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Ribas cai nas graças da prostituição, que acena com "salário" de R$ 9 mil

O mercado do sexo paira sobre a cidade e boate investe R$ 40 mil na estrutura para receber clientes

Por Aline dos Santos, enviada especial a Ribas do Rio Pardo | 15/09/2021 10:03
Boate com mulheres e segurança na porta é cena trivial na noite de Ribas do Rio Pardo. (Marcos Maluf)
Boate com mulheres e segurança na porta é cena trivial na noite de Ribas do Rio Pardo. (Marcos Maluf)

Além dos milhares de trabalhadores da fábrica de celulose da Suzano, que deve chegar a 10 mil no pico da obra, o município de Ribas do Rio Pardo, a 103 quilômetros de Campo Grande, vive um segundo fluxo migratório: o da prostituição. Sede do maior canteiro de investimento privado do País, a cidade viu dobrar o número de boates. Numa delas, a gerente calcula que quem “trabalhar direito”, pode ter renda de R$ 9 mil por mês.

O mercado do sexo paira sobre Ribas. Na BR-262, placa de boate convida clientes. Quando a noite cai, da mesma rodovia, já se avista garota de programa vestindo somente lingerie na porta de uma das casas de prostituição, dançando e iluminada pelo piscar das luzes.

Pelas ruas, o clima é de choque de cultura. As mulheres reclamam da postura das profissionais do sexo, que saem a campo para fisgar clientes. Mesmo assim, veem a chegada das prostitutas como “mal necessário”, temerosas de aumento da violência sexual. Na cidade, que ainda se acostuma a não ser apenas um ponto de passagem para quem vai a Campo Grande ou São Paulo, correm vários vídeos das profissionais do sexo.

O mais famoso, na última semana, era o das garotas de programa dançando em cima de um caminhão. A gravação é acompanhada de um áudio atribuído ao motorista do veículo. Ele relata que estava abastecendo, sentiu o veículo chacoalhar e já tinham várias “quengas trepadas” no topo do caminhão.


Numa das portas da prostituição, a reportagem encontrou sete mulheres. Elas se interessam pela entrevista, contam que são de Campo Grande, mas não fazem programa na Capital. Uma hora de sexo custa R$ 200. Caso o cliente opte por cartão de débito, paga taxa de R$ 5. Outra cartolina cor de rosa informa que beber cerveja de 600 ml com uma das meninas custa R$ 20.

Uma das jovens, com a atenção dividida entre a entrevista e a caixa de música ofertada por vendedor ambulante que passa pelo local, conta que também já trabalhou em Três Lagoas. Ela pede para não sair em fotos, porque tem muitas tatuagens pelo corpo. “Tenho até na bunda, olha”, diz.

Na sequência, ergue a camisola para comprovar a afirmação. A entrevista é encerrada após a chegada de uma moça, que olha enviesado para as colegas e diz que não há interesse em falar com a imprensa.

"As Apimentadas" investe R$ 40 mil na filial de Ribas do Rio Pardo. (Foto: Marcos Maluf)
"As Apimentadas" investe R$ 40 mil na filial de Ribas do Rio Pardo. (Foto: Marcos Maluf)

Boate em chácara investe R$ 40 mil

Com unidades em Goiás e São Paulo, a boate “As Apimentadas” vai abrir sua terceira casa, desta vez, em Ribas do Rio Pardo. A expansão para Mato Grosso do Sul não tem mistério: está em busca do dinheiro da celulose.

Já a escolha do endereço, uma chácara a curta distância do perímetro urbano, é totalmente estratégica. A zona rural facilita a fuga para homens comprometidos, caso ameaçado de flagra pelas companheiras. E também resulta em maior discrição, sem tanto contato com a população rio-pardense.

A chácara ainda fica no caminho para o canteiro de obras. A projeção é investir R$ 40 mil no empreendimento, que deve ser inaugurado em outubro.

O local pretende ser híbrido de bar e boate. Ou seja, o bar é de livre acesso para todos, como um happy hour tradicional. Quem quiser pagar programa, avança para os quartos. A estrutura terá bar, palco de pole dance e piscina.

De acordo a gerente Juliane Holanda Ferreira, 35 anos, a boate deve selecionar até 12 mulheres, vindas de São Paulo, Goiás e Campo Grande. Futuramente, também deve abrir vagas para transexuais. Uma das exigências para o trabalho, é o comprovante de vacinação contra a covid-19. No mais, simpatia pesa mais do que beleza.

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Tem que saber tratar bem cliente, andar arrumada, de salto alto. Mulher de chinelos, ele tem em casa”, diz a gerente Juliane.

A boate chegou a funcionar com apenas um quarto, mas foi preciso suspender o atendimento para melhorar a infraestrutura. “Não é porque é na chácara que vai virar uma zona, é uma zona organizada”.

Na primeira etapa, só houve clientela para as mulheres. Um garoto de programa heterossexual não teve procura do público feminino. Já um profissional do sexo bissexual, também ficou sem clientes.

Segundo a gerente, é grande a expectativa pela abertura das portas da boate. “Passam 15 ônibus da obra por aqui todos os dias, os homens só faltam cair de dentro do ônibus de tanto olhar”.

O valor mínimo do programa será de R$ 100 por 40 minutos. Mas a lógica no mercado do sexo é que cada uma faça seu preço. “Cada menina é diferente”, diz Juliane. A utilização do quarto requer pagamento de mais R$ 50. Também é obrigatório que o cliente pague uma dose de bebida alcoólica para a acompanhante. A promessa para quem “trabalhar direito” é de remuneração de até R$ 9 mil por mês.

Boate às margens da BR-262, em Ribas do Rio Pardo. (Foto: Marcos Maluf)
Boate às margens da BR-262, em Ribas do Rio Pardo. (Foto: Marcos Maluf)

Dignidade da profissional 

A prefeitura de Ribas do Rio Pardo acionou o Ministério Público do Trabalho para discutir a atuação das profissionais do sexo. A cidade passou de quatro para oito boates.

De acordo com o prefeito João Alfredo Danieze (Psol), a tentativa é coibir a exploração das trabalhadoras. “A quantidade de novas boates causa espanto. Mas a profissional tem que ter dignidade e estamos preocupados com isso, para que não tenha exploração”, diz. E exemplifica que a Vigilância Sanitária exigiu melhorias de uma das boates e vai retornar para verificar o cumprimento da medida.

A prefeitura e a Suzano firmaram parceria chamada de “Agente do Bem”, com trabalho preventivo de combate à prostituição infantil e violência doméstica.

Tida como a mais antiga do mundo, a profissão de prostituta só foi reconhecida em 2002, recebendo o número 5.198 na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), do Ministério do Trabalho e Emprego. Porém, não é regulamentada.

Prostituição também não é crime. Mas, para não se enquadrar em crime de rufianismo, as boates recorrem ao bar e aluguel do espaço. De acordo com o Código Penal, rufianismo é tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar.


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