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Capital

Morto ao roubar deixa 10 peças de roupas e mãe que sonha em salvar "Guilhermes"

Na saga de 17 anos e nove meses, mãe conta que fez de tudo, mas na última 6ª feira não pôde reviver o filho

Por Aline dos Santos | 25/05/2020 13:23

Hoje acordei com a mente de um vilão
E parti pra uma fita com os irmão
Uma fita de mais de 1 milhão
Pra pegar e fazer ostentação

Michelle mostra a pequena pilha de roupas deixada por Guilherme, que sonhava que um dia "ia dar bom". (Foto: Henrique Kawanminami)
Michelle mostra a pequena pilha de roupas deixada por Guilherme, que sonhava que um dia "ia dar bom". (Foto: Henrique Kawanminami)

 

Dois dias depois de reconhecer o corpo do filho na fotografia de matéria do Campo Grande News sobre o adolescente morto em tentativa de assalto a delegado, Michelle Alves da Silva, 38 anos,  já se daria por feliz se conseguisse salvar algum dos garotos  que estão espalhados pela cidade e, que, como o seu Guilherme, se põe a sonhar alto sobre que dessa vez “vai dar bom” ou que vai fazer a “fita de milhão”, como diz a letra de funk.

A jornada de Guilherme Alves durou 17 anos e nove meses. O fim foi um tiro no peito,  no anoitecer chuvoso de sexta-feira (dia 22). A partir daí, enquanto a imagem do filho morto e xingamentos  inundaram o tribunal da internet, a mãe saiu correndo de casa, mas desta vez não poderia mais salvá-lo. A filha caçula de 10 anos não escondeu a frustração e questionou: “Você não conseguiu reviver o Guiherme?”.

Nesta segunda-feira, Michelle conta da luta para tirar o filho das drogas e dos crimes, num périplo que incluiu lhe aplicar surra aos olhos de todos numa boca-de-fumo, chamar a polícia em casa quando tentou ocultar objeto de furto no lar e procurar ajuda para que o adolescente fosse apreendido.  A primeira vez na Unei (Unidade Educacional de Internação) foi aos 14 anos. E assim, entre idas e vindas, se seguiram os últimos três anos.

Michelle afirma que fazia isso para prolongar a vida do filho, porque solto, não chegaria nem a marca dos 17 anos. Em casa, na Vila Danúbio Azul,  a mãe conta que Guilherme era uma criança hiperativa e muito revoltada ,principalmente, por ser criado longe do pai. Ela procurou ajuda psicológica, mas Guilherme crescia e as coisas se complicavam.

Uma melhora de comportamento veio quando, ainda no começo da adolescência, reencontrou os irmãos, filhos do primeiro casamento do seu pai. Anos depois, um dos irmãos foi assassinado e a revolta reacendeu. “Ele ficou louco, uma revolta muito grande. Não sabia lidar com a morte, chorava todo dia e, de certa forma, achava que as pessoas tinham culpa”, diz Michelle.

Evangélica, a mãe relata uma rotina de orações e diálogos para tentar salvar o filho do “inimigo”. Inconformada conta que criou os três filhos de forma igual, com muita dificuldade, mas que Victória, 21 anos, nunca “furtou, roubou”.

"Se conseguir alcançar o coração de um jovem e livrar uma mãe do sofrimento", diz Michelle, que chora por Guilherme. (Foto: Henrique Kawaminami)
"Se conseguir alcançar o coração de um jovem e livrar uma mãe do sofrimento", diz Michelle, que chora por Guilherme. (Foto: Henrique Kawaminami)

Ela acredita que o “lucro” dos furtos fosse revertido no consumo de drogas. Enquanto muitos adolescentes fantasiam uma vida ostentação bancada pelo crime, Michelle faz questão de mostrar todos os bens materiais deixados por Guilherme: uma pequena pilha de roupas. “O Guilherme tinha três cuecas, uns shorts e umas camisetas”, diz a mãe, explicando que a pequena pilha ainda tinha roupa emprestada do primo. Ela pede para deixar bem claro que nunca aceitou que coisas roubadas entrassem na sua casa.

Ciente de que o Guilherme que tinha em casa – amoroso, brincalhão e cantarolando funk – não era o mesmo nas ruas, com histórico de roubos e furtos, a mãe diz entender a ação do delegado,  no carro ao lado da filha.

Só lamenta tanto ódio na internet, com as redes sociais tomadas por ofensas e frases como “mais um CPF cancelado”.  Mas também não deixou de ser surpreender com as pessoas ainda capazes de ter compaixão. “Teve gente que veio falar no Facebook de São Paulo, Rio Grande do Sul

 Por fim, pede que a reportagem deixe bem claro que Guilherme não tinha fugido da Unei e estava livre por ter “pago” pelo último crime. Em meio ao choro, se consola em Deus e agradece pelo fim do filho, que tinha certeza que não seria uma história com final feliz, ter chegado num momento em que terá capacidade de prosseguir. “Deus me preparou e agradeço por isso”.

Com renda familiar de R$ 600, em queda diante da escassez de trabalho para as diaristas durante a pandemia do novo coronavírus e sem conseguir o auxílio emergencial, rebatizado por ela de auxílio humilhação, Michelle conta que se daria por feliz se a tragédia de Guilherme salvasse outros adolescentes.

“Se conseguir alcançar o coração de um jovem e livrar uma mãe do sofrimento. Já fui a enterro de vários meninos. Quando se perde um filho, todas as outras mães também perdem”, afirma.

Guilherme Alves foi morto com tiro no peito ao tentar assaltar o delegado Rodrigo Guiraldelli Yassaka, na Vila Polonês, em Campo Grande. Yassaka estava com a filha dentro de seu veículo, quando foi surpreendido por Guilherme e um comparsa. Durante a tentativa de assalto, um deles chegou a abrir a porta do motorista, onde o policial estava, e, com uma faca, anunciou o crime.  O outro assaltante tentou abrir a porta do passageiro, onde estava a filha do policial.