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Meio Ambiente

Super El Niño ainda é dúvida, mas risco de fogo já preocupa MS

Mesmo sem confirmação de evento extremo, Estado se prepara para meses de maior calor e ameaça de incêndios

Por Kamila Alcântara | 24/05/2026 10:57
Super El Niño ainda é dúvida, mas risco de fogo já preocupa MS
Mapa indica ondas de chuvas e calor que podem ser provocadas pelo El Niño (Foto: NOAA/Via MetSul)

Depois de semanas de alertas sobre um possível “super El Niño”, o risco para Mato Grosso do Sul pode estar menos no tamanho do fenômeno e mais no calendário. A previsão oficial ainda não confirma um evento extremo, mas aponta alta probabilidade de El Niño no segundo semestre de 2026, justamente no período em que o Estado costuma entrar na fase mais crítica para incêndios florestais.

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El Niño deve se formar no segundo semestre de 2026 com probabilidade superior a 80%, segundo nota técnica de abril elaborada por INPE, INMET, Funceme e Censipam. Para Mato Grosso do Sul, o risco está no período entre o fim da seca e a chegada das chuvas, quando calor e ar seco aumentam o perigo de queimadas no Pantanal e no Cerrado. O Corpo de Bombeiros já prepara reforços para a temporada.

Nota Técnica conjunta de abril, elaborada por INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos) e Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), afirma que há probabilidade superior a 80% de configuração do El Niño ao longo do segundo semestre. O fenômeno pode se estender até, pelo menos, o início de 2027.

A palavra “super”, porém, ainda precisa ficar no freio. O próprio documento diz que a intensidade do evento “ainda não está claramente definida”, embora as condições atuais indiquem possibilidade de um El Niño ao menos moderado. Em linguagem simples: o fenômeno deve se formar, mas ainda não dá para cravar que será extremo.

O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Esse calor muda a circulação dos ventos e interfere no regime de chuvas e temperaturas em várias partes do planeta. No Brasil, os efeitos mais conhecidos são aumento de chuva no Sul, redução de chuva no Norte e Nordeste e temperaturas mais altas em boa parte do país.

Em Mato Grosso do Sul, a história é mais complicada. A nota técnica afirma que o Centro-Oeste não apresenta uma correlação tão forte com El Niño ou La Niña quanto outras regiões brasileiras. Ou seja, não é correto resumir o cenário local com uma frase simplista como “El Niño vai secar MS”.

O ponto central para o Estado está na sequência dos meses. O documento aponta tendência de temperaturas mais elevadas em toda a região Centro-Oeste, principalmente no fim do inverno, na primavera e no verão. Esse calor, no fim do inverno e durante a primavera, ajuda a derrubar a umidade relativa do ar e aumenta o risco de queimadas.

Para Mato Grosso do Sul, o risco real pode estar nessa janela entre o fim da seca e a chegada mais firme das chuvas. É o período em que a vegetação já está ressecada, a umidade costuma cair, os ventos podem espalhar focos de fogo e qualquer queimada fora de controle ganha força rapidamente. No Pantanal e no Cerrado, essa combinação costuma pesar mais do que o nome técnico do fenômeno.

Super El Niño ainda é dúvida, mas risco de fogo já preocupa MS
El Niño: principais impactos no planeta de junho a setembro (Imagem: Climatempo/NOAA)

A própria nota traz uma aparente contradição que ajuda a entender o problema. Em períodos de El Niño forte, observações indicam maior regularidade das chuvas no verão e no outono em Mato Grosso do Sul e parte de Goiás. Isso pode ajudar mais adiante, mas não elimina o perigo anterior. Antes da chuva ficar mais regular, o Estado pode passar por meses de calor e ar seco justamente na temporada mais sensível para incêndios.

É por isso que o alerta dos Bombeiros não depende apenas da confirmação de um “super El Niño”. O CBM/MS (Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul) já iniciou preparação para o segundo semestre, com reforço de bases, efetivo, equipamentos e monitoramento. A corporação trabalha com a possibilidade de uma temporada intensa, depois das crises de incêndios enfrentadas em 2020 e 2024, especialmente no Pantanal.

Segundo a corporação, o PEMIF (Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo) prevê mobilização de até 170 militares exclusivamente dedicados ao combate a incêndios florestais, além de apoio de brigadas, prefeituras, órgãos ambientais e, se necessário, da Força Nacional. Também estão previstas até 11 bases avançadas em áreas de difícil acesso, como a região do Amolar, no Pantanal.

O Estado chega a 2026 com cicatrizes recentes. Em 2020, considerado o pior ano de queimadas no Pantanal, 3,9 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo no bioma, sendo 1,8 milhão em território sul-mato-grossense, conforme dados do LASA (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Em 2024, cerca de 1,9 milhão de hectares queimaram em Mato Grosso do Sul, dos quais aproximadamente 1,7 milhão no Pantanal, segundo balanço do Governo do Estado e do Corpo de Bombeiros.

Os mapas de projeção do Pacífico equatorial reforçam o cenário de atenção. Modelos climáticos indicam aquecimento progressivo das águas na região Niño 3.4, usada como referência para monitorar o El Niño. A nota técnica também mostra que, em abril, as anomalias negativas no Pacífico equatorial diminuíram e deram lugar a áreas próximas da média ou mais quentes que o normal, padrão compatível com o início de desenvolvimento do fenômeno.

Outro sinal vem das águas abaixo da superfície do mar. O documento aponta anomalias positivas consistentes até cerca de 300 metros de profundidade no Pacífico equatorial, com valores acima de 2°C em ampla faixa e pontos superiores a 4°C. Esse calor armazenado abaixo da superfície funciona como combustível para a evolução do El Niño nos meses seguintes.

Ainda assim, previsão climática não é sentença. A própria nota ressalta que os impactos podem variar conforme a interação com outros sistemas, como as condições do Atlântico Tropical. Esse detalhe importa para o Brasil e para Mato Grosso do Sul, porque chuva e calor não dependem apenas do Pacífico. O clima é um tabuleiro com mais peças do que parece, e algumas delas se mexem rápido.

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