01/02/2019 06:37

O dia mundial da não violência

Mário Sérgio Lorenzetto
O dia mundial da não violência

Para quem estuda a história das religiões há um momento chave. Até o encontro do líder negro norte americano Howard Thurman com o hindu Mahatma  Gandhi ninguém apresentará a indagação: por que os negros e índios adotaram a religião do opressor nas Américas?
Thurman trouxe o princípio da não violência para as três Américas. Era o mentor de todos os líderes do movimento da não violência, inclusive de Martin Luther King Jr.. Ele foi profundamente influenciado pela forma como Gandhi usou esse princípio na luta da Índia pela independência do domínio britânico. No Brasil e em toda a América Latina, esse princípio foi trazido pelo casal missionário Jean e Hidegar Gooss.

O dia mundial da não violência
O dia mundial da não violência

Thurman vai à Índia com uma delegação indígena.

Nascido em 1899, Howard Washington Thurman foi criado por sua avó, uma ex-escrava. Cresceu para ser pastor batista e a mais importante figura religiosa de seu tempo nas Américas. Em 1936, foi à Índia, Birmânia e Ceilão (atual Sri Lanka) com uma delegação hindu conhecida como "peregrinação da amizade". Nessa viagem conheceu o advogado hindu, formado na Inglaterra, Mahatma Gandhi que liderava a luta contra o colonialismo britânico em seu país. A delegação era patrocinada pelo Movimento Cristão Estudantil, liderado por A.Ralla Ram. É esse líder que dá início ao debate, até hoje não esclarecido: "uma vez que o cristianismo na Índia é a religião do opressor, haveria um valor único em ter representantes de outro grupo oprimido falando sobre a validade e a contribuição do cristianismo". O hinduísmo era uma religião aberta ao debate. Entre outubro de 1935 e abril de 1936, Thurman proferiu 135 palestras em mais de 50 cidades da Índia. Até quase o final da viagem havia se encontrado com o Premio Nobel Rabindranat Tagore, que desempenhava um papel fundamental na independência da Índia. Ao longo da viagem, a questão da segregação dentro da igreja cristã (Os negros ficavam no fundo da igreja nos EUA. No Brasil, ficavam na porta.) e sua incapacidade de abordar esse tema foi levantada em muitas palestras.

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Thurman e Gandhi.

A delegação se reuniu com Gandhi no final da turnê em Gujarat, no oeste do país. Gandhi havia baseado sua luta com o princípio da não violência lendo os textos de Mahavira, um líder religioso de seu país do século VI a.C.. Outro autor que causou profunda influência sobre Gandhi foi o norte americano Henry Davi Thoreau que propugnava essa ideia acrescida do não pagamento de impostos. Os nossos adeptos do "Dia sem Impostos" devem ter lido Thoreau. O terceiro pensador que influenciou Gandhi foi o libertário cristão Leon Tolstói. Havia uma conjunção. A não violência tinha um de seus berços nos Estados Unidos... e para lá regressaria com muita força.

O dia mundial da não violência

Thurman começa a entender a ideia de não violência.

Em uma conversa que durou três horas, Gandhi envolveu seus convidados com perguntas sobre segregação racial, linchamentos, história dos negros nas Américas e religião. Sua inconformidade estava no fato de que os negros e indígenas das Américas adotaram a religião de seus opressores.
Gandhi argumentou que, pelo menos em religiões como o islamismo (que se opunha ao hinduísmo praticado por Gandhi), todos eram considerados iguais. Gandhi explicou a Thurman que no islamismo "no momento em que um escravo aceita o Islã, ele obtêm igualdade". Thurman perguntou qual era o maior obstáculo ao cristianismo na Índia. Gandhi respondeu que o cristianismo, praticado e identificado com a cultura e o colonialismo ocidentais, era o maior inimigo de Jesus Cristo na Índia.

O dia mundial da não violência

30 de janeiro e a "ahimsa".

Essa é a data internacional comemorada por todos os movimentos adeptos da não violência no mundo. A "ahimsa" ou princípio da não violência vem ao longo dos anos sendo combatida. Os ícones maiores daqueles que apregoam a ideia da violência estão nas camisetas e filmes. Ernesto Che Guevara, Trotski, Malcom X, Bose e Frantz Fanon formam o quinteto mundial daqueles que acreditam que a não violência é a tentativa de "impor a moral burguesa". Diziam que o conceito de não violência é um falso ideal. Esse debate continuará, mas a violência encontra cada vez mais adeptos.

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