13/05/2018 08:45

Maria fazia faxina dia e noite, mas leva a culpa pela prisão dos 2 filhos

Mesmo assim, na fila do presídio, ela é a única da família e mostra que mãe é sempre a última a desistir

Thailla Torres
Na fila, a espera por uma senha que a coloque na frente do filho, depois de tanto tempo sem vê-lo. (Foto: Marina Pacheco)Na fila, a espera por uma senha que a coloque na frente do filho, depois de tanto tempo sem vê-lo. (Foto: Marina Pacheco)

Domingo de manhã. Como todo início de semana na porta do Instituto Penal de Campo Grande, mulheres começam a se aglomerar, seja Dia das Mães, seja Dia dos Pais, ou qualquer outro domingo do ano. Carregadas de sacolas, elas chegam de madrugada e dois detalhes chamam atenção na fila: não há homens esperando para entrar e sempre que alguém alheio ao contexto do lugar aparece, a primeira reação delas é erguir a cabeça, como demostração de que não há motivo para se envergonhar de mais um dia na porta do presídio.

Maria é uma dentre milhares de mulheres pelo Brasil que enfrentam horas de viagem para chegar até o seu destino e "cumpre" pena junto com o filho.

Encarregada de serviços gerais, Maria Auxiliadora Teodoro de Souza, tem 57 anos, e encara essa situação há 12. Começou quando o filho mais velho foi preso por uma briga. Depois veio a prisão do caçula, condenado por tráfico de drogas e envolvimento com furtos. Há cinco anos o filho mais velho morreu assassinado, mas a rotina de presídio continua pelo filho mais novo.

"Ele saiu do prisão uma vez e não voltou. Ficou dois anos fora trabalhando, até que foi preso de novo. Agora ninguém sabe quando ele vai sair", conta Maria.

A espera é longa, são horas na fila. (Foto: Marina Pacheco)A espera é longa, são horas na fila. (Foto: Marina Pacheco)

Ela pega no mínimo três ônibus para chegar até ali, a visita só acontece uma vez por mês porque o gasto é de, no mínimo, R$ 400,00. "Compro de tudo, comida, produtos de higiene e roupas". Ela retira cada item do pacote original e coloca em sacos transparentes para facilitar no momento da revista, outra regra do "manual" que mãe de presidiário é obrigada a decorar, para garantir o mínimo de conforto para o filho. O almoço do dia com o filho é colocado de forma estratégica dentro de uma vasilha. "Tenho que colocar separadinho, porque quando chega ali dentro eles reviram tudo".

Na fila a espera é longa. Ao chegar, entrega o documento e pega uma senha que vale para entrada. Assim como todas, ela se submete à revista íntima e tenta aproveitar cada minuto ali dentro. Se ela chega bem cedo, consegue sair por volta das 13h, mas se a chance de entrar só acontece a tarde, Maria fica até às 16h. "Lá dentro a gente almoça, conversa, faz oração. Porque agora graças a Deus ele está na igreja, parou de fumar...", descreve. "Acho que ele está se encaminhando".

Ela ainda lembra da primeira vez que teve contato com uma penitenciária. "Foi humilhante, ainda é uma humilhação. Uma dor que eu não desejo pra ninguém". Da família, só ela visita o filho de 35 anos. "Tenho que vir, sou pai e mãe dele. Criei meus filhos sozinha".

Maria é de Pernambuco e chegou a Mato Grosso do Sul por uma vida melhor. "Não aguentava mais aquela escravidão, era uma vida difícil". Hoje, ela trabalha registrada na construção civil e como diarista nos fins de semana. "Pra conseguir comprar as coisas pra ele no começo do mês".

Parte da comida, levada em saquinhos transparantes, para entrar no presídio. (Foto: Marina Pacheco)Parte da comida, levada em saquinhos transparantes, para entrar no presídio. (Foto: Marina Pacheco)

O salário que ganha custeia as compras para o filho, ajuda os netos e quita as contas básicas de casa. Mas para ela, nem é o gasto excessivo a maior indignação. "É lembrar de tudo que a gente ouve", afirma. "Tem gente que diz que eles foram presos porque eu não dei educação, mas penso: como? Eles estudavam enquanto eu trabalhava, fazia faxina dia e noite pra dar tudo a eles. Mas se bandearam para o outro lado". protesta. Mas a persistência é necessária. "Porque só eu venho. Se depender dos outros, ninguém vem".

Ainda do lado de fora, um dos netos, de 9 anos, chega na porta do presídio para pegar um dinheiro com a avó. "Dou um pouquinho para a mãe comprar o leite para as crianças". Maria repassa o valor e um presentinho para o filho pequeno da ex-nora. "São meus netos, não posso abandonar", justifica enquanto se despede do neto, cuida as sacolas e a fila.

Durante a entrevista, a maioria das mulheres que observam Maria escondem o rosto e pedem para não serem fotografadas. Porque do lado de fora, também tornam-se suspeitas. "Acham que porque temos um filho preso, a gente não presta".

Maria ainda ajuda o neto que chega cedo na fila para encontrar a avó. (Foto: Marina Pacheco)Maria ainda ajuda o neto que chega cedo na fila para encontrar a avó. (Foto: Marina Pacheco)

Maria não dá ouvidos e resiste. Mesmo que o Dia das Mães não faça mais sentido. "É um dia como outro da semana, não tem comemoração. Só peço para que meu filho não morra lá dentro".

Como manter a rotina de visita não é fácil para o bolso, Maria até diz que vai desistir se o filho voltar à prisão depois de cumprir a pena. "Eu já falei pra ele que lavo minhas mãos, nunca mais volto aqui". Mas não é preciso questionar duas vezes para ela voltar no assunto. "Eu falo assim, mas não é verdade. Mãe não sabe desistir de um filho", finaliza.

Curta o Lado B no Facebook e Instagram.

imagem transparente