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Miqueias escapou de serial killer, mas morreu em casa, amarrado durante surto

Avisada de que filho era alvo de Nando, família se mudou para casa onde saga pela saúde mental de jovem acabou de forma trágica

Por Paula Maciulevicius Brasil | 03/12/2020 13:00
Na foto postada em julho nas redes sociais, Miqueias coloca a legenda: "Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si. É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti". (Foto: Reprodução/Facebook)
Na foto postada em julho nas redes sociais, Miqueias coloca a legenda: "Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si. É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti". (Foto: Reprodução/Facebook)

A mudança do bairro Danúbio Azul para o Vida Nova parecia significar um recomeço para a família de Miqueias Roger Gabriel da Silva. O jovem de 23 anos que morreu amarrado durante um surto em casa, na madrugada de ontem, escapou do serial killer Nando, que julgava e mandava matar usuários de drogas no bairro.

Avisados de que Miqueias estava na mira de Nando, a família tratou de se mudar e conseguiu uma casa no Vida Nova, onde nessa quarta-feira terminou a saga de mãe e padrasto pela saúde mental do rapaz.

Velório foi feito em capela na 13 de Maio, na manhã de hoje. (Foto: Paula Maciulevicius Brasil)
Velório foi feito em capela na 13 de Maio, na manhã de hoje. (Foto: Paula Maciulevicius Brasil)

O velório aconteceu na manhã de hoje, na Pax Campo Grande, com cerca de 15 pessoas, entre familiares, amigos e vizinhos. O sepultamento foi realizado no cemitério nas Moreninhas, mesmo jazigo onde está o corpo do pai biológico.

Ainda na capela onde acontecia o velório, ao lado do caixão do filho, que estava aberto, a mãe parecia desolada e num sussurro respondeu que era bom conversar com o padrasto dele, apontando para o marido Joel.

Aposentado, Joel Vicente Conde, tem 61 anos de idade e 10 de casado com a mãe de Miqueias.  Tempo em que se dedica também à criação dos três filhos dela como se fossem dele. É Joel quem narra toda a batalha travada pela família para que Miqueias tivesse tratamento.

Só quem já passou por isso entenderia a medida de amarrar o rapaz que estava em surto, contada e nomeada como "detenção" pelo padrasto. Eles aguardavam amanhecer o dia de ontem para mais uma vez ligar para os bombeiros e levá-lo ao UPA para então ser encaminhado e conseguir vaga para um Caps (Centro De Atenção Psicossocial).

Miqueias em uma das últimas fotos postadas em rede social, em setembro. (Foto: Reprodução/Facebook)
Miqueias em uma das últimas fotos postadas em rede social, em setembro. (Foto: Reprodução/Facebook)

Há três meses, o enteado tinha saído da casa onde vivia com mãe, padrasto e duas irmãs. Além da dependência química, Miqueias também tinha esquizofrenia e tomava remédio controlado. "Dia 28 de agosto, chegou uma curva de rio que fez a cabeça dele e tirou ele de casa. Era drogado também. Eles alugaram um quartinho e ficaram morando nessa casa. Ele passava em frente de casa só com bebida e droga. Pelo que fiquei sabendo, até injetando eles estavam", descreve o padrasto.

Segundo o relato do padrasto, a família foi orientada pelos policiais militares que fazem rondas pelo bairro e já conheciam o drama dos pais com Miqueias para pedirem medida protetiva. "Como ele estava agressivo, a polícia do bairro que ia direto em casa, falou pra mãe dele pedir medida protetiva porque a gente estava correndo risco. Como ele tinha saído de casa, eu tenho duas crianças que não vão crescer nunca, nós fizemos e ele não podia ficar perto de casa mais", conta o padrasto.

Miqueias nunca fez nada contra a família, até que na semana retrasada, as roupas dele foram jogadas na frente da casa dos pais. "Aí eu falei para a minha mulher, pega esse papel [a medida protetiva], guarda, põe ele pra dentro. Sem dinheiro, viciado e com problema que ele tem, vai jogar o coitado na rua? Eu sou o pai de criação dele", justifica a decisão.

"Peguei toda a roupinha dele e falei: 'só que tem um negócio, esse quarto você vai ficar, mas não é seu mais. Essa é a lei' e ele ficou".

O padrasto não trancava o enteado em casa "porque ele preso, se sentia um passarinho enjaulado", descreve Joel.

No domingo, Miqueias avisou que ia jogar futebol no campinho do bairro, e quando a família viu uma viatura da Guarda Municipal se aproximando, já sabiam que ele havia aprontado. O jovem teria invadido uma casa e queriam linchá-lo. "Eu fui buscar ele no campinho e os guardas falaram: 'vocês dão um jeito, interna'. Aí eu deixei ele em casa trancado, liguei no Caps, mas me falaram que eu não poderia ir direto lá, porque nem tinha como interná-lo, eu tinha que ir no posto 24h e esperar vaga. Fomos 11h30 da noite, pedi para deterem ele, porque ele ia fugir", lembra Joel.

Post feito pela mãe de Miqueias horas depois da constatação da morte do filho. (Foto: Reprodução/Facebook)
Post feito pela mãe de Miqueias horas depois da constatação da morte do filho. (Foto: Reprodução/Facebook)

Dito e feito. O enteado saiu pela porta da frente e só voltou para casa às 4h da manhã. "Ele andava de lá pra cá, de cá pra lá, liguei no Caps de novo, levamos ele no UPA e foi a mesma coisa. Dispensaram ele. Eu não sou psiquiatra, mas eu vi que ele não estava bem. Na terça-feira, levei na Upa, dispensaram dizendo que ele estava bem", resume.

Acostumado a lidar com os Centros de Atenção Psicossocial, até pelo atendimento dos últimos quatro anos que Miqueias fez, e também o acompanhamento que as irmãs do rapaz também fazem, seu Joel não questiona o trabalho do Caps. "É o tal do Sisreg [Sistema de Regulação], que é uma coisa muito errada. Tinha que mudar isso, se é especial, tem que ir no Caps direto, mas não tem vaga. Só mandam esperar e não chamam, esses pacientes que têm problemas, eles não esperam. O Caps não tem culpa não, eles estão com 10 lá internados e fazem o possível e o impossível", enxerga.

Joel acredita que o enteado usava drogas desde os 13 anos, e o primeiro surto teria sido aos 16. "Ele fez tratamento no Caps durante anos, minha esposa ia lá buscava o remédio dele e controlava", pontua.

Luiz Alves Martins Filho, o “Nando”, é apontado pela polícia como autor da morte dezenas de pessoas no bairro Danúbio Azul. (Foto: Arquivo/Marcos Ermínio)
Luiz Alves Martins Filho, o “Nando”, é apontado pela polícia como autor da morte dezenas de pessoas no bairro Danúbio Azul. (Foto: Arquivo/Marcos Ermínio)

"Fuga" - "Lembra do Nando exterminador? Ele ia matar ele, porque o Miqueias era viciado e nós morávamos lá no Danúbio. Ele ficou ruim lá, foi lá que começou na droga", diz o padrasto.

Criado no Danúbio Azul, Miqueia chegou à época até a ser internado. Lá, Joel morou durante sete anos, até que foi chamado por um vizinho. "Ele disse: 'vem cá, vem cá correndo. Você consegue uma casa num outro lugar?' Eu falei 'consigo'. 'Tira o Miqueias daqui, porque vão matar o Miqueias'. Aí eu falei que ele estava se tratando, até numa reportagem, o Nando fala: 'tem mãe que tá tirando o filho da droga'. Aquilo foi para a minha esposa, ele não falou nome nem nada, mas falou direto pra ela", recorda.

Três anos atrás, eles se mudaram para a casa onde Miqueias morreu na madrugada de ontem. "Eu não deixava entrar droga em casa, nem fazer rodinha na frente, eu mandava tudo embora e dizia que ia chamar a polícia e eles sabiam que eu chamava mesmo".

Sobre lutar pelo enteado, o aposentado diz que tudo o que pode fazer por Miqueias, ele e a mãe fizeram. "Eu sendo pai de criação fiz tudo o que eu podia. Recorri a todos os lugares, fui até na Defensoria", fala.

Policiais na casa de Miqueias na manhã de ontem, depois de constatarem o óbito do jovem. (Foto: Silas Lima)
Policiais na casa de Miqueias na manhã de ontem, depois de constatarem o óbito do jovem. (Foto: Silas Lima)

A morte - Na madrugada de quarta, seu Joel resolveu deter o enteado o deixando amarrado. O plano era esperar amanhecer para ligar para os bombeiros irem buscar e levar até a Upa. "Detemos ele. Fiquei com ele, quando ele sossegou, eu fui deitar. Levantei às 5h, quando levantei, estava essa fatalidade. Ele morreu a base de 4h, 4h15 da manhã", afirma.

O aposentado diz que levantou e enquanto fazia café, abriu a janela que dava para o quarto onde Miqueias estava. "Eu vi o estômago dele inchado e falei pra minha mulher ir lá, porque ele não estava legal. Ela viu, ficou desesperada", reproduz.

A mãe dele foi acalmada pelo padrasto, que tentou reanimar o rapaz e ligou para os bombeiros. "Chamei os bombeiros, tentei reanimar e quando eles chegaram eu disse que não adiantava. Ele já tinha falecido. Chegou uma viatura do bairro que explicou para o doutor toda a situação, que eles sempre faziam ocorrência em casa.

Eu ia cedo telefonar para os bombeiros levar meu filho. A regulação vai esperar mais vítimas como meu filho? Isso não existe", desabafa.

Como será voltar para a casa, Joel não segura o choro. "Vai ser difícil, porque ele é um filho meu. Você pega amor, pega mais amor neles do que próprio filho teu", desaba em lágrimas. "A vida é dura, dura mesmo. Quem tem família assim, com problema, olha, são vitoriosos. A gente precisava ter uma repartição que apoiasse eles. É duro, não é fácil não".

Sobre acreditar que o fim seria outro, o padrasto deixa a reflexão: "isso é uma esperança que todos os pais, todas as mães têm. É essa a esperança deles, de cura, de sarar, de ficarem bem e eles lutam até o final".

Segundo relatos da família à polícia, o rapaz foi amarrado por volta de 1h, pois passava por crise causada por uso excessivo de medicamentos. O caso foi registrado como morte a esclarecer e será investigado pela Polícia Civil. 

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