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Campo Grande, Quinta-feira, 27 de Junho de 2019

22/05/2019 07:11

Angélica fala do peso da concorrência para quem vive de sexo depois dos 40 anos

Paraense, ela diz que a prostituição também exige resistência quando a idade chega

Thailla Torres
“Ser prostituta depois dos 40 não é fácil”. (Foto: Marina Pacheco)“Ser prostituta depois dos 40 não é fácil”. (Foto: Marina Pacheco)

Angélica tem 40 anos e há 20 é garota de programa. Envelhecer em uma profissão tabu poderia ser o maior problema, mas o complicado mesmo é continuar na ativa diante da concorrência cada vez maior com o passar dos anos. Além da cobrança pela escolha profissional, o desafio é suportar o peso das mais jovens e correr contra o tempo para continuar vivendo do sexo.

Solteira, mãe e garota de programa há duas décadas, ela se orgulha da própria história. Mas prefere não mostrar o rosto porque o filho, de 7 anos, ainda não sabe do ofício.

O Lado B foi ao encontro de Angélica em seu local de trabalho, em sua própria casa alugada para viver e fazer os programas. Ainda com roupa de academia, ela explica que sua rotina é corrida por ser uma garota de programa mais velha. “Ser prostituta depois dos 40 não é fácil”.

Lingeries ficam dispostas na sala para receber os clientes. (Foto: Marina Pacheco)Lingeries ficam dispostas na sala para receber os clientes. (Foto: Marina Pacheco)

É preciso disposição não só para atender os clientes, mas para cuidar do corpo com mais intensidade. “A concorrência é muito grande na cidade. Antes, eu era magrinha, mais bonita, todo durinha e com peito bonitinho, podia cobrar muito mais. Hoje, eu tenho que cuidar porque sou um pouco mais gordinha do que as outras e eles não querem”.

Além da conversa com os clientes, uma observação durante anos mostra a Angélica que eles têm um perfil de escolha. “Eles querem as magrinhas, com cara de menininha, igual adolescente”.

Alguns clientes também recusam na cara dura. “Muito cliente chega e não gosta do meu corpo. Sei disso porque ele vai embora e não volta mais. Alguns só chegam, olham e desistem na hora. Eu respeito, mas sei que é por causa da minha idade”.

O começo dessa observação não foi fácil, ela admite, mas com o tempo passou a se olhar no espelho de outra forma. “A gente se sente ainda mais esquecida, porque ser prostituta já tem um peso, velha então, é como ficar de vez para escanteio. No início, isso foi muito ruim, mas eu decidi que iria encarar a concorrência. Apesar de já ter 40 anos, eu me sinto viva, me sinto bonita”.

No dia a dia todo cuidado é pouco. “Tenho que fazer academia todo dia, mesmo com preguiça. Também cuido da pele, ela é o que mais mostra minha idade”.

Apesar do peso da concorrência, Angélica diz que ainda está numa “boa fase”. “Tenho cliente todo dia, pelo menos três”. Nos fins de semana e no início do mês, esse número sobe para sete. “Principalmente os mais novos, eles recebem o salário mínimo e correm pra cá. Alguns passam o mês inteiro mandando mensagem só para eu não esquecer do horário”.

Saltos preferidos na hora de fazer o programa. (Foto: Marina Pacheco)Saltos preferidos na hora de fazer o programa. (Foto: Marina Pacheco)

O início – Angélica nasceu no interior do Pará. Mudou-se para Mato Grosso do Sul em 1998 para trabalhar. Não aproveitou muito a infância, teve uma vida difícil longe dos estudos e começou cedo em casas de família, trabalhando como babá e empregada doméstica.

Ainda na adolescência se relacionou com um homem mais velho, casado, que se tornou sua primeira desilusão amorosa. “Ele me machucou muito. Eu era uma ingênua”.

Por ser uma adolescente bonita, muitos homens passaram a sugerir a prostituição. “Fui conhecendo pessoas que falaram que eu poderia ganhar um pouco mais que um salário mínimo”.

Prestes a completar 20 anos, andando na rua, deu de cara com a oferta de um desconhecido. Era um cara bem mais velho e ele foi o seu primeiro cliente. “Estava andando e senti que tinha um cara mais velho me olhando. Ele me pediu para entrar no carro, entrei, em seguida, disse que iria cobrar por aqui (sexo). Na época cobrei R$ 30,00, mas fui embora contente porque naquele dia eu ganhei um dinheirinho a mais”.

O primeiro programa mostrou a ela o caminho da prostituição. Angélica aceitou, fez amizades e viveu a rotina durante alguns anos de todas as noites sair para fazer programa nas ruas. “Andava numa turminha de três meninas para não correr riscos sozinha, ficava ali na região da Barão do Rio Branco”.

A rua oferecia mais vantagem naquela época por ser nova. “Conseguia fácil sair com o cliente, era melhor do que boate. Mas também trabalhei em casas de prostituição, principalmente, em Corumbá. Lá a prostituição é muito forte”.

Pausa – Angélica deu uma “pausa” quando se apaixonou, conta. “Eu colocava anúncio no jornal e um cara de dentro do presídio começou a trocar mensagens comigo, por torpedos. Me apaixonei por ele, fui na cadeia fazer programa e depois fazia tudo de graça. Fiquei esperando-o sair e decidi não fazer mais programa”.

Os primeiros passinhos do filho foram dentro do presídio, lembra. Mas, quando o amor saiu da cadeia, tudo desmoronou. “Depois que ele saiu da cadeia fomos morar juntos, achei que teria uma vida de casada, mas ele encontrou uma mulher mais nova do que eu, entrou para vida do crime novamente e me abandonou”.

Ela até tentou morar com os pais novamente, viver de outra profissão, mas acabou voltando à prostituição. Deixou o filho em São Paulo e voltou para Campo Grande, “cidade promissora”, garante ela. “Tem muita gente em busca de programa aqui, rende muito”.

E o perfil dos clientes não muda muito. “Maioria dos clientes é casado. Alguns são mais velhos, sozinhos, que se sentem carentes, mas até os novinhos tem namoradas”.

Hoje – Ela não vai para rua e prefere fazer os atendimentos em casa, durante o dia, porque quer, pelo menos, ter uma saúde melhor quando quiser se aposentar. “A noite preciso dormir, chega uma hora que eu nosso corpo cansa. Essa coisa de dormir pouco não dá, principalmente depois dos 40”.

Em casa, o quarto é bem arrumado, com maca para massagem e uma cama de casal para o sexo. Logo na sala, uma arara exibe as lingeries e os saltos. Acessórios que ela costuma usar assim que o cliente chega. “Já recebo ele de lingerie”.

Sobre continuar nessa vida, ela ri. “Enquanto eu tiver dando pro gasto, eu continuo. Quero dar uma vida boa para o meu filho, principalmente estudo”, diz com os olhos cheios de lágrimas ao lembrar do menino que mora com familiares no interior de São Paulo.

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