção de comprar, compra assim mesmo. Nem que seja um salgado em uma lanchonete, para assim virar cliente e poder utilizar o banheiro.

“Falta banheiro, mais bancos na praça, não tem como se acomodar, é um descaso. É muito suja. Eu penso que o povo vem tanto aqui, deveria investir mais na praça, colocar bebedouros. Tenho que gastar dinheiro para ir ao banheiro em alguma lanchonete, compro alguma coisa para poder ir porque não tem como, e acho chato pedir”, comenta.

A sensação de ser um intruso indesejado pela maioria das pessoas não passa ainda que o “hippie” Marques de Souza, 36, já esteja há 4 anos vendendo artesanatos em uma banquinha improvisada em frente à Ary Coelho, na Avenida Afonso Pena. “Trabalho aqui o dia inteiro”, conta. “Certa parte da população [gosta dos vendedores] sim, mas a maioria não gosta. Aqui usar banheiro de loja é difícil, bebo água gelada porque eu trago, ali só tem da torneira”, relata.

“Pra gente não tem nenhum, zero conforto, ficamos na terra. Colocamos banco por conta própria, não tem nada pra nossa classe, zero. Uso esse banheiro da Praça, os funcionários até que tentam limpar, mas 12h quando as pessoas saem do trabalho, de maior movimento, está fechado. Campo Grande é um pouco difícil, não só pelas pessoas...mas acho que não é só Campo Grande”, reflete Gabriel.

Gabriel, ao lado das pulseiras que vende na Avenida Afonso Pena (Foto: Henrique Kawaminami)Gabriel, ao lado das pulseiras que vende na Avenida Afonso Pena (Foto: Henrique Kawaminami)
Banquinho improvisado para ter onde sentar (Foto: Henrique Kawaminami)Banquinho improvisado para ter onde sentar (Foto: Henrique Kawaminami)

O desconforto e a impressão de não ser bem recebido não impede que o mototaxista Rudney Machado, 37, devolva ao público todos os dentes num sorriso. Conversava com uma amiga, atrás do ponto onde divide com os colegas na Afonso Pena, ao lado de banquinha do Gabriel. Leva os clientes de moto para todo lado da Capital há 10 anos e estar ali, a espera de ser chamado, “sempre foi difícil”.

“Geralmente vamos ao banheiro da praça, que sempre está em péssimas condições, fechado para fazer manutenção, mas nunca vi manutenção. Vamos nas Casas Bahia, ali não se incomodam. Água trouxemos galão, térmica e pegamos no terminal. Para quem trabalha aqui esse pedaço não é bom. A praça está sempre suja, abandonada. Falam que é cartão postal, mas olha como está”, lamenta.

Oásis solidário - É consenso entre os comerciantes que o único oásis de solidariedade na dureza hostil e cinzenta do centro é uma das lojas da Casas Bahia, na Rua 14 de julho. É ali que encontram água gelada e banheiro livre, sem exigência de “serem clientes”.

Aos 75 anos Angelo Alves de Oliveira perambula pela cidade inteira vendendo certificados da Pantanal Cap. No entroncamento da Afonso Pena com a 14 de julho, a lábia com os clientes – “pode olhar a vontade meu patrão” - é logo interrompida pelo aceno de algum amigo. Ali ele tem muitos, incluindo os trabalhadores das obras de revitalização da Prefeitura. Logo um “chegado” arrisca chamá-lo de velho, e ouve de Angelo “velho não, usado”, carregado de bom humor.

O ambulante é outra pessoa a falar da “Casas Bahia” onde ele arrisca até “roncar” depois do almoço. É um dos únicos a não se queixar de hostilidade. Talvez a idade tenha trazido à Angelo a sabedoria de esperar simpatia dos amigos, mas não da cidade. Ele afirma, ainda assim, que os lojistas deixam que utilize o banheiro. Para beber água, revela, é preciso comprar.

Nas Casas Bahia, uma vendedora que preferiu ficar no anonimato conta sobre a “lenda” espalhada entre quem vive pelo centro. A história não é falsa. “Bebedouro é aberto. O gerente até colocou uma menina para cuidar do banheiro, até os usuários usam aqui. Não tem como controlar quem é cliente e quem não é então foi liberado, sempre tem água bem geladinha, muita gente vem aqui”, conta.

Aroldo observa os apressados que perambulam pelo centro (Foto: Henrique Kawaminami)Aroldo observa os apressados que perambulam pelo centro (Foto: Henrique Kawaminami)

Um banquinho no cantinho – Um pouco em frente, a esquina da Rua 14 de julho com a Rua Barão do Rio Branco revela outro vendedor ambulante da Pantanal Cap. Ao contrário de Angelo, Aroldo Vargas Rodrigues, 60 é mais solitário e sentava-se, bem quieto, em um banquinho de plástico sem encosto.

“Falta [conforto]. Só tem sinalização para carro, e só faltam passar por cima dos pedestres. Tem esses bancos que colocaram agora, tenho que ir nas lojas para usar o banheiro. Tem farmácia que é só o cliente e se não for comprar nada não deixa entrar. Aqui nas lojas da frente deixam beber água”, conversa ele.

Os brancos de concreto começam, de fato, a surgir pelas ruas da região central, parte da modernização do projeto “Reviva Centro”. Pouco mais de uma hora se passa e o céu fumacento não dá sinal de querer deixar o sol brilhar mais forte. Angelo se cansa de conversar, rende-se ao banquinho e recusa, aos risos, uma fotografia.

O bom humor parece contagiar outros ambulantes, a exemplo de um jovem que passa anunciando os serviços de um salão de beleza. “Salão, sobrancelha, pé e mão”, grita, sorrindo. Despojado, arrisca até pronunciar os serviços estéticos em francês.

Nas Moreninhas, na Rua Anacá, o concreto lateral vira banco improvisado (Foto: Henrique Kawaminami)Nas Moreninhas, na Rua Anacá, o concreto lateral vira banco improvisado (Foto: Henrique Kawaminami)
Sônia Mara vai sempre ali descansar e papear (Foto: Henrique Kawaminami)Sônia Mara vai sempre ali descansar e papear (Foto: Henrique Kawaminami)

Um pouco mais simpático – Cidade dentro da cidade, o icônico Bairro Moreninhas - ponta sul de Campo Grande - tem o próprio centro comercial. É tão fechado em si que muitas vezes os moradores nem saem de lá. O “centro das Moreninhas” é mais tranquilo e interiorano e na avaliação dos moradores, mais simpático. O que não impede, no entanto, que lojistas também proíbam quem “está no aperto”, de usar o banheiro.

Na Rua Anacá o vendedor de uma farmácia, por exemplo, diz que o banheiro é só para quem comprar. O bebedouro é livre, promete.

A política de uso do espaço é diferente na loja de móveis usados de Adilson Lucas, 43. Ao menos é o que garante o proprietário. “De vez em quando vem gente pedir e eu deixo, mas com certeza falta conforto, e se tivesse mais teria mais clientes. Mas as Moreninhas é mais tranquilo, as pessoas são mais simpáticas”, diz.

O concreto lateral de um supermercado tornou-se o banco improvisado dos moradores que fazem um intervalo entre as compras. A diarista Sonia Mara, 41, busca, no espaço um descanso para as pernas além de uma oportunidade de ver comadres e compadres para engatar num bom papo.

“Aqui os moradores acostumaram a se sentar”, comenta. “Sinceramente, eu peço para ir em uma loja [para usar o banheiro]. Já aconteceu de deixarem e já aconteceu de não deixarem, mas eu sou cara dura. Tem pessoas boas e ruins”, avalia.

Duas horas se passaram. A camada esquisita ainda não saiu do horizonte. A hostilidade do céu foi até maior em outros lugares do Brasil. Em São Paulo, por exemplo, a noite chegou mais cedo e expulsou o sol às 15h. Enquanto o tempo passa, a cidade conta os dias para ficar mais velha. Conta os dias, também, para a chegada da chuva.

É tempo de incerteza: sabe-se que a água há de cair limpando o céu, eventualmente. Ao menos no centro, o projeto de revitalização promete mudança completa, onde o descanso deve ganhar morada. Mas a hostilidade das ruas, essa não se sabe quando vai embora.

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