27/10/2018 08:20

A ideia do inferno abandonou o cuidar dos pobres

Mário Sérgio Lorenzetto
A ideia do inferno abandonou o cuidar dos pobres

Estamos naquela época do ano em que o inferno é usado como um tema comum para o entretenimento. Festas nas escolas e filmes de terror surgem por todos os lados. Embora muitos de nós associem o inferno como criação do cristianismo, a ideia de vida após a morte existe muito antes. Gregos e romanos, por exemplo, usaram o conceito de Hades, um submundo onde os mortos viviam, tanto como uma forma de entender a morte quanto uma ferramenta moral. No entanto, essa retórica mudou radicalmente nos tempos atuais.

A ideia do inferno abandonou o cuidar dos pobres

O inferno na Grécia e em Roma.

As primeiras representações gregas e romanas de Hades não se concentravam na punição. Descreviam um lugar escuro e sombrio habitado por mortos. No livro 11 do épico grego Odisseia, o personagem principal - Odisseu - viagem para o reino dos mortos encontrando incontáveis rostos familiares, incluindo sua própria mãe. Perto do final da viagem, encontra algumas almas sendo punidas por seus erros. Uma das mais interessantes é a alma de Tântalus, que foi sentenciado a eternamente ter comida e bebida fora de seu alcance. É essa punição que originou a palavra "tantalizar" - submeter a suplício.

Centenas de anos depois, o poeta romano Virgílio, em sua "Eneida", descreve uma jornada semelhante feira por um troiano chamado Enéias. Ele vai a um submundo, onde muitos indivíduos recebem recompensas e outros recebem punições.

Odisseia e Eneida eram os dois livros que educaram os estudantes de todo o império romano por séculos. Através deles, aprendiam desde economia à política e a virtude. Persuadiam seus leitores a se comportarem de maneira ética na vida, para que pudessem evitar as punições após a morte.

O mais famoso livro depois de Odisseia e Eneida era uma comédia escrita por Lucian. Representava os ricos que chegavam ao inferno. No século II d.C., o Hades descrito por Lucian era um lugar onde os ricos se transformavam em burros e tinham de suportar o fardo dos pobres carregados em suas costas por 250 anos. Lucian era o autor do "best seller" da época, uma era onde ainda engatinhavam os primeiros escritos bíblicos pós Jesus Cristo. A base dos escritos de Lucian era criticar a desigualdade de sua época e conclamar - seus estudiosos falam em "empurrar para o abismo" - os ricos a cuidar dos pobres. Era o abismo ou cuidar dos pobres. Não havia uma terceira via, um purgatório.

A ideia do inferno abandonou o cuidar dos pobres

Cristãos primitivos.

Na época em que os Evangelhos do Novo Testamento foram escritos, entre o ano 65 d.C. e os anos 300 d.C., os judeus e os primeiros cristãos estavam se afastando da ideia de que todos os mortos vão para um Hades, para o mesmo lugar como pensavam gregos e romanos.
No Evangelho de Mateus, a história de Jesus é contada com frequentes menções "às trevas exteriores onde há choro e ranger de dentes". Muitas das imagens de julgamentos e castigos descritas por Mateus representam as primeiras noções da existência do inferno.

O Evangelho de Lucas não discute o julgamento final com tanta frequência, mas contêm uma representação memorável do inferno. Tida por estudiosos como a mais importante descrição do inferno, descreve Lázaro, um homem pobre que viveu a vida toda com fome e coberto por chagas, batendo à porta de um homem rico, que desconsidera seus pedidos. Após a morte, no entanto, o pobre homem é levado para o céu. Enquanto isso, é a vez do homem rico entrar em agonia, sofrendo nas chamas do inferno e clamando para que Lázaro lhe dê um pouco de água.

Mateus e Lucas não estão simplesmente oferecendo ao público um festival de terror. Tentavam persuadir os ricos a cuidar dos pobres e a se comportar de acordo com a nova ética que emergia com o cristianismo.

A ideia do inferno abandonou o cuidar dos pobres

Danação aqui e agora.

No mundo contemporâneo, a noção de inferno, onde ainda subsiste, é usada com ênfase para os cuidados com os pecados pessoais, em vez de cuidar dos pobres e famintos. Em vez de motivar pessoas a escolherem comportamentos que promovessem a coesão social, o inferno vem sendo usado para que as pessoas se arrependam de seus erros pessoais. Uma ênfase individualista. Negligenciam alimentar os famintos, dar água para os sedentos, dar as boas vindas aos estrangeiros, vestir os nus ou cuidar dos doentes. Relegaram Mateus e Lucas ao esquecimento. Feliz Dia das Bruxas!

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