11/01/2019 09:04

Há 31 anos, Luiz é o vigilante que faz até repente para não "dormir no ponto"

Seu Luiz é pura simpatia e conhecido por cuidar de casas no Jardim dos Estados

Thailla Torres
Luiz trabalha há 31 anos cuidando a mesma residência. (Foto: Kísie Ainoã)Luiz trabalha há 31 anos cuidando a mesma residência. (Foto: Kísie Ainoã)

São 31 anos cuidando da mesma casa. Dando boa noite para o mesmo vai e vem de clientes de um restaurante conhecido e contando tudo o vê na madrugada aos patrões. Luiz Ferreira da Silva é um vigilante conhecido no Jardim dos Estados, do tipo que não nega boa conversa e, aos 81 anos, carrega paixão por versos e poesias.

É fazendo repente que ele aguenta, aproximadamente, 10 horas de serviço. "Eu faço rima desde pequeno, isso é coisa do nosso Nordeste", explica. "Para não cair no cochilo fico dando piá (tocando apito) ou fazendo minhas rimas", acrescenta.

O cacete é proteção durante as madrugadas.O cacete é proteção durante as madrugadas.

Natural Caruaru, no Pernambuco, Luiz chegou por aqui há 50 anos, como a maioria dos nordestinos. "A necessidade obriga, precisei trabalhar e sofria muito com a seca no Nordeste", lembra.

Parte da família ficou para trás quando Luiz tentou recomeçar. "Até hoje sinto muita falta do meu Estado, mas sou feliz aqui, não penso em voltar para as dificuldades daquela época".

O primeiro emprego foi em uma propriedade rural na região de Angélica, a 263 quilômetros de Campo Grande. "Trabalhava no meio daquelas matas e cuidando de fazendas". 

Ao chegar na Capital trabalhou por 15 anos como gari, até que uma fatalidade o tirou da profissão. "Foi no Ano Novo, sofremos um acidente de caminhão. Um carro vinha na contra-mão, na Rua 26 de Agosto, quando bateu de frente com o nosso carro que tombou, por isso tive que parar de trabalhar".

O trabalho como vigilante foi o recomeço, lembra. "Conheci a região, o patrão e comecei a trabalhar. Com o tempo fui conhecendo todo mundo".

O tempo de profissão virou orgulho para Luiz que apesar da idade não quer largar o trabalho. "Todo mundo fala que eu tenho idade para ficar em casa, mas eu não aguento e ninguém vive só com a aposentadoria. Nunca adoeci, nunca trouxe um atestado médico para o meu patrão, não tenho dor de cabeça, então posso trabalhar".

Nem o medo e a violência parece espantar o vigilante que, para se proteger, segura um cacete de madeira. "Já roubaram meu celular aqui na frente, isso foi ruim.  Mas vivo em paz aqui, nunca arrumei inimizade e a rua é pública, não fico cuidando o que as pessoas fazem na rua, cuido do que acontece na frente da casa do meu patrão, se for algo estranho eu conto pra ele", garante.

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Na mesma casa desde 1987, Luiz trabalha até às 4h da madrugada. Na mesma casa desde 1987, Luiz trabalha até às 4h da madrugada.
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