04/10/2018 08:54

Jornais: o que fazer para recuperar a confiança

Mário Sérgio Lorenzetto
Jornais: o que fazer para recuperar a confiança

Pela direita e pela esquerda, alguns dos principais jornais impressos e televisivos sofrem um verdadeiro bombardeio. O campeão das críticas é o Jornal Nacional, da Rede Globo. Há um abismo entre a população e os jornais. Perderam parte importante da credibilidade e respondem com a importância da imprensa livre para a democracia. Esse argumento basta?

Em agosto, mais de 400 agências de notícias do mundo todo defenderam a importância do jornalismo. A mensagem veio em um momento em que a retórica contra a imprensa atingiu níveis inimagináveis. As preocupações com imprecisões e preconceitos nas notícias fizeram com que a confiança na mídia atingisse mínimos históricos. Em resposta, lançaram o "The 32 Percent Project" para explorar como os cidadãos podem recuperar a crença no jornalismo. O nome vem do percentual de norte americanos que ainda confiam na imprensa - tão somente 32%. O projeto foi guiado pelo princípio de que a melhor maneira de descobrir o que os cidadãos querem é perguntar a eles. Eis as descobertas até o momento que podem guiar uma imprensa saudável e respeitada:

Jornais: o que fazer para recuperar a confiança

Abra a caixa preta.

Como os repórteres decidem o que se passa em uma notícia? Onde está a linha entre fato e opinião? Os anunciantes que financiam os jornais estão determinando o que os repórteres cobrem? Para muitos jornalistas as respostas podem parecer óbvias. Para muitos não-jornalistas, elas são um mistério ou a certeza do engodo.

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Crie uma missão compartilhada.

Os cidadãos queriam saber como um jornal pode compartilhar explicitamente os valores da comunidade. Também desejam que todos estejam trabalhando em torno de metas compartilhadas. O exemplo que adotam para essa meta é o do jornal enaltecer os valores da família em lugar dos valores da comunidade gay em comunidades claramente conservadoras como a do Mato Grosso do Sul. Argumentam que em regiões como o Rio de Janeiro o enaltecimento da homossexualidade é natural.

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Nenhuma diversidade, nenhuma confiança.

Os cidadãos pensam que não enxergam a si mesmos ou suas vidas nas notícias. Disseram que os jornalistas, compreensivelmente, produzem histórias que surgem de suas origens e experiências pessoais. As redações homogêneas, dizem eles, tendem a produzir histórias homogêneas. Isto transmite aos cidadãos que a notícia não é para eles. A diversidade é fundamental para ganhar confiança. Se as redações desejarem recuperar a credibilidade devem espelhar de maneira ampla e autêntica a composição de seu público.

Jornais: o que fazer para recuperar a confiança

Enfatize o positivo.

Uma das queixas mais comuns é de que as notícias são negativas em demasia. E, embora as histórias sobre crimes e acidentes automobilísticos possam atrair a atenção do público, elas não parecem fazer muito para conquistar a confiança. São exageradas. Quando há algo de bom acontecendo na cidade ou no Estado, a imprensa não publica. "Mas se alguém atirar em outra pessoa, oh, primeira página", é o pensamento médio.Desejam que as notícias reflitam mais de perto o sentido geral positivo que experimentam no dia a dia. Mas isso não significa que estejam apenas interessados na cobertura do bem-estar. Apontaram para a necessidade de mais histórias que enfoquem soluções para os problemas. Querem o jornalismo como um relacionamento e não um produto.

A confiança não é algo que os jornais podem simplesmente pedir, é algo que devem ganhar repetidamente.

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Fabiane foi linchada. A história da alma de uma campanha eleitoral.

Fabiane pegou sua bicicleta e saiu de casa para apanhar a Bíblia que esquecera na igreja. Na véspera, havia cortado o cabelo pelos ombros e pintado de loiro. Em Morrinhos, cidade vizinha de Guarujá, passou no mercadinho onde a irmã trabalhava e comprou bananas. Minutos depois, ofereceria gentilmente uma delas a uma criança que passava, acompanhada pelos pais.
De repente, sem perceber nem como nem porquê, Fabiane foi esmurrada por um rapaz. Depois por outro. Num ápice, estava sendo linchada por dezenas de pessoas. Socos, pontapés e pauladas. Homens, mulheres e até crianças trucidaram Fabiane. Foi amarrada com fios elétricos e arrastada pelas ruas por duas horas pela multidão até acabar inconsciente em um mangue. Levada para o hospital horas depois, morreria a seguir. Deixou marido e duas filhas. Uma de 17 anos e outra de 5. Foi-se uma vida de devoção. Dedicada à igreja em cujos bancos de madeira deixou a Bíblia que não conseguiu recuperar.
Fabiane morreu porque os pais da criança a quem dera uma banana a confundiram com o retrato falado de uma mulher loira, de cabelos curtos inventada em uma página de Facebook com o título de "Guarujá Alerta", vista e compartilhada por 56 mil pessoas. A tal loira era acusada de sequestrar crianças para realizar rituais de magia negra. Fabiane nem era parecida com o retrato falado. E o retrato falado era de uma loira que fora vivia, morava e fora presa a 700 quilômetros de Morrinhos, no Rio de Janeiro. E nada tinha a ver com sequestro de crianças ou com magia negra.
Fabiane foi morta por causa de um fake news. Vítima do mesmo ódio que assola o Facebook e o Whatsapp. As notícias falsas estão comandando o país. São elas que dirigem a campanha eleitoral. São a alma do Brasil. Só existem pelo fanatismo e ignorância - mais ou menos sinônimos de quem as consome.
A credibilidade da comunicação social está em crise, em parte por culpa própria. Mas sobretudo porque as turbas furiosas estão procurando Fabianes para trucidar. Trocam a comunicação social séria, a que não divide o mundo em heróis e vilões de novela das nove, pelas bolhas da rede de Whatsapp.
Você entra em um avião dirigido por amador? Tome medicamento receitado pela internet? Deixa de vacinar o filho por causa de crenças doidas? Tudo isso pode matar. As fake news também podem matar. Mataram Fabiane.

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